CAPÍTULO 2 – UMA AUTONOMIA POSSÍVEL
2.4 O LEITOR COMO COAUTOR DO TEXTO
Outro pensador que reforça a tese de que o leitor não é um receptador passivo da obra, destacando a importância da linguagem nesse processo, é Bakhtin (2009, p. 153): “Aquele que apreende a enunciação de outrem não é um ser mudo, privado de palavra, mas ao contrário um ser cheio de palavras interiores”. A língua, para este autor, não é uma entidade objetiva e abstrata. Embora possua um sistema linguístico, e este sim é uma abstração, quem a utiliza tem o propósito imediato de comunicação. Assim, mais do que a preocupação com a conformidade à norma, o usuário se interessa pelas significações possíveis que a forma adquire no contexto:
O que importa não é o aspecto da forma linguística que, em qualquer caso em que esta é utilizada, permanece sempre idêntico. Não; para o locutor o que importa é aquilo que permite que a forma linguística figure num dado contexto, aquilo que a torna um signo adequado às condições de uma situação concreta dada. (BAKHTIN, 2009, p. 96)
É o usuário que define o seu uso, logo a língua é viva, variável e flexível e se constitui socialmente a partir de vozes sociais. É importante ressaltar que, ao mesmo tempo em que as pessoas são constituídas pela cultura e pelas práticas sociais nas quais estão inseridas, também influenciam e ajudam a constituir essas práticas e criam múltiplas interpretações de mundo, que variam de acordo com o tempo e o lugar. Para este autor, “O ser, refletido no signo, não apenas nele se reflete, mas também se refrata” (BAKHTIN, 2009, p.47).
O interlocutor não é um repositório de discursos, já que, por mais autoritários que possam ser, eles serão lidos a partir do repertório de conhecimentos e experiências de quem o recebe e este repertório vai interferir e atribuir outros
significados ao texto: “O narrador pode deliberadamente apagar as fronteiras do discurso citado, a fim de colori-lo com as suas entoações, o seu humor, a sua ironia, o seu ódio, com o seu encantamento ou o seu desprezo”. (BAKHTIN, 2009, p. 157).
Aliás, o humor, ou o riso, assim como para Garcia Canclini, são apresentados por Bakhtin (2010, p.46) como uma possibilidade de dessacralização e relativização. A seriedade normalmente é a norma que legitima o poder. Na medida em que o humor provoca deslocamentos, surgem espaços de negociação importantes, nos quais o intérprete pode construir outras análises, elaborar diferentes respostas e pensar por outro viés esse poder legitimado. O humor, para ele, é um importante elemento de transgressão.
Concebendo que a linguagem é constituída a partir das múltiplas experiências – ou das muitas falas dos outros –, é possível concluir que a interpretação da realidade é única para cada indivíduo. Ainda que se perceba uma intenção de formatar os sujeitos, e nesse aspecto a mídia (a escola também) ocupa um espaço importante, não é possível garantir que esse encontro sociocultural seja recebido por todos de forma homogênea: além de diferentes repertórios, o indivíduo “é falado” a partir de diálogos diversos, que darão origem a diferentes interpretações e visões de mundo.
Neste sentido, o conceito de diálogo recebe destaque na teoria de Bakhtin, pois a partir dele é possível observar como ocorre a interação entre as vozes sociais, que, muitas vezes, são conflituosas e tensas. Isso ocorre porque os envolvidos assumem posicionamentos que podem ser opostos e contrários, e, ao assumir um enunciado, necessariamente outro será excluído, isto é, trata-se de um processo de escolha, jamais de aceitação passiva, ainda que exista a questão do poder circulando entre essas vozes. De acordo com Faraco (2003, p. 67), o diálogo, segundo Bakhtin, “deve ser entendido como um vasto espaço de luta entre vozes sociais”.
A pluralidade dialogizada é um espaço democrático a todas as vozes e também o lugar da resistência aos processos autoritários que negam a existência do outro. Para Bakhtin, “Viver significa tomar parte no diálogo”. (apud FARACO, 2003, p. 73).
É a partir das inúmeras vozes sociais, das relações dialógicas de aceitação e recusa, de harmonia e de conflito, de intersecções e hibridizações que emerge o sujeito dialógico, cujo interior está povoado de vozes sociais consonantes e dissonantes, autoritárias e persuasivas, em contínuo devir, e que são determinantes na formação de uma consciência individual. Para Bakhtin, não existem discursos
puros, estes são sempre citados, produto das várias vozes incorporadas a partir das diversas experiências ao longo da vida. “O discurso citado é o discurso no discurso, a enunciação na enunciação, mas é, ao mesmo tempo, um discurso sobre o discurso, uma enunciação sobre a enunciação” (BAKHTIN, 2009, p. 150).
Esse modo de pensar, considerando os processos dialógicos, desconstrói o conceito de autor que, segundo Faraco (1998, p. 161), tem sido “entendido como a agente individual e solitário que cria o texto”. Essa é uma visão que segue os pressupostos românticos, que associa o autor à figura do gênio criador, à imaginação criadora e à fonte de inspiração. Em conjunto com este conceito, consolidam-se outros, como propriedade intelectual, ou seja, a obra tem um autor que será responsabilizado em caso de transgressões, como por exemplo o plágio.
A apreciação, entendida nessa concepção unilateral, também prevê que o texto tem uma única leitura possível, que é o significado criado pelo autor. Ao receptor caberia apenas buscar informações sobre a vida e o pensamento do autor, o que lhe possibilitaria decifrar tal significado.
O Marxismo e a Psicanálise vão questionar de forma contundente tal compreensão, partindo do princípio que tanto as forças da Ideologia quanto as do Inconsciente determinam as ações e os discursos das pessoas. Mas é a partir dos anos 1960 que ocorrem as mudanças mais radicais, quando o próprio texto passa a ser o objeto central de estudo, em detrimento da vida do autor. Escrever deixa de ser um ato de expressão individual e, de acordo com Faraco (1998, p.163), “passa a ser encarado como uma espécie de jogo interativo de signos. É como se disséssemos que quem “fala” são os códigos e não quem escreve”.
O texto passa a ser compreendido como um espaço de encontro de escritas de tempos, espaços e culturas diversas, e emerge o conceito de intertextualidade, isto é, a presença de outros discursos, outros autores, enfim, de citações que compõem um texto, que, por sua vez, não tem mais um significado único e último. Dessa forma, espera-se, também, um outro leitor, agora compreendido como um elemento ativo capaz de propor significações. “Nesse sentido, veio-se afirmar que os textos são infindamente criados pelos leitores no processo de leitura” (FARACO, 1998, p.164). Assim, é possível conceber o leitor (espectador) como um coautor da obra.