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LEIS E REPRESENTAÇÕES SOCIAIS

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Spadoni (2016) afirma que é muito íntima a relação entre a promulgação e aplicação de uma lei, bem como as representações sociais. De acordo com a autora, é importante ressaltar alguns pontos dessa inter-relação constantes no QUADRO 7 abaixo:

QUADRO 7 Pontos da interrelação

Situação Hipótese Afirmativa Exemplo

A lei acompanha a mudança das Representações Sociais (RS).

A criação de uma nova lei já é um sinal de uma mudança nas RS dos objetos em questão, uma vez que uma lei não é promulgada fora do seu tempo (SPADONI, 2016, p. 85-86).

Quando a lei chega a ser cogitada significa que, pelo menos para alguns grupos, as RS estão em processo de mudança (SPADONI, 2016, p. 86). A maior participação da mulher no mercado de trabalho impôs a criação de muitas leis, como a licença- maternidade e a cota de mulheres nas candidaturas políticas. Mas essas leis só foram propostas depois que já havia

uma prática estabelecida, ou seja, depois que as mulheres já tinham conquistado um espaço significativo no mundo do trabalho (SPADONI, 2016, p. 86). A lei contradiz as Representações Sociais (RS).

Como as leis são escritas por uma classe dirigente, muitas vezes elas não coincidem com as RS dos grupos que não fazem parte dessa classe. E surgem, então, as dificuldades na aplicação da lei, já que ocorre um choque entre as práticas já adquiridas e a nova prática imposta

É muito difícil mudar uma prática já

estabelecida e, por isso, a simples promulgação da lei não é suficiente para mudar o

comportamento das pessoas. Daí a necessidade de

mecanismos de controle e punição, que nem sempre se demonstram

Pode-se citar como exemplo o fato de muitos artigos do Estatuto da Criança e do Adolescente serem cotidianamente descumpridos, pois vão ao encontro de velhas crenças e práticas sobre educação de filhos

pela lei (SPADONI, 2016, p. 86).

eficientes. Portanto, as leis permanecem nos papéis sem nunca serem realmente aplicadas (SPADONI, 2016, p. 86). (SPADONI, 2016, p. 86). Fonte: CARNEIRO, 2019.

Spadoni afirma também que

a adesão das pessoas ao comportamento prescrito por uma nova lei vai depender do nível de implicação da pessoa, ou seja, vai depender do quanto essa nova lei é importante para a vida dessa pessoa em questão”, ou seja, “as pessoas avaliarão se devem ou não cumprir as leis que se chocam com suas representações a partir da valorização da questão, da identificação pessoal e da possibilidade percebida de ação (SPADONI, 2016, p. 87 e 89).

Segundo a autora essa avaliação é realizada da forma descrita no QUADRO 8 abaixo:

QUADRO 8

Avaliação das implicações pessoais

Implicação Pessoal Definição Polos Extremos Exemplo

Valorização do objeto

Identifica a

importância para o indivíduo.

“É uma questão de vida ou morte”; “É uma questão sem nenhuma importância”

Posso ser um militante das causas ecológicas. Posso achar que as causas ecológicas são sem importância. Identificação da pessoa Identifica a proximidade do objeto em relação ao indivíduo. “Isso me afeta pessoalmente”; “Isso não me afeta mais do que afeta as outras pessoas”

Posso receber o aumento do salário e, por isso, ter minha vida afetada. Posso achar importante o aumento de salários dos funcionários públicos, mas isso não me afeta. Possibilidade percebida de ação Identifica o sentimento de possibilidade de ação em relação à circunstância vivida pelo indivíduo. “Isso depende só de mim”; “Não posso fazer nada. Está fora do meu alcance”.

Só depende de mim preservar o planeta; Está fora do meu alcance impedir a degradação do planeta Fonte: SPADONI, 2016.

Por isso é que a autora conclui que, segundo estudos de Ernest-Vintila e Richardot (2010, p.14), “as políticas públicas são mais eficazes quando não se contentam apenas em legislar sobre o comportamento das pessoas, mas se preocupam em criar medidas que promovam novas práticas”, ou ainda quando educam para a nova lei (SPADONI, 2016, p. 94).

Para a autora, pesquisa internacional realizada por Stoetzel (1983) concluiu que

os valores se organizam entre eles e podem orientar tomadas de posições políticas. Ele percebeu que existe uma oposição entre os valores liberdade e igualdade, no campo político. A esquerda política tende a priorizar a igualdade em detrimento da liberdade e a direita política prioriza a liberdade em detrimento da igualdade (SPADONI, 2016, p. 99).

A autora afirma ainda que os valores e as normas estão intrinsecamente ligados, uma vez que as normas “são as regras comuns de aplicação, de promoção e de preservação dos valores reconhecidos dentro dos registros da ação” (SPADONI, 2016, p. 101).

Mas Moscovici encontrou um quarto prisma de análise para além das crenças, valores e normas, quais sejam, as tematas, o que se reflete a seguir.

2.3.1. Tematas

De acordo com Spadoni (2016), autora sobre a qual será tratado o presente tema, o último objeto de estudo de Moscovici conceituou as tematas como sendo oposições, antônimos, quase sempre bipolares através das quais se enquadram as experiências do mundo como, por exemplo, a justiça e a injustiça, o bom e o mau, o belo e o feio, o igual e o desigual.

Assim é que as tematas geram e organizam o pensamento social e, uma vez que se classifica alguma situação como justa ou injusta, geram-se várias representações sociais, atitudes, opiniões, normas e valores.

Portanto, crenças, valores, normas e tematas são conceitos de nível ideológico, ou seja, eles pertencem a um conhecimento amplo que tem por objetivo manter a ordem e as hierarquias sociais e econômicas.

Ordem e hierarquia essas que são responsáveis pela construção da arquitetura do pensamento social que se constitui a partir dos conceitos mais instáveis, como as opiniões que são muito volúveis, uma vez que basta um argumento ou nova informação sobre determinado objeto para que as pessoas mudem de opinião.

Em seguida vêm os conceitos de nível ideológico que, por serem mais estáveis, mudam raramente, geralmente após um longo tempo, característico dos processos históricos.

O conceito mais global são as tematas que variam muito pouco de pessoa para pessoa, e são identicamente perceptíveis em todas as culturas. Assim é que quando uma pessoa lê uma notícia polêmica no jornal, ela forma uma opinião sobre aquela

notícia segundo os seus próprios valores morais, crenças e representações sociais. Dessa forma, as opiniões são alimentadas pelas atitudes e essas pelas representações sociais.

Por tudo isso é possível verificar que as opiniões e atitudes são mais volúveis e mudam de pessoa para pessoa. Já os valores, normas, crenças e tematas são mais estáveis e sofrem pouca variação.

Pode-se, portanto concluir que, segundo o Quadro 9, a arquitetura do pensamento social ocorre da seguinte forma:

QUADRO 9

Arquitetura do pensamento social

Variabilidade intra e interindividual

Nível ideológico

(Crenças, valores, normas, tematas) Representações Sociais

Atitudes Opiniões

Nível de integração

Fonte: SPADONI, 2016.

Feitas essas considerações, segue-se à análise da pesquisa propriamente dita, com consequente discussão dos resultados.

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