3. CAPÍTULO III: LEITOR – COMO LER O OUTRO
3.2 O leitor implícito
Apesar de existirem muitos pontos em comum entre a teoria de Jauss e Iser como a relação dialógica entre texto e leitor, ambos mantém limites distintos: enquanto o primeiro se situa a partir de uma dimensão histórica, o último conduz seus estudos por meio de uma dimensão estética, enfatizando a figura do leitor implícito como construção textual. Faz-se necessária, portanto, a análise detalhada das reações do leitor enquanto a leitura de determinado texto é realizada.
O conceito de leitor implícito é formulado a partir da teoria de autor implícito elaborada por Wayne Booth, em contrapartida os conceitos não são necessariamente simétricos e correlatos. Iser (1974) define leitor implícito como a entidade que incorpora tanto a pré-estruturação do sentido potencial efetuada pelo texto, como a realização deste potencial efetuada pelo leitor durante o processo de leitura, sendo assim, é uma entidade meramente textual, a principio, por não estar vinculada a uma existência concreta porque é anterior ao ato de recepção.
[...] o leitor implícito não tem existência real; pois ele materializa o conjunto das preorientações que um texto ficcional oferece, como condições de recepção a seus leitores possíveis. Em conseqüência, o leitor implícito não se funda em um substrato empírico, mas sim na estrutura do texto (...) a concepção do leitor implícito designa então uma estrutura do texto que antecipa a presença do receptor. (ISER, 1996, p. 73)
Iser enumera ainda várias nomenclaturas de leitores formuladas por outros teóricos da Estética da Recepção, por exemplo, o arquileitor de Rifaterre, o leitor informado de Fish e o leitor intencionado de Wolff, conceitos concebidos “como construções, mas todos se referem, de maneira mais ou menos evidente, a um substrato empírico” (ISER, 1996, p. 67).
O leitor implícito é passivo perante o texto, pois ele só apreende aquilo que lhe é concedido, sua função se limita a absorver elementos que o autor fornece, por isso, é apenas uma estratégia textual pré-determinada. Em contrapartida, o leitor empírico (real) tem a função de construir o sentido do texto a partir dos dados fornecidos pelo leitor implícito e com o auxilio do repertório que possui. “O leitor implícito propõe um modelo ao leitor real; define um ponto de vista que permite ao leitor real compor o sentido do texto” (COMPAGNON, 2006, p. 151), portanto, um é dependente do outro para que a leitura não se torne um ato
mecânico baseado somente na estrutura textual ou nas experiências de vida do interlocutor. A obra literária é aberta a partir do momento que conta com a colaboração tanto do leitor, de quem se espera uma interpretação eficaz, quanto do autor, que projeta a figura de um leitor ideal, o que faz com que o leitor não seja totalmente livre, pois a liberdade a ele concedida é mascarada nas atitudes do autor, nos pontos de indeterminação do texto; o autor continua delineando as regras do jogo, cabendo ao leitor obedecê-las. O gênero em que o texto é escrito demonstra os limites para interpretação, pois apesar de ajudar o leitor a compreender o texto por meio de sua estrutura, impõe um conjunto de regras e normas que não devem ser ultrapassados, assim como a língua em que o texto é escrito é imposta, não é escolhida pelo leitor.
Somente por meio da relação autor-texto-leitor os significados das palavras lidas são compreendidos. A interpretação sempre se estabelecerá por meio do que não está incluso, por isso as entrelinhas, os vazios, aquilo que não está escrito são o lugar ideal para a ocupação do leitor. Os vazios abrem frestas para que o processo de (re)interpretação pelo qual o leitor é responsável seja possível, mas também o regulam, não permitindo que o leitor interprete somente a partir de suas intenções em dissonância ao que o autor projetou para seu texto. Os significados dos textos literários permanecem inacabados, pois sentidos diferentes confundem-se e se entrecruzam na interação entre texto e leitor, uma vez que este se move pelos diferentes limites possíveis para interpretação, ora se detendo sobre um, ora sobre outro, constituindo suas próprias percepções, mesmo que imbricadas com as possibilidades oferecidas pelo texto. Os vazios dos textos ficcionais exigem, portanto, a decisão seletiva do receptor que “deve adquirir um senso de discernimento, e isso requer a capacidade de abstrair-se de suas próprias atitudes, para que ganhe a distância necessária ao julgamento de seu próprio modo de orientação” (ISER, apud Lima, 1979, p. 111).
