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2 A CURADORIA DAS REFERÊNCIAS

2.2 Leitura e efeito estético, conforme Wolfgang Iser

Uma vez tocado no assunto leitura, ou na relação do texto com o leitor, que corresponde à operação da mimese III, para Ricoeur, torna-se imprescindível discutir com mais profundidade o papel que a referência desempenha no ato de leitura e a sua relevância no processo da significação da obra literária. Desse modo, fazemos aqui uma apropriação de alguns conceitos-chave da chamada teoria do efeito estético, construída por Wolfgang Iser, por considerá-la uma perspectiva teórico-crítica, também de base fenomenológica, que dialoga efetivamente com o pensamento de Paul Ricoeur, e, além disso, contempla uma necessidade epistemológica de compreensão do relacionamento produtivo entre realidade, imaginário e ficção, que está para além do dualismo costumeiro.

É em sua obra O ato da leitura, formulada e publicada na década de 1970 na Alemanha, que Iser instaura uma posição diferenciada dos postulados em voga até meados do século XX na compreensão da significação literária. Diante da oposição extremista entre uma crítica de base psicológico-biográfica, predominante no século XIX, que buscava o sentido da literatura nas intenções do autor e no contexto sócio-histórico de gestação da obra, e uma crítica

imanentista, impulsionada pela corrente estruturalista do início do século XX, que transferia o sentido da literatura para o texto e anulava o autor, Iser acaba por destacar o papel do leitor na construção do sentido, e, sobretudo, confere ênfase à própria práxis da leitura, quer dizer, ao ato de ler ou, segundo ele mesmo informa no prefácio à primeira edição, “(...) na relação dialética entre texto, leitor e sua interação.” (ISER, 1996, p. 16). Por isso, ainda, ele opta pela denominação “teoria do efeito estético”, visando distinguir da “teoria da recepção”, também em voga no mesmo período, e que se preocupava mais com os “(...) juízos históricos dos leitores” (ISER, 1996, p. 16), que teve como principal pensador o, também alemão, Hans Robert Jauss3.

Tais pressupostos auxiliam a compreensão de alguns elementos da narrativa ficcional que se apropria de referências históricas, porque permite apreender na estrutura da obra dispositivos que induzem à cooperação constante do leitor para além do reconhecimento de informações do mundo ou da narrativa histórica. Datas, nomes de personagens históricos, nomes de lugares, acontecimentos conhecidos por um público maior são apenas alguns dos exemplos de referências do passado trazidos em textos de ficção histórica, como nos romances e contos de Santiago, mas que não servem para reafirmar o que dizem os arquivos. O texto literário, por essa ótica, não traz a realidade para a obra visando ao reconhecimento do leitor como estágio final de um processo, mas se utiliza de elementos da realidade, compartilhados entre autor e leitor, para a criação de um algo ainda não existente. A ficção organiza a realidade para se comunicar (ISER, 1996, p. 102).

Com efeito, a obra literária se apresenta a partir de uma estrutura que busca dialogar com leitores e, para isto, mobiliza “repertórios” já selecionados do mundo extratextual. São

“modelos de realidade” que traduzem convenções do cotidiano para a compreensão de interlocutores, uma vez que “(...) esses textos já se referem a sistemas em que a contingência e a complexidade do mundo são reduzidas e é produzida em cada caso específico uma construção de sentido do mundo.” (ISER, 1996, p. 133). Contudo, não só a redução de sistema da realidade interfere nas referências, mas, também, a sua “despragmatização” modifica o sentido do repertório evocado no texto, uma vez que elementos captados e retirados de outro contexto já não são os mesmos no contexto de interação com os leitores. Isso não quer dizer que o antigo contexto seja negado, mas, pelo contrário, ele se transforma em pano de fundo, atuando

3 Interessado em questões como “horizonte de expectativa”, a obra A história da literatura como provocação à teoria literária, de Jauss, publicada pela primeira vez em 1974, propõe o retorno da história literária, agora, com a interferência fundamental da leitura e do leitor nas análises.

sobretudo na orientação de uma perspectiva presente e construída no próprio ato de leitura (ISER, 1996, p. 148).

