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5. PRODUÇÃO DE SENTIDO MULTIMODAL NOS GÊNEROS DO DISCURSO

6.1 LEITURA DISCURSIVA, TRANSMUTATÓRIA E SEMIÓTICA

Com a divisão do protocolo em três grandes macrocategorias: 1) discursiva; 2)

transmutatória e 3) semiótica; o olhar do pesquisador – embora necessite de múltiplas

leituras da amostra – focará a busca por esses elementos em três níveis de leituras principais. A imagem a seguir apresenta, por exemplo, como ocorre a leitura dos elementos discursivos:

Figura 29 – Exemplo de aplicação

Fonte: (Os autores, 2020).

As categorias (a1); (a.1.1) e (a.1.2) representadas nos círculos alaranjados decorrem de múltiplas leituras na narrativa em que certos elementos (enaltecidos com a cor rosa) vão construindo a interpretação do pesquisador sobre o objeto. Parte da temática pode ser observada no título e no texto da chamada, pois apresentam o assunto e o léxico denota caraterísticas discursivas e de estilo de linguagem da esfera e do veículo. A data é

importante para compreender o contexto. Ao analisar a narrativa como um todo, é possível observar que gêneros a composição utiliza, de que forma ela os articula, se tem blocos de escrita, assim como destacados dos números de 1 a 5. O estilo é interpelado em vários níveis, em especial: 1) a esfera jornalística; 2) o veículo de comunicação; e 3) a própria temática; portanto, no exemplo apresentado, a linguagem jornalística se une à proposta editorial do Nexo Jornal, tratando da temática da hidrografia, com aspectos estilísticos que reforçam o tema, como o fundo azul, recursos visuais com cores análogas e linguagem cartográfica específicas de hidrografia. A leitura é recorrente, pois as categorias estão interligadas umas às outras; permitindo que o pesquisador se aprofunde em camadas no gênero discursivo, porque alguns aspetos não estão aparentes numa primeira leitura. Assim decorre também a apreciação das demais categorias discursivas (a2); (a3); (a4); (a5) e (a6).

Na macrocategoria dos aspectos transmutatórios (b1); b2); (b3) e (b4), a leitura se volta para os gêneros utilizados na composição, de que maneiras são utilizados (se mesclados ou não) e no grau de verbo-visualidade que apresenta. Dessa forma, a figura 29 exemplifica a leitura feita buscando esses aspectos de gênero. No infográfico Cuarenta

Anos de Terror de Oyervides (2019) o pesquisador busca mapear os diferentes gêneros

que são utilizados; no caso, as flechas no tom rosa identificaram o uso de ilustrações (b.2.3), de fotografias (b.2.1), de linha do tempo (b.2.10) e de planta arquitetônica (b.2.4); a partir dessas identificações, busca-se compreender se os gêneros são utilizados na arquitetônica de forma articulada ou não (b3).

Figura 30 – Exemplo de análise nos parâmetros transmutatórios

Fonte: (Os autores; 2020). Fonte do infográfico: (OYERVIDES; PALMA, 2019).

Na categoria (b4) em que se busca compreender de que forma a esfera e o suporte tecnológico da web moldam o design do layout, a análise não se detém apenas na narrativa, mas ao todo do conjunto da tela, como apresentado na figura 30 em que se destacam vários elementos advindos da esfera ou do suporte, tais como a logo do veículo, o tamanho do título, a fonte, a cor, a diagramação, as tags, a verticalização da narrativa, etc.

Figura 31 – Exemplo de aplicação com enfoque no layout e na esfera

Fonte: (Os autores, 2020).

A sistemática da leitura dos aspectos sociossemióticos é semelhante à leitura dos aspectos transmutatórios; a mudança está na busca do investigador pelos recursos da modalidade visual caracterizada por Kress e Van Leeuwen (2001 [1996]) e debatido por outros teóricos da multimodalidade como Cope e Kalantzis (2009). A figura 31 exemplifica a aplicação das categorias (c1); (c2) e (c3). As marcações mostram que foram encontradas na amostra os elementos da cor (c.1.3), linha (c.1.2) e relação de posição; permitindo que o pesquisador investigue se esses recursos estão dispostos de maneira independente ou mesclados com outros recursos a fim de amplificar efeitos de sentido (c.2):

Figura 32 – Exemplo de leitura multimodal

Fonte: (Os autores, 2020).

