CAPÍTULO 2 - CONSIDERAÇÕES SOBRE LEITURA E MODELOS DE
2.3 A LEITURA EM LÍNGUA ESTRANGEIRA
Anteriormente comentei sobre a atividade da leitura e sua importância nos
dias de hoje. Antes, porém, de falar especificamente sobre a leitura em LE, abro um
parênteses para incluir algumas informações complementares sobre o ato da leitura
com o objetivo de fornecer algumas definições e considerações que são pertinentes
para o assunto desta seção.
Apesar de inúmeros estudos, ainda temos dificuldade para entender o que
realmente se passa na mente de um leitor na hora em que ele pousa seus olhos
numa folha de papel escrito e tenta decifrar-lhe a mensagem.
Para Alderson (2000) e outros autores (CAVALCANTI, 1989; SMITH, 1978)
tentar entender o que significa ler e entender textos escritos é uma tarefa complexa
e difícil. O assunto ainda apresenta vários enigmas que aguardam soluções pelos
pesquisadores da área. As condições obscuras, particulares e, praticamente,
inacessíveis nas quais o ato da leitura acontece explicam o termo “caixa preta”,
comumente utilizado pelos psicolinguistas numa tentativa de resumir toda a
complexidade e multiplicidade dos atos cognitivos envolvidos numa atividade de
compreensão de textos escritos.
A Figura 2 mostra o modelo de processamento de comunicação apresentado
por Nuttall (1996, p. 4) que ilustra a participação do leitor na construção do
significado, pois, como já vimos, ela é muito importante. Com o uso de um ponto de
interrogação dentro da mente do receptor, a autora enfatiza as coisas que podem
sair erradas quando uma mensagem que se deseja compartilhar é colocada em
palavras, num texto escrito ou falado, e é, então, lida ou ouvida por um receptor. A
partir desse ponto muitas coisas podem acontecer e não temos mais certeza se a
mensagem pretendida pelo mensageiro será recebida na sua integralidade e
totalidade.
Figura 2 − O processo de comunicação
Fonte: Nuttall (1996, p. 4)
Na simplicidade do seu modelo, a autora consegue, no entanto, não apenas
enfatizar as coisas que podem dar errado e que, num primeiro momento, parecem
impedir que os estudiosos consigam definir o que é leitura de forma satisfatória. Ela
consegue, também, apontar para as coisas que precisam dar certo até que a
mensagem tenha, ou não, o seu significado inteiramente construído dentro da
RECEPTOR
decodificador
leitor
ouvinte
decodificando
codificando
escrito
falado
TEXTO
MENSAGEM
MENSAGEIRO
codificador
escritor
falante
cabeça do leitor. Dentre elas está uma mensagem bem codificada pelo mensageiro,
o escritor, e bem decodificada pelo receptor, o leitor. É claro que não devemos
esquecer que a extensão da decodificação vai depender do propósito do receptor no
ato da leitura que pode variar desde achar um número numa lista telefônico até
aprender o conteúdo de um texto para atingir os mais diversos propósitos existentes
numa vida escolar/acadêmica. É nessa mesma simplicidade que a autora,
despretensiosamente, define leitura como “tirar de um texto, tanto quanto for
possível, a mensagem que o escritor colocou nela.” (NUTTALL, 1996, p. 4)12. Ela
acrescenta, porém, que nem sempre isso acontece, pois raramente um leitor
consegue extrair todo o significado de um texto. Fatores como o escritor, o leitor e
até mesmo o próprio texto podem interferir de forma positiva ou negativa.
A parte do modelo de comunicação proposto pela autora com o intuito de
definir leitura que é mais pertinente para este trabalho é o da decodificação.
Acredito, assim como outros autores, que um bom conhecimento do sistema da
língua no qual a mensagem foi codificada é de vital importância para que um leitor
consiga extrair o máximo possível do significado de um texto, embora nem sempre
seja essa a sua intenção.
Vejamos o que Eskey (1986, p. 7) diz sobre o que acontece no nível da
decodificação:
No nível de identificação, nós esperamos, por exemplo, que os substantivos
venham depois dos artigos, que as orações principais venham depois das
orações subordinadas, e que as palavras venham em blocos, os quais
chamamos de colocações.
13A esse respeito, o autor oportunamente aponta que, a menos que um leitor
conheça bem o sistema da língua a ponto de poder identificá-la nos moldes
anteriormente descritos, ele terá dificuldades para ler um texto fluentemente, pois
boas habilidades para decodificação são cruciais para uma boa leitura. Para ilustrar
esse ponto, Eskey (1986, p. 7) lança mão de uma analogia com a vida rotineira:
Confrontados com pessoas e objetos que nós conhecemos, nós os
reconhecemos instantaneamente, mas quando confrontados com rostos e
12
[…] reading means getting out of the text as nearly as possible the message the writer put into it.
