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3 A JUSTIÇA DE TRANSIÇÃO E O DILEMA COM A LEI DE ANISTIA

3.3 LEIS DE IMPUNIDADE ARGENTINAS

Como abordado no tópico 2.2.3 deste trabalho, o início do governo de Raul Alfonsín, o primeiro presidente civil após o término da ditadura militar argentina, foi marcado pela realização de atos que buscavam o esclarecimento e a punição dos responsáveis pelas graves

violações de direitos humanos ocorridos durante o “Processo de Reorganização Nacional”.

Dentre as principais medidas, pode-se destacar a declaração de nulidade da lei de autoanistia promulgada ainda no período ditatorial e o julgamento dos agentes de Estado ligados à repressão, em especial do alto escalão (MACHADO, 2015).

Todavia, em razão da pressão dos integrantes das Forças Armadas, o presidente

de Obediência Devida (RAUSCHENBERG, 2014). Ambas as legislações, cada a uma à sua maneira, transformaram-se num verdadeiro passo atrás na busca pela justiça transacional em terras argentinas.

3.3.1 Lei do Ponto Final

A Lei n° 23.492 de 24 de dezembro de 1986 definia um prazo determinado para o ajuizamento de novas ações em face dos agentes de Estado envolvidos em crimes cometidos durante o regime militar, conforme se extrai de seu artigo 1°:

Artigo 1°: Será extinta a ação penal de todas as pessoas por suposto envolvimento em qualquer grau, nos crimes do art. 10 da lei 23. 049, que não seja um fugitivo ou declarado revel, ou que não tenha sido ordenada sua citação para prestar declarações por um tribunal competente, antes de 60 dias corridos a partir da data de promulgação desta lei. Nas mesmas condições, serão extintas as ações penais contra qualquer pessoa que tenha cometido crimes relacionados à apuração de condutas violentas ação política até 10 de dezembro de 1983 (ARGENTINA, 1986, tradução de ANDREUCCI; CARVALHO NETO, 2015, p. 87).

A ideia principal era que, estabelecendo um prazo reduzido para a apresentação de novas denúncias, reduzir-se-ia o número de militares e outros agentes nos bancos dos réus, fato este que acalmaria os ânimos das Forças Armadas (ANDREUCCI; CARVALHO NETO, 2015).

A sociedade argentina, todavia, respondeu de forma inédita: aumentou-se, durante esse prazo de sessenta dias, o número de denúncias feitas por entidades de direitos humanos e pelas próprias vítimas da pressão (MACHADO, 2015). Além disso, Andreucci e Carvalho Neto (2015) e Mezzaroba (2008) também ressaltam a importância do Poder Judiciário argentino, que cancelou as férias de janeiro de seus servidores para aproveitar ao máximo o trabalho destes.

Contudo, em que pesem os esforços despendidos tanto pelo judiciário, como também pela própria população, uma nova lei foi sancionada no ano seguinte e aumentou ainda mais a sensação de impunidade (MACHADO, 2015).

3.3.2 Lei de Obediência Devida

Menos de seis meses após a publicação da Lei do Ponto Final, foi promulgada, em 8 de junho de 1967, a Lei n° 23.521, cujo artigo 1° estabelecia o seguinte:

Artigo. 1º - Presume-se sem admissão de prova em contrário de que aqueles na data do fato estavam investidos como comandantes, oficiais subalternos, sargentos e praças das forças armadas, de segurança, e policia penitenciarias, não são puníveis pelos crimes referidos no art., 10 inciso 1º da Lei 23,049 por ter agido sob a obediência, bem como para os oficiais superiores que não tinham servido como comandantes-chefes, presidente de divisão, área de subchefe ou chefe da força de segurança, polícia ou prisão, desde que não tenham tido a capacidade de tomada de decisão ou a participação na preparação de pedidos (ARGENTINA, 1987, tradução de ANDREUCCI; CARVALHO NETO, 2015, p. 89).

O termo “obediência devida” não era nenhuma novidade para a sociedade argentina,

em especial para as forças policiais, sendo utilizada por diversas vezes, desde os anos de 1930, para justificar atos cometidos por autoridades que extrapolassem a legalidade (KALMANOWIECKI, 1998). Sobre a obediência devida, conceitua Kalmanowiecki (1998, 315-316):

A obediência devida à regra hierárquica de comando dentro da instituição policial acabaria por protegê-los tanto do braço da lei quanto da censura pública. [...] Em resumo, obediência devida queria dizer que os funcionários policiais não poderiam ser responsabilizados por ações ordenadas por autoridades superiores, mesmo que fossem ilegítimas ou executadas de maneira abusiva.

Cumpre esclarecer que o plano inicial de Alfosín, primeiro presidente eleito após a redemocratização argentina, era de separar os agentes de Estado envolvidos nos crimes do

“Processo de Reorganização Nacional” em três grupos principais: aqueles que deram as

ordens de repressão, aqueles que a obedeceram fielmente e aqueles que ultrapassaram os limites da ordem recebida, sendo que apenas o primeiro e o segundo grupo deveriam ser responsabilizados (NOVARO; PALERMO, 2007). Machado (2015) destaca que essa decisão preliminar visava evitar uma crise institucional, uma vez que o número de agentes de Estado envolvidos em violações de direitos humanos era muito grande.

No entanto, os julgamentos, que antes se limitavam aos altos escalões, começaram a se voltar para os subordinados, tendo a própria Suprema Corte argentina rechaçado a ideia de obediência devida (MACHADO, 2015). Tal fato, já exposto no capítulo anterior, gerou uma revolta nas Forças Armadas, que exigiam o fim dos julgamentos (RAUSCHENBERG, 2014; ANDREUCCI; CARVALHO NETO, 2015).

Assim, com a Lei de Obediência Devida, resgatou-se a antiga ideia de Alfonsín de afastar a responsabilidade dos militares de baixo escalão, mas, mais do que isso, a referida legislação estabelecia uma presunção jure et de jure (absoluta) de que todos estes agiram, exclusivamente, em obediência de ordens hierárquicas superiores (ARGENTINA, 1987), abrangendo, inclusive, os atos cruéis e desumanos cometidos durante o regime (ANDREUCCI; CARVALHO NETO, 2015).

O artigo 2° da referida lei, trazia, ainda, algumas exceções à abrangência da Lei da Obediência Devida: “[...] os crimes de estupro, sequestro e ocultação de menores ou substituição de seu estado civil e extensa apropriação de bens imóveis” (ARGENTINA, 1987, tradução do autor7).

Machado (2015) observa que, na época da promulgação da lei, não se tinha o conhecimento de que o sequestro de menores era realizado de maneira institucionalizada. Contudo, essas exceções, em especial o desparecimento de menores, embora tenham sido os únicos casos levados ao Poder Judiciário argentino durante muito tempo, revelaram à sociedade um verdadeiro esquema de sequestro e apagamento das identidades dessas crianças (RAUSCENBERG, 2014).

As Leis de Impunidade argentinas só foram efetivamente superadas quase duas décadas após a sua promulgação, em julgamento histórico realizado pela Suprema Corte, conforme será abordado no próximo capítulo.

7No original: “[...] violación, sustracción y ocultación de menores o sustitución de su estado civil y apropiación

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