Analisando os trinta e sete inventários das mulheres de posse da Capitania de Sergipe Del Rey, ficou evidente em trinta e dois documentos, ou seja, 86% do total, que as mulheres demonstraram não ter a capacidade de grafar o próprio nome. Essas mulheres assinaram a rogo, ou seja, recorreram a um terceiro, geralmente, um parente próximo, como filho, irmão ou cunhado, para assinarem por ela. Januaria Teixeira, esposa de Arcangello de Barros, de 1795, não deixou a sua marca autográfica no inventário de seu marido, por não saber escrever, pediu a Joaquim Joze de Souza Silva para assinar por ela. A transcrição a seguir, de parte do texto extraído do inventário de Arcangello de Barros de 1795 (figura 22), ilustra a situação comentada:
Figura 22 – Assinatura a rogo de Januaria Teixeira por Joaquim Joze de Souza Silva (1795)
Fonte: Inventário de Arcangello de Barros, Comarca de Porto da Folha, 1795, p. 3. In: CATÁLOGO DIGITAL..., 2005. (CD – ROM 2)
[...] de que para assim [ilegível] man dou o dito Juiz fazer este auto de in ventario em que assignou o nome inteiro que ela inventariante ser mulher e nam saber ler nem escre ver, Joaquim Joze de Souza Sil
va hescrivam dos órfãos que o hescrevi.
Felippe de Mello Pra
Outro exemplo dessa natureza está no inventário de Antonio Teixeira de Souza, de 1752, em que Leonor Rodrigues Fraga, sua viúva e inventariante, por não saber ler e escrever, recorreu ao seu irmão Gonçalo de Oliveira de Cardozo para assinar a seu rogo, conforme mostra, no texto, a assinatura de seu irmão, no inventário de seu marido.
Figura 23 – Assinatura a rogo de Leonor Rodrigues Fraga, por Gonçalo de Oliveira de Cardozo (1752)
Fonte: Inventário de Antonio Teixeira de Souza, Comarca de Porto da Folha, 1752, p. 55. In: CATÁLOGO DIGITAL..., 2005. (CD – ROM 2)
Ainda no mesmo inventário, além de se mencionar que Leonor não sabia escrever, mencionou-se também, a condição de “mulher”, naquele século.
Figura 24 – Assinatura a rogo de Leonor Rodrigues Fraga por Antonio Cardozo de Souza (1752).
Fonte: Inventário de Antonio Teixeira de Souza, Comarca de Porto da Folha, 1752, p. 66. In: CATÁLOGO DIGITAL..., