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Leitura e escrita: práticas do conhecimento

3.2 LEITURA: FORMA, CONTEÚDO E VISÃO DE MUNDO DOS ATORES,

3.2.1 Leitura e escrita: práticas do conhecimento

A viagem agora ganha novo sentido. Livre ao máximo de pressupostos inconscientes, pode-se realizar o esforço de esboçar a releitura histórica da leitura a partir do “nada” ou do “não-ser”. “No princípio era a palavra...” Apenas palavra ou a tradição oral. O “nada” ou o “não-ser” são entendidos aqui, como a ausência de signos que representam uma grafia e, portanto, ausência de leitura.

Para Riesman (1968), no princípio a única palavra era a palavra falada ao referir-se aos povos “pré-letrados”. Nesse tempo, quando a tradição oral era exclusiva, existia a tendência de que os idosos ocupassem lugar elevado como bancos de reserva da experiência e entretenimento. Esse fato se modifica com a escrita, como no Egito, que tende a fomentar a criação de hierarquias de peritos, em vez de anciães. À medida que a palavra falada ou cantada monopoliza o meio simbólico e a sociedade depende da memória, emprega todos os recursos do demagogo e do poeta: rima, ritmo, melodia, estrutura, repetição. A partir do momento que o livro penetra nesse meio ele nunca mais pode voltar a ser o mesmo. Os livros acarretam o desapego e a atitude crítica que não são possíveis numa tradição oral. “Virtualmente, todo mundo, numa tribo pré-letrada, é especialista em tradição oral. [...] nas remotas ilhas das Filipinas, as mensagens são transmitidas oralmente com uma precisão para nós fabulosa” (RIESMAN, 1968, p. 138).

De acordo com Robinet (2004), oposto em forma e conteúdo ao logos, o mito remete a um tempo primordial. O tempo dos começos. Narra, graças a acontecimentos extraordinários, como o mundo tomou o aspecto que tem. “É assim que se formaram o Gênesis, na Bíblia, e a Teogonia de Hesíodo” (ROBINET, 2004, p. 78). Dessa forma, em seu conteúdo o mito explica o mundo pondo em cena seres, deuses e heróis. As duas obras míticas citadas pelo autor, Gênesis e Teogonia têm em comum o ponto de partida, o caos. A partir daí começa a criação ou geração de tudo o que existe. A narração “nos faz compreender o mundo como um

conjunto animado de forças e pessoas, e nos conta a organização do mundo físico nas categorias da vida. Nele não há diferença ontológica entre as coisas e as pessoas: as coisas são pessoas e as pessoas são coisas” (ROBINET, 2004, p. 79). Contrariamente, o logos faz a divisão das coisas e as ordena segundo a ordem de cada uma. “As coisas físicas se explicam de maneira física, e as coisas humanas se explicam por elementos humanos. Cada domínio do real obedece às próprias leis. Na civilização fundada no regime do logos, a atividade literária restabelece o fundo mítico e lhe dá uma consistência objetiva por meio da escrita” (ROBINET, 2004, p. 79). Os gregos denominaram “mitos” lendas contadas pelos poetas, um discurso não verificável, e “logos” a discurso argumentativo e verificável.

Conforme Zilles (2005), a origem da escrita se deu na Mesopotâmia, entre 4.000 e 3.000 a.C., devido à dificuldade de transmissão e conservação dos conhecimentos adquiridos, nos primórdios da história humana. Devido à fugacidade da transmissão oral que conduzia facilmente a erros e a falhas de memória, os sumérios (civilização avançada, cujo comércio era bastante evoluído) desenvolveram o sistema de escrita denominado cuneiforme, trabalhando com cunhas para imprimir marcas em placas de barro mole, depois endurecido pelo sol ou no fogo. A resistência desse material permitiu sua conservação por milênios. Por volta de 2.400 a.C., os semitas acádios submeteram os sumérios e passaram a utilizar o mesmo sistema de escrita com modificações para sua língua, o acádio. Das modificações destacadas por Zilles cita a redução do número de sinais de cerca de 900 para cerca de 30.

Manguel (2001) afirma que a invenção da escrita se deu, com toda probabilidade, por motivos comerciais. Segundo ele, para lembrar que certo número de cabeças de gado pertencia a determinada família ou estava sendo transportada, registrava-se um sinal

mnemônico. A figura de boi, por exemplo, servia para lembrar que a transação era em bois.

Desse modo ele relata a invenção da escrita e do leitor:

O inventor das primeiras tabuletas escritas deve ter percebido as vantagens que essas peças de argila ofereciam sobre manter a memória no cérebro: primeiro, a quantidade de informação armazenável nas tabuletas era infinita – podiam-se produzir tabuletas ad infinitum, ao passo que a capacidade de lembrança do cérebro é limitada; segundo, para recuperar a informação as tabuletas não exigiam a presença de quem guardava a lembrança. De repente, algo intangível – um número, uma notícia, um pensamento, uma ordem – poderia ser obtido sem a presença física do mensageiro; magicamente, podia ser imaginado, anotado e passado adiante através do espaço e do tempo. Desde os primeiros vestígios da civilização pré- histórica, a sociedade humana tinha tentado superar os obstáculos da geografia, o caráter final da morte, e erosão do esquecimento. Com um único ato – a incisão de uma figura sobre uma tabuleta de argila –, o primeiro escritor anônimo conseguiu de repente ter sucesso em todas essas façanhas aparentemente impostas.

Mas escrever não é o único invento que nasceu no instante daquela primeira incisão: uma outra criação aconteceu no mesmo momento. Uma vez que o objetivo do ato de

escrever era que o texto fosse resgatado – isto é, lido –, a incisão criou simultaneamente o leitor, um papel que nasceu antes mesmo de o primeiro leitor adquirir presença física. Ao mesmo tempo em que o primeiro escritor concebia uma nova arte ao fazer marcas num pedaço de argila, aparecia tacitamente uma outra arte sem a qual as marcas não teriam nenhum sentido. O escritor era um fazedor de mensagens, criador de signos, mas esses signos e mensagens precisavam de um mago que os decifrasse, que reconhecesse seu significado, que lhes desse voz. Escrever exigia um leitor (MANGUEL, 2001, p. 207).

A criação da escrita nasce, assim, não para viver só, mas acompanhada de seu intérprete, o leitor. Seu propósito não é servir com signo fechado em si, mas explicitar a reflexão do escritor, que ao fazê-la, lança sobre um suporte físico a materialização de seu pensamento, de sua memória, seus sonhos, suas fantasias, sua imaginação, sua criatividade. Uma vez materializada o autor não terá mais domínio sobre ela, (o direito autoral é uma tentativa), mas o intérprete é livre para acrescentar elementos de seu universo significante.