13At the level of identification, we expect, for example, nouns to follow articles, main clauses to follow
coisas menos familiares (embora igualmente visíveis), somos mais lentos e
menos precisos ao decidir para quem ou para o que estamos olhando.
14É claro, como aponta o autor, que para fazermos sentido do que lemos
precisamos ir além do processo de decodificação. Lembram do ponto de
interrogação na mente do leitor do modelo de Nutall? Pois é, ele representa as
relações que precisamos fazer entre o que estamos lendo com aquilo que já
sabemos sobre o assunto para que, dessa forma, novas estruturas de significado
sejam criadas a partir da nossa interpretação do texto.
Outros autores, como Goodman (1967) e mais tarde Smith (1978), no
entanto, definem leitura como um processo seletivo ou, em termos mais simples,
“um jogo de adivinhação” (SMITH, 1978, p. 108). Nesse jogo, uma leitura eficaz é
vista como resultado da habilidade do leitor de selecionar apenas algumas pistas
visuais mais produtivas e necessárias do texto que o conduzam para a sua
compreensão. Tal definição, discutida de forma mais detalhada logo adiante, não
somente influenciou estudiosos da área na época, mas também teve seu efeito
sentido nos métodos e materiais produzidos para o ensino de leitura em LE/L2. Não
mencioná-la seria uma negligência, apesar de tal visão não ter nenhuma implicação
para este estudo.
Não obstante seu impacto e importância, tal definição, como ressaltado por
Eskey (1986, p. 13), deve ser vista com certo cuidado, principalmente em relação à
leitura em LE/L2, pois, muitas vezes, o que deveria ser um jogo transforma-se em
apenas um exercício de pura adivinhação com ambos, professores e alunos,
frustrados e desmotivados.
Mais importante, porém, do que fornecer uma boa definição do que é leitura
neste momento, fato que, como vimos, tem sido um desafio para os estudiosos, é
ressaltar que um bom leitor deve possuir duas habilidades complementares, como
apontado por Eskey (1986, p. 9):
(1) habilidades simples de decodificação, que dependem principalmente do
conhecimento da língua, especificamente, a língua na sua forma escrita, e
(2) de habilidades cognitivas de ordem superior que são necessárias para a
interpretação dos textos, que dependem principalmente do conhecimento do
14
Confronted with people and objects that we know, we do recognize them instantly, but confronted
with less familiar (though equally visible) faces and things, we are slower and less accurate in
deciding whom or what we are looking at.
assunto dos textos, e do modo como a informação é organizada no discurso
[...].
15Para discutirmos a leitura em LE, as palavras de Eskey são de grande
relevância. Como ressaltado anteriormente, no contexto histórico no qual nos
encontramos, entender uma LE, o inglês mais precisamente, tem sido visto como
essencial para nos inserirmos no mundo globalizado. Dentro desse quadro, vê-se
acentuada a habilidade da leitura para o sucesso acadêmico, profissional e pessoal.
Muito frequentemente, no entanto, nas palavras de Alderson (1984, p. 1):
“[...] alunos lendo numa língua estrangeira parecem ler com menos entendimento do
que se espera, e parecem ler consideravelmente mais devagar do que, segundo
eles, leem nas suas línguas maternas.” 16
Vários estudos, discutidos nas seções 2.9.1, 2.9.2 e 2.10, tiveram e tem
como foco tentar pontuar as variáveis que podem estar envolvidas para explicar a
natureza das dificuldades encontradas com a leitura e é, então, que deparamo-nos
com a célebre pergunta feita por Alderson (1984) que, aparentemente
despretensiosa e simples, consegue penetrar no âmago da questão (KODA, 2004, p.
21): “Leitura em língua estrangeira: um problema de leitura ou de língua?”. A
propósito, essa pergunta é o título de um capítulo do livro Reading in a Foreign
Language, de Alderson e Urquhart (1984).
Em função do assunto ser de grande relevância para esta revisão, uma vez
que os posicionamentos com relação à natureza da leitura em LE são também
posicionamentos a respeito do conhecimento linguístico, dedico uma seção especial
para esse assunto.
15
(1) simple identification skills, which mainly depend on knowledge of the language, specifically, the
language in its written form, and (2) the higher-level cognitive skills required for the interpretation of
texts, which mainly depend on knowledge of the subject matter of the texts, and of the way that
information is organized in discourse […].
16