O protocolo a seguir exemplifica uma aplicação na amostra INF01201602:

Tabela 5 – Protocolo de análise aplicado

(a1)

O tema versa sobre o encolhimento da calota polar, isso recai na composição uma escolha por planos

azimutais do globo terrestre, justamente para mostrar a calota. São

feitas também relações de comparação de tamanho de áreas e

utilizado gráficos de linhas que mostram a série histórica do tamanho

(a1.1)

A composição é caracterizada pela escolha do gênero mapa, apresentado no formato esférico

de um ponto de vista azimutal. Também aparece três gráficos de linhas e uma relação

de comparação entre países. A narrativa argumenta intercalando esses três tipos de

gêneros. Também se organizam na composição os elementos discursivos do

da calota. A cor azul claro do fundo cria um estilo “polar” ao infográfico ao mesmo tempo que remete ao tema, outras cores como branco, azul escuro também são utilizadas e reforçam o

estilo

(a1.2)

O nome da seção exposta no início da página já adverte ao leitor de que se trata do gênero infográfico, algo reforçado pela composição que utiliza variadas formas justapostas ao longo da narrativa. O estilo do infográfico sobre o tema do degelo no Polo Norte é

reforçado pelo fundo azul claro e pela utilização de cores como branco nos gráficos

de linha, nas legendas e na demarcação dos

hiperlinks, criando um ambiente "polar".

(a2)

O debate proposto por essa publicação é reforçar os alertas ao aquecimento global que vêm diminuindo gradualmente o tamanho das geleiras ano a ano. Embora não fale explicitamente em "aquecimento global", a sugestão de leitura no pé da página "Brasil

e efeito estufa: o impacto do clima por Estados" reforça o horizonte valorativo e todo

o aspecto ideológico/sócio-histórico em volta do tema. (a3)

O infográfico possui linguagem jornalística: tem título, subtítulos, gravata, fonte das informações, nome dos autores, hiperlinks para outras matérias. Todas essas marcas possuem tamanhos e às vezes cores específicas. Os blocos textuais seguem os padrões

jornalísticos com implementação dos argumentos mais importantes no início (lide), sem utilização de adjetivações e com informações detalhadas (busca pela clareza e

objetividade) (a4)

A relação dialógica é com os discursos sobre o aquecimento global (que advém em especial da esfera científica). Mobiliza, portanto, relações dialógicas com os modelos

econômicos seguidos pelos países e pelas empresas; com as fontes de energia que estão sendo utilizadas, em especial, petróleo, carvão e gás, que produzem matéria causadoras do aquecimento global e com as renováveis; com a destinação do lixo; com

novos ganhos econômicos e tecnológicos caso a calota derreta. (a5)

A esfera do jornalismo influência na narrativa impondo-lhe o uso de títulos, subtítulos, legendas, blocos textuais de escrita que explicam os elementos visuais. Os blocos textuais de escrita são uma característica do jornalismo que tende explicar através da escrita ao invés do produto visual em si. Nesse sentido, objetividade e imparcialidade

são ressaltados. (a6)

A construção linguística visa a objetividade proposta pela esfera jornalística, o título não deixa dúvidas e já traz a afirmação que a calota diminuiu. Os subtítulos operam como elementos de coesão, porém são utilizados de forma diferente: "Compare as

áreas" é uma forma impositiva de leitura; "Por que a calota polar ficou tão pequena esse ano" faz com que o leitor se pergunte, sinta dúvida e estimulado a continuar;

outras subtítulos funcionam como descrição ou como âncoras dos elementos visuais, por exemplo, em "Encolhimento contínuo". Ocorre utilização da escrita para nomear

(b1)

Há um sincretismo entre escrita e imagem, no plano azimutal da Terra a escrita serve para nomear os países e explicar as novas camadas de informações acrescentadas com

linhas coloridas, porém, é um infográfico que contêm grandes blocos de texto escrito explicativos, colocando os elementos visuais (em alguns momentos) como ilustradores

dessas informações. (b2.1) Não possui.

(b2.2)

Três mapas azimutais que destacam o Polo Norte para mostrar diferentes informações ao longo da narrativa. Também há uma comparação de tamanhos com os mapas do

Brasil, Polo Norte e Mato Grosso. (b2.3)

Não possui. (b2.4)

Possui ilustração do globo terrestre. (b2.5)

Possui três gráficos de linha. O primeiro versa sobre a evolução do tamanho da calota polar durantes os anos; o segundo mostra os níveis do tamanho da calota em cada mês

tendo as linhas a função de diferenciar três momentos diferentes (de 1981 a 2010, 2014 e 2015; e por último, um gráfico que mostra a evolução da calota polar durantes

os anos a partir dos dados somente do mês de setembro, com uma linha tracejada em vermelho construindo uma estimativa até 2040.

