2.3 Os processos de leitura e escrita
2.3.1 Leitura
O ato de ler pode ser considerado uma das atividades cognitivas mais complexas que o ser humano realiza, visto que é através da leitura que assimilamos as estruturas próprias da língua escrita. “Ler é transformar representações gráficas da linguagem em representações mentais da sua forma sonora e do seu significado.
Quando se trata de um texto, o objetivo da leitura é poder apreender o seu sentido”
(MORAIS et al., 2013, p. 17). Tendo isso em mente, facilmente depreendemos que o processo de leitura vai muito além da decodificação, ou seja, através de seu exercício constante conseguimos acessar informações, que nos tornam mais críticos e conscientes a respeito dos acontecimentos em nosso meio social.
Morais (2013) esclarece que a leitura requer uma habilidade específica e capacidades gerais para o seu processamento. A habilidade específica é a identificação das palavras escritas; as capacidades gerais que intervêm no processamento leitor são:
[...] atenção, memória de trabalho, conhecimento lexical e da gramática da língua, conhecimento semântico e enciclopédico, raciocínio, capacidades de análise e de síntese, tudo o que também é mobilizado no processamento da informação veiculada pela fala (MORAIS, 2013, p. 17).
O autor afirma, também, que as diferenças de nível de leitura dependem dos componentes 1) específico e 2) geral da leitura, que se alteram progressivamente.
Inicialmente, temos de considerar a identificação de palavras, ou seja, o leitor que não identifica as palavras, não consegue compreender o texto; à medida que o reconhecimento das palavras torna-se mais eficiente, as diferenças individuais de leitura dizem respeito às capacidades gerais; e quando a identificação das palavras escritas se torna automática e rápida, como acontece entre os leitores universitários, essa identificação interfere muito pouco no nível de compreensão de textos (MORAIS, 2013).
Ainda de acordo com Morais (2013), isso não significa que a identificação das palavras não seja importante entre leitores universitários. No entanto, para diferenciar bons de maus leitores nessa população, é preciso analisar as capacidades cognitivas, os conhecimentos prévios e as estratégias de processamento de informação que os indivíduos, nessa etapa da vida, utilizam antes, durante e após a leitura. Morais reitera, também, que “na maioria dos casos, [os indivíduos] são maus leitores por razões socioculturais” (MORAIS, 2013, p. 19).
Com isso concorda Stanovich (1986), que discute a respeito de leitura em um artigo conhecido e divulgado no mundo todo. Nesse artigo, Stanovich fala a respeito do Efeito Mateus, afirmando que indivíduos que tiveram mais contato com a leitura no seu desenvolvimento inicial tendem a ter mais sucesso posteriormente; já leitores iniciantes que enfrentaram dificuldades de acesso à leitura tendem a apresentar dificuldades vida afora. O autor acrescenta, também, que crianças de ambientes privilegiados, em que o hábito da leitura existe, terão vantagens sobre outras, vindas de ambientes em que não há leitores nem leitura, e conclui que isso faz com que as diferenças existentes entre os grupos aumentem, beneficiando aqueles com mais oportunidades. Stanovich (1986) destaca que muitos fatores estão envolvidos na capacidade de compreensão leitora, como o conhecimento geral e sintático, o vocabulário, que são desenvolvidos através da leitura.
“Um dos grandes mistérios que desafia os pesquisadores é como as pessoas aprendem a ler e a compreender textos com facilidade e rapidez” (EHRI, 2013, p.
49), e esse enigma persiste apesar das inúmeras pesquisas sobre leitura já realizadas. O que sabemos com certeza é que um dos processos básicos, indispensáveis para ler palavras é a decodificação. De acordo com Ehri, a
Decodificação envolve o uso do conhecimento das relações grafema-fonema para identificar o som correspondente a cada grafema, aglutinando-os em pronúncias que formam palavras reconhecíveis. Decodificar também envolve o uso do conhecimento de padrões ortográficos maiores que podem representar sílabas ou morfemas, e aglutinar estas unidades para gerar pronúncias (EHRI, 2013, p. 51).
Outra forma possível de ler é através de analogia. “Esta estratégia envolve o uso de partes de palavras conhecidas para ler palavras desconhecidas, quando ambas possuem o mesmo padrão ortográfico” (EHRI, 2013, p. 51). Outra abordagem referida pelo autor é a predição, “que envolve o uso de informação contextual e de uma ou mais letras para inferir a identidade das palavras” (EHRI, 2013, p. 52). Esta última possibilidade apresenta a leitura por reconhecimento automatizado. “A visão da palavra ativa sua pronúncia e seu significado na memória. Leitores podem fazer isto porque a palavra já foi lida anteriormente e armazenada na memória” (EHRI, 2013, p. 52).
De acordo com Ehri, o que determina a estratégia de leitura a ser mobilizada é a familiaridade com as palavras escritas. Quando a palavra é desconhecida, utilizamos um dos métodos iniciais: decodificação, analogia ou predição. E quando as palavras são familiares e reconhecidas pela memória lexical, utilizamos a estratégia de reconhecimento automatizado.
Por sua vez, Spinillo (2013, p. 139) considera que “a leitura se constitui de duas instâncias complementares e indissociáveis: a decodificação e a compreensão.” Segundo ela, para leitores iniciantes, a decodificação é essencial ao bom desempenho em leitura. À medida que aumenta a escolaridade, o desafio volta-se à compreensão, pois o indivíduo já convolta-segue atribuir significado ao que lê, estabelecendo relações entre o texto e seu conhecimento de mundo.
Enquanto a decodificação ocorre especialmente no âmbito da palavra, implicando no seu reconhecimento enquanto unidade de significado, a compreensão, por sua vez, assume um caráter mais amplo, estendendo-se ao texto como um todo, implicando em relações entre informações nele veiculadas - quer de forma implícita ou explícita - e o conhecimento de mundo do leitor (SPINILLO, 2013, p. 139).
A autora comenta que além de a decodificação e a compreensão terem pesos diferentes ao longo da vida escolar, também se diferenciam quanto à relação com as unidades linguísticas.