Há vazios a serem preenchidos em diversos momentos da leitura de Serena, principalmente a partir de uma segunda leitura, em que o leitor já possui a informação de que a protagonista, além de personagem de Ian McEwan, também é personagem e narradora do ficcionista Tom Healy, que se propõe a escrever um romance sobre a amada a partir das informações que detém sobre seu cotidiano, sua família e seu trabalho no MI5. O leitor, portanto, deve pensar a partir da perspectiva de Tom para compreender Serena, a leitora voraz que é capaz de memorizar todas as palavras de um poema, mas não se prender ao sentido do conjunto formado por elas.
“Diga para mim tudo o que você se lembra do poema.” Aí eu disse tudo o que eu sabia, quase verso a verso, e até lembrei dos fardos de feno, das nuvenzinhas, dos
salgueiros e da rainha dos prados além de Oxfordshire e Gloucestershire. Ele pareceu impressionado e estava me olhando de um jeito esquisito, como se estivesse fazendo uma descoberta. Ele disse “A sua memória está perfeita. Agora tente se lembrar dos sentimentos”. […] Eu disse, “Eu tenho certeza de que não há nenhuma menção a sentimentos37.” (MCEWAN, 2012, p. 217)
No trecho acima, percebe-se o simples ato de decifrar sinais gráficos a que a leitura ficou relegado a por muito tempo, assim como Tom insiste, é preciso descobrir os sentimentos de um poema, interpretá-lo e refletir acerca dos próprios sentimentos com relação às palavras. Serena também caracteriza o leitor comum e de algum modo o conceito de leitor implícito ao aglutinar as informações que lhe são concedidas e necessitar de Tom, que caracteriza o leitor empírico, para perscrutar os caminhos enevoados da interpretação.
Em outro trecho Serena demonstra seus hábitos de leitura ao ler um dos contos de Tom Healy e tal qual o leitor comum tem a prática de interromper a leitura para pegar um copo de água ou uma xícara de chá ou ainda fazer qualquer outra coisa para postergar o momento em que será obrigada a ler algo que a inquieta.
Com certa relutância, levei o chá para cima e sentei na beira da cama, criando a coragem de pegar mais algumas páginas de Healy. Claramente a ideia era que o leitor não obtivesse nenhum alívio da loucura do milionário, ele não teria chance alguma de ficar do lado de fora e ver aquilo como era de verdade. Não havia a menor possibilidade de que esta história melosa terminasse bem.38 (MCEWAN, 2012, p. 149)
A personagem se utiliza de conhecimentos adquiridos em leituras anteriores para afirmar que não tinha possibilidade de que aquele enredo que lia terminasse bem, o que reafirma sua relutância em continuar a leitura do conto, já que ela adorava enredos com finais felizes.
Como adendo, ressalta-se a teoria proposta por Stanley Fish (1980) que se preocupa com o que acontece quando se lê, baseada na diluição da tríade entre autor, texto e leitor e na disputa de autoridade entre esses elementos, condicionando seus papéis ao que denomina como comunidades interpretativas que fornecem as normas de interpretação (literárias e extraliterárias) que um grupo social compartilha, um texto não possui sentido fora
37 No original: “Say it back to me, everything that you can remember.” So I told him all I knew, almost line by line, and even remembered the haycocks, cloudlets, willows and meadowsweet, as well as Oxfordshire and Gloucestershire. He seemed impressed and he was looking at me oddly, as if he was making a discovery. He said, “There’s nothing wrong with your memory. Now try to remember the feelings.” [...] I said, “I’m sure there isn’t a single mention of a feeling”.
38 No original: “With some reluctance, I carried my tea upstairs and sat on the edge of my bed, willing myself to pick up another of Haley’s pages. Clearly, the reader was intended to have no relief from the millionaire’s madness, no chance to stand outside it and see it for what it was. There was no possibility of this clammy tale ending well”.
do conjunto de pressuposições instaurados por uma comunidade e devem ser interpretados coletivamente e não mais a partir de um só individuo, ou seja, o leitor. Muitos teóricos criticam essa linha de pensamento porque ela retira toda a liberdade que outrora fora concedida ao leitor, mas ela demonstra ser apenas um conceito mais arraigado do que aquilo que já ocorre a partir da relação dialógica entre os mesmos elementos, apenas a função interpretativa que é responsabilidade de um único sujeito recai sobre um grupo social.
Para Iser a leitura deve contribuir para que o leitor reflita e repense o mundo em que vive, mas somente uma experiência de leitura que não resvale na previsibilidade, no automatismo e na padronização permite tal prática. Ao leitor cabe ainda o papel de decifrar a imensa rede textual tecida pelo autor e selecionar as informações relevantes para se inserir no mundo da leitura e da releitura.