(b2.6) Não possui. (b2.7) Não possui (b2.8) Não possui. (b2.9) Não possui. (b2.10) Não possui. (b2.11)

Justaposição de elementos para fazer comparações. (b3)

O suporte web, tanto na tela do computador como na tela para celular, estruturam a narrativa numa tira vertical. Essa tira vertical é organizada pela esfera jornalística, encadeando títulos, subtítulos, mapas, gráficos, legendas e blocos textuais. Existe uma

pequena linha cinza que indica a segmentação do assunto, por exemplo, primeiro se fala da situação no presente e depois a série histórica. Possui 2 hiperlinks dentro da narrativa e possui 4 hiperlinks nas fontes consultadas. Todas estão grifadas com cor branca, que auxiliam no estilo. A possibilidade de compartilhar está fixada no layout

acima (canto superior esquerdo). O layout é responsivo. Gráficos de linhas são vetorizados em escala menores, o que distorce o comprimento dos gráficos. Além disso, a comparação entre os mapas fica comprometida, uma vez que os mapas no

mais de um, isto é, não permite comparar o mapa do Brasil e do Polo Norte como na tela de computador, em que todos os mapas aparecem na horizontal.

(b4)

A narrativa mescla diferentes gêneros discursivos como mapas, gráfico de linha, comparação; porém faz isso de maneira a encadear esses gêneros na composição e não

de forma hibrida. (c1.1) Não possui.

(c1.2)

As linhas fazem parte da composição dos gráficos de linha e são diferenciadas por meio da cor e do tracejado. As linhas também aparecem nos mapas numa relação de

cor e posição. Os dados distorcem a altura da linha em função do tempo ou espaço. Aparecem nas legendas para ancorar a leitura.

(c1.3)

Utiliza as cores como procedimento de diferenciar dados, por exemplo, em “Área da

capa de gelo ao longo do ano” a cor cinza representa os anos de 1981 a 2010 e a cor

azul o ano de 2015. Também ocorre o processo de utilização da cor vermelha em uma linha no primeiro mapa para realçar o tamanho que a calota polar deveria ter (clareia o problema).

(c1.4)

No último mapa ocorre uma relação de intensidade na qual o tom cinza representa o tamanho que a calota polar deveria ter.

(c1.5) Não possui.

(c1.6)

Apesar de na comparação utilizar os mapas do Brasil, da calota polar e do Mato Grosso, e que, portanto, possuem formas diferentes, a relação se faz pelo tamanho e

não pela forma. (c1.7)

No primeiro mapa a linha vermelha contrapõe o tamanho que a calota polar tem no momento e qual ela deveria ter. O tamanho também produz sentido quando é feita a

comparação entre Brasil x Pólo Norte e um quadrado representando 1 milhão de quilômetros quadrados x Mato Grosso.

(c1.8) Não possui

(c1.9) Não possui

(c1.10)

No último mapa as linhas vão de um ponto ao outro, o que preludia uma relação de posição no espaço geográfico para destacar as rotas marítimas e os ganhos comerciais

(c2)

Em alguns casos os recursos visuais conseguem produzir sentido sem a mescla com outras, por exemplo, cores diferentes nas linhas dos gráficos significa dados diferentes. Porém, para entender o todo, é necessário fazer conexões com outras semioses, como o tamanho ou a posição. No último mapa, por exemplo, a semiose da

intensidade, da cor e da posição estão integradas para argumentar sobre os ganhos econômicos com o derretimento das geleiras.

(c3)

O layout da página apresenta um cabeçalho fixo do Nexo Jornal com símbolos de compartilhamento para outras redes sociais e guia para outras seções. A narrativa é responsiva, construída verticalmente, apresentando primeiro títulos, subtítulos e blocos textuais com a mesma tipografia, porém com tamanhos e aspectos (negrito) diferentes.

A posteriori, mapas, gráficos e blocos textuais vão se encadeando verticalmente e

divididos por um espaçamento. A comparação feita entre os diferentes mapas é apresentada numa tira horizontal (no celular fica vertical), garantindo a visão de todos

para ter a dimensão comparativa. Ainda assim, as legendas sempre se apresentam antes dos elementos visuais e no canto superior esquerdo. Existe uma pequena linha de

cor cinza que segmenta os assuntos dentro da temática do degelo da calota polar.

Fonte: (O autor, 2020).

Posteriorimente, após a extração das análises das 16 amostras, fez-se a comparação das amostras para analisar como se desenvolveu ao longo do tempo o gênero infográfico e averiguar a hipótese de que as estratégias utilizadas nos infográficos do Nexo

Jornal tornaram-se ao longo do tempo, mais hibridas para potencializar/ampliar efeitos

de sentido, para tanto, na próxima seção, serão apresentados os resultados extraídos a partir desse protocolo de análise com exemplificações dos processos identificados no intuito de atender o objetivo geral dessa pesquisa de verificar como as estratégias discursivas na produção do gênero infográfico são exploradas no Nexo Jornal, com apresentação de duas amostras e posteriormente uma síntese a partir de cada categoria.