RELATO DE UM FATO CHOCANTE
4.6 AULA 6 – Leitura do poema “Indivisíveis”, de Mário Quintana.
4.6.6 Leitura e compreensão do poema “Indivisíveis” na turma
Como não foi possível desenvolvermos a leitura do poema “Indivisíveis” na turma 702, no dia 11/11, em função da visita ao Museu Emílio Goeldi, retornamos no dia 13/11/2014 à escola, uma quinta-feira, para o cumprimento dessa atividade. Os alunos não nos recepcionaram com o já conhecido bordão: “Hoje não temos aula como o senhor, professor.” Demonstraram apenas surpresa por estarmos em dia diferente da aula de leitura. Explicamos a razão da nossa presença e que a professora de Geografia havia nos cedido o horário. Eles não se opuseram, mas tiveram a mesma reação da turma 701 quanto ao local da aula: queriam que fôssemos para o auditório. Lembraram da interferência externa e do calor da sala de aula, todavia aquele espaço pedagógico estava sendo utilizado pelo professor de História e, por isso, os 19 alunos presentes foram convencidos a permanecerem em sala de aula para a atividade de leitura.
Procedemos à distribuição do texto poético aos alunos enquanto dois exemplares do livro Nariz de Vidro e um exemplar do livro Antologia Poética circulavam entre eles. Aproveitamos para lhes dizer que o texto que iríamos ler foi sugerido por uma aluna da 701, e que já havíamos trabalhado o referido texto com essa turma. Na “apresentação do poeta”, falamos brevemente sobre Mário Quintana e de sua rica produção literária.
No momento da “leitura” do texto, os três modos de ler foram utilizados: “leitura individual silenciosa”, depois “leitura individual em voz alta” e a “leitura conjunta”. Na sequência, passamos ao momento da “discussão-compreensão” do texto, utilizando a pergunta: que leituras vocês fizeram do poema? As respostas foram as seguintes: “Ele fala sobre o amor entre duas crianças.” “Sobre um amor inocente.” “Eu entendi que essas crianças encontraram algo muito especial que muitos adultos não encontram.” O que que elas encontraram? “O amor, professor... o amor.” E como era esse amor? “Era um amor sem maldade, inocente, entre duas crianças.” O outro aluno emendou: “Ela quer dizer, um amor sem desejo carnal, sem intimidade, sabe?” Uma das alunas sussurrou: “Ele se encantava com os olhos dela.” A outra declarou: “Isso deve acontecer quando o amor é muito forte.” Alguém quer falar mais sobre outras possíveis leituras?
Notamos que a presença de alunos no corredor, alguns deles parados nas janelas da sala e interessados na discussão do texto, de certo modo, inibia maior participação de outros colegas, principalmente das alunas. Prosseguimos. Vocês já pensaram o porquê do título do poema ser “Indivisíveis”? “Quem ama gosta de ficar junto, não quer se separar.” “Amor com compromisso é aquele que é para sempre.” “A ideia que passa é que eles se amariam por toda a vida.” Um aluno saiu-se com esta declaração: “Já vi que todos querem um amor eterno” enquanto uma das alunas, o interpelou: “E tu, não quer um amor assim?” Ao que respondeu: “Eu não, eu quero é ‘ficar’!”. “Isso não é amor!” – rebateu a colega. “Mas é melhor do que ficar fazendo juras de amor eterno e depois trair.” – Replicou. “Eu é que não quero um homem- mulherengo!” “Ei, acorda! O poema mostra que existe outras possibilidades de amor.” A discussão tornou-se acalorada e para que o foco não se perdesse, tivemos que contê-los, pois outros alunos já se aglomeravam às janelas da sala de aula. Que leituras vocês fazem da palavra “pedra” repetida duas vezes no poema? Elas estão relacionadas ao sentimento de amor das duas crianças? “Não vejo diferença alguma.” Por quê? “Porque a pedra era o ponto de encontro de um amor inocente, seja no início ou no final do poema ela servia para os encontros dos dois”. Será? Outro aluno, ponderou: “Acho que a primeira pedra é uma pedra comum, dessas que encontramos por aí. Depois, no outro momento, ela se torna uma pedra especial, pedra do amor.” E essa pedra não era tosca, dura, sem conforto? “Era, mas quando se ama tudo se transforma, a pedra representa um paraíso para eles.” Outro aluno, suspirando: “Ah, professor, quando eles estavam juntos, o lugar era o que menos importava” Perguntamos: por que os adultos que caçoavam das crianças passariam o resto da vida procurando por esse amor? “Porque nunca sentiram esse tipo de amor.” “As crianças é que sabem viver o amor sem maldade.” “Há adultos que acham que só eles sabem o que é o amor; criança também sabe, só que do seu modo.” Mais uma vez, essa turma nos surpreendeu com a disposição e o interesse na discussão-compreensão do texto na sala de aula.