Essa interação entre contextos ocorre por meio de “estratégias” que o texto ficcional apresenta e que impulsiona a comunicação constante entre texto e leitor. Para Iser, o esquema é composto por uma relação entre 1º e 2º planos, em que num primeiro momento ocorre a seleção de elementos do repertório textual que são acessados dos modelos de realidade, o que confere certo grau de familiaridade na comunicação; e, num segundo momento, uma combinação dos elementos do texto, por parte do leitor, que demonstrará o que não era familiar no contexto de origem, ou seja, relações que acabam por oferecer possibilidades outras de sentido, antes não captadas no arranjo cotidiano dos elementos (ISER, 1996, p. 172-173).

Segundo Iser,

Por isso, o primeiro e o segundo planos assumem em textos ficcionais uma outra relação, em cujo desenvolvimento ambos se modificam. Pois a despragmatização de determinados elementos na seleção aponta para os sistemas correspondentes de referências, mas os situa em uma perspectiva que os sistemas de referências, em sua pura familiaridade, ainda não podiam ter.

Daí segue: a evocação do segundo plano familiar e a mudança de sua familiaridade coincidem. Se lembramo-nos que esse segundo plano tem apenas um caráter virtual, pois não se manifesta verbalmente no texto, ele não só aparece na seleção, como também é reestruturado em seus pontos significativos. Tal transformação, que afeta a referência contida no pano de fundo, deve refletir-se na avaliação dos elementos selecionados, que agora não se situam em referência a seu próprio pano de fundo, mas sim àquele que sua perspectiva modificou. (ISER, 1996, p. 175).

Isso caracteriza em grande parte a ficção histórica ou quando textos ficcionais se apropriam de referências da narrativa histórica, pois, por vezes, o arranjo textual mais contemporâneo costuma selecionar elementos de um contexto histórico evocado e os dispõe em justaposição no enredo com outros elementos distantes e distintos em tempo e espaço. Se a busca por uma noção de coerência obriga o texto ficcional a se submeter ao que apenas informa a narrativa histórica selecionada e referenciada, a anacronia encontrada poderá ser considerada um problema. Contudo, se se presta mais atenção ao funcionamento do esquema entre os dois planos e à modificação constante do contexto de origem ao ter elementos selecionados despragmatizados, além de considerar a necessária combinação pelo leitor de elementos

“estranhos” na ficção para que se crie outros sentidos, então o jogo proposto terá mais efetividade.

Essa exploração dos jogos de leitura na ficção contemporânea que traz elementos bem diversos e extraídos de narrativas históricas distintas acaba por induzir o leitor a uma maior

participação no texto. O que parece, a priori, ferir as leis da coerência histórica propõe uma modificação contundente nas referências, demonstrando que elas apenas são um ponto de partida, e não, o estágio final da representação ficcional.

Tudo porque as estratégias do texto não trabalham sozinhas, mas precisam da ativação do leitor para que a interação seja completa. O texto apresenta as referências extratextuais e novos arranjos com possibilidades diversas de combinação, enquanto o leitor investe a sua bagagem cultural ou o seu conhecimento de mundo e produz relações de perspectivas no texto.

Nesse sentido, a literatura esboça um “sistema perspectivístico”, tendo a narrativa ficcional como modelo que melhor explicita o jogo de diferentes visões do objeto dispostos no texto, com quatro perspectivas iniciais (narrador, personagens, ação ou enredo, e ficção marcada do leitor) com as quais se compõe a primeira combinação do repertório (ISER, 1996, p. 179). Aqui, além da marcação de uma figuratividade no próprio texto literário, como fora muito comum em alguns romances do século XIX europeu em que o narrador se dirigia direta e explicitamente aos leitores da época, o leitor também é um “ponto perspectivístico” que se movimenta dentro do texto pelas diversas perspectivas existentes, além de se manter fora do texto e utilizar de sua posição no mundo para cotejar as experiências ficcionalizadas com as de sua própria vivência.

Para Iser,

Enquanto o objeto da percepção se evidencia como um todo, o texto apenas pode ser apreendido como “objeto” em fases consecutivas da leitura. Em relação ao objeto da percepção, sempre nos encontramos diante dele, ao passo que, no tocante ao texto, estamos dentro deste. É por isso que a afeição entre texto e leitor se baseia num modo de apreensão diferente do processo perceptivo. Em vez da relação sujeito-objeto, o leitor, enquanto ponto perspectivístico, se move por meio do campo de seu objeto. A apreensão de objetos estéticos tecidos por textos ficcionais tem sua peculiaridade em sermos pontos de vista movendo-nos por dentro do que devemos apreender. (ISER, 1999, p. 12).

Com a possibilidade de movência pelo objeto, o sujeito experiencia outras posições e perspectivas, sobretudo na seleção e combinação de relações estranhas daquelas consideradas familiares, portanto, “(...) na leitura pensamos os pensamentos de um outro, (...)” (ISER, 1999, p. 41). E na experiência de ser outros através da leitura, de reagir a outras posições e diante de novas relações, enquanto nossos padrões de representação são empurrados para o passado, o texto acontece como evento real (ISER, 1999, p. 45-46). Essa movência também impulsiona diferentes reorganizações das posições subjetivas e induz os leitores a saírem de seus lugares, a se emanciparem.

É a partir de sínteses, ou de imagens, produzidas na leitura que se criam representações de objetos não existentes, ou ainda não formulados pelas relações anteriores evocadas no texto.

Como explicita Iser, “o que estimula sua produção não é a ausência; ao contrário, o modo de manifestação da representação literária acrescenta algo ao que já conhecemos.” (ISER, 1999, p. 64). Nesse sentido, quando se nega o repertório apresentado pelo texto e opta-se por uma combinação inusual dos códigos e dos esquemas, produzem-se representações (ISER, 1999, p.

75). Isso não quer dizer que todo texto ficcional só adquira sentido a partir da contrariedade obrigatória de suas referências, mas, com certeza, envolve o mínimo de modificação destas para algo ainda não dado pelo texto.

Tudo isso conduz a uma compreensão do relacionamento entre texto e leitor como uma

“assimetria” constitutiva, em que a interação se dá não de modo harmônico e padronizado, mas, outrossim, a interação ocorre a partir do preenchimento pelo leitor das lacunas e dos lugares vazios que se formam no ato da leitura entre as relações do repertório textual, as referências do leitor e as combinações apresentadas que negam aquelas do mundo extratextual de onde o repertório foi extraído (ISER, 1999, p. 103). É pela indeterminação dessa assimetria, estruturada basicamente pelos lugares vazios e pela negação, que as representações irão se formar, sendo estas, ao mesmo tempo, fruto da criação do leitor, mas constantemente reguladas pelos esquemas do texto.

Para Iser, ainda importa verificar os procedimentos históricos dessa estrutura assimétrica no ato da leitura de textos ficcionais. Exemplificando com gêneros e tipos de ficções predominantes de determinados períodos da história moderna e em algumas sociedades, nota-se que os usos das indeterminações foram controlados visando a um efeito específico de acordo com uma leitura hierárquica das perspectivas do texto. Nos romances do séc. XVIII, como os de Fielding por exemplo, a perspectiva do protagonista se sobrepunha às outras, enquanto que em considerável parcela de romances da primeira metade do séc. XIX, a perspectiva do narrador e do leitor implícito marcado no texto ganham proeminência em detrimento da perspectiva dos personagens; já nos textos ficcionais situados entre o fim do séc. XIX e início do séc. XX, momento conhecido por alguns como o da “alta modernidade”, apresenta-se uma desierarquização dos pontos de vista e um aumento significativo dos lugares vazios, chegando a produzir uma desorientação intensa no leitor com mudanças constantes de focos narrativos, a exemplo do que ocorre em Ulisses, de James Joyce (ISER, 1999, p. 158-166). Por isso, uma marca que distingue os textos modernos é o seu emprego dos “procedimentos negativos” (ISER, 1999, p. 165).