Vejamos, a seguir, a nossa leitura do poema “Indivisíveis”, de Mário Quintana. 4.6.7 Nossa leitura do poema
O poema “Indivisíveis”, de Mário Quintana, apresenta uma situação que hoje já não faz mais sentido para a garotada, a conversa “boba” das crianças. A “onda” agora é “curtir”, “ficar”. Com quantos se fica numa noite? Com quem o fulano ou a fulana
está ficando? Esse é o vocabulário que faz parte do linguajar dos nossos adolescentes, dos nossos jovens.
Temos no primeiro verso, “O meu primeiro amor sentávamos numa pedra”, a imagem do “primeiro amor”, do estar junto de quem se ama – se a criança ama, é do seu jeito – diferente dos adultos, que amam e sofrem, as crianças amam, e têm os seus primeiros amores e vivem esses amores. No poema, traduz-se a inocência de todas as crianças, que poderiam também ser os enamorados do texto poético – como tantas imagens do cotidiano.
No segundo verso, “Que havia num terreno baldio entre as nossas [casas”, a imagem se descreve em um lugar qualquer, fora do quintal da casa das duas crianças, um terreno baldio, onde se podia confidenciar, jogar conversas “bobas” fora, como sugere o poeta. Carregado de imagens, que sugestionam não apenas o lugar de que o poeta se recorda, o poema sugere a imagem da inocência, da simplicidade das crianças, de uma época em que namorar era coisa para os mais crescidos. E “crianças de cinco anos” namoram? No mundo que criam e vivem, podemos dizer que sim. E nesse mundo elas vivem “o primeiro amor” à sua maneira, tanto que suas confidências não são bobas como pensam os adultos que por ali passam. Para elas, estar perto, sentir a presença da pessoa por quem se nutre carinho já é o suficiente para dizer que ama ou que é amado.
“Crianças... / Parecia que entre um e outro nem havia ainda [separação de sexos”. Esses versos nos remetem ao título do poema que, lá como aqui, sugere também a não distinção de gênero – ser menino ou menina apenas é um detalhe quando a prece é amar ou brincar de amar. “Indivisíveis” também sugere ideias: aquilo que não se pode dividir, o que não se pode perceber/ver. Amizade se divide? Amor, aquele primeiro amor, o de coração, o que vem sem que nos apercebamos, o que tomamos como nosso, propriedade nossa do ser infantil, pode ser dividido? Pode ser percebido ou apenas se percebe naquelas atitudes bobas, nas atitudes das crianças, que demonstram afeto de tal modo inocente sem se preocupar com o compromisso de ter ou de ser. Seja qual for a leitura que se faça, não se deve deixar de perceber que a única separação aceitável é “[...] o azul imenso dos olhos dela,” e, mesmo assim, exclusivo, ninguém mais possuía olhos azuis como os da amada, capaz de tornar mais azul o céu, denotando, talvez aqui, a intensidade desse amor, criado no mundo infantil.
Por outro lado, a vida do adulto é cheia de divisões – trabalhos, atividades diárias, casa, compromissos, divisão de classes – coisas com que, na vida, a criança não se preocupa. Das brincadeiras cotidianas às mais sérias atividades, passa quase
despercebida a necessidade de crescer, de querer tornar-se adulto ou de ser adulto, mesmo que, nas brincadeiras diárias, sejam adultas, fingem-se adultas para treinar a vida que virá pela frente. E para isso, são capazes de criar o seu próprio mundo e nele viverem o encanto da indivisibilidade do amor, pois entre os enamorados existia apenas “[...] um único amor sentado sobre uma tosca pedra.”
“Enquanto a gente grande passava, caçoava, ria-se.” Esse verso do poema remete-nos a uma época que as gerações presentes pouco conhecem. Época em que era inadmissível duas crianças enamorarem-se. Quantos de nós fomos caçoados pelos adultos, ao perceberem que nutríamos alguma afeição por outra criança da nossa idade ou, até mesmo, por uma pessoa de idade superior a nossa? Diante dos risos e tomados de vergonha, só nos restavam três saídas: aceitarmos a chacota; fugirmos do(s) caçoador(es) ou buscarmos refúgio, geralmente aos prantos, no colo de nossas mães. Talvez a lembrança desse fato corrobore com um dos possíveis sentidos do verso em destaque, embora o próprio Quintana tenha declarado que “A verdade do mundo poético não tem de dar satisfações à verdade do mundo real” (QUINTANA, 2006, p. 199)
Por fim, chegamos aos últimos versos do poema: “[não sabia / Que eles levariam procurando uma coisa assim por [toda a sua vida...” Os adultos caçoavam daquilo que eles também passam a vida procurando – e isso as crianças encontram, de forma fácil, simples, sem se importar com o futuro – vale estar perto de quem se ama, ou de quem se admira, de quem se quer por perto, maneira de amar que muitos adultos até hoje podem não ter experimentado.
4.7 AULA 7 – Leitura do poema “Eu, etiqueta”, de Carlos Drummond de