Algumas outras questões que nos interessam particularmente foram discutidas por Iser no livro O fictício e o imaginário: perspectivas de uma antropologia literária, lançado na Alemanha, em 1991, e publicada a sua tradução no Brasil, em 19964. Aprofundando as problematizações envolvidas no ato da leitura de textos ficcionais, o pensador alemão passa, então, a discutir os pressupostos que estruturam a experiência literária e a transformação subjetiva dos leitores na leitura. Na busca por conceitos e noções que ancorem uma visão analítica sobre os usos da referência histórica ou da realidade em narrativas ficcionais, deve-se atentar para a ênfase que Iser concede à desconstrução de uma prática analítica costumeira, o nosso “saber tácito”, que é a de opor categoricamente ficção e realidade, para substituí-la por uma tríplice relação: o real - a ficção - e o imaginário (ISER, 1996b, p. 13).

A partir disso,

Decorre daí que a relação triádica do real com o fictício e o imaginário apresenta uma propriedade fundamental do texto ficcional. Ao mesmo tempo, fica claro o que caracteriza o ato de fingir e, assim, o fictício do texto ficcional.

Quando a realidade repetida no fingir se transforma em signo, ocorre forçosamente uma transgressão de sua determinação. O ato de fingir é, portanto, uma transgressão de limites. Nisso se expressa sua aliança com o imaginário. O imaginário é por nós experimentado antes de modo difuso, informe, fluido e sem um objeto de referência, manifestando-se em situações que, por serem inesperadas, parecem arbitrárias, situações que ou se interrompem ou prosseguem noutras bem diversas. (ISER, 1996b, p. 14-15).

Tratam-se de várias modificações que ocorrem no ato da leitura, tanto do real evocado nas referências que se torna signo de uma irrealização, quanto do imaginário que de inexistente se torna signo da realização, ambos pela ficcionalização em curso e promovida pelo leitor. Nas transgressões de lugares e posições indicados pelo texto, os elementos deixam de efetuar a função anterior ao seu uso e passam a desempenhar funções outras de acordo com os processos de seleção e de combinação. Com isso, a referência deixa de ter uma função designativa, paralisando o uso denotativo da mesma, e passa a desempenhar uma função figurativa (ISER, 1996b, p. 22).

O processo apresentado no ato da leitura leva à compreensão da ficção como um jogo aberto e pulsante, que apresenta os elementos necessários para o seu início, comunica as suas regras e convida à transgressão constante, além de propor deslocamentos efetivos acerca das posições anteriores, tanto das referências quanto dos seus jogadores – os leitores. É um jogo entre mapa e território, pois a relação de diferença entre significante e significado desloca e

4 Aqui, será identificado como ‘1996b’, porque a edição é do mesmo ano do primeiro volume de O ato da leitura.

divide o designante de um território que antes designava, ou a determinação de seu código, e, agora, se transforma em mapa que nega a designação anterior, mas que possibilita a emergência de outros territórios, da produção de seu significado (ISER, 1996b, p. 303-305).

Portanto, quando se identificam elementos e objetos da realidade nas referências textuais, o mundo não é dado, mas representado pelo fingimento, posto entre parênteses como se fosse o mundo mesmo. Assim como os personagens históricos relidos na ficção, que passam a desempenhar uma outra imagem do que foram, mesmo que sejam ainda ficcionalizados como os mesmos. Segundo Iser, esse “como se” constitui o “desnudamento da ficcionalidade”, que suspende os atributos naturais do mundo real e o separa da realidade, ainda que a ficção pretenda obter um efeito de realidade tão próxima quanto (ISER, 1996b, p. 24). Assim, tanto a realidade quanto a história tida como real, evocadas nas referências encontradas nos textos de ficção, desempenham uma função para além de um reconhecimento imediato do contexto de origem.

Como já mencionado anteriormente nas palavras de Iser, elas acrescentam algo ao real ou, no caso que mais nos interessa, à história. Um suplemento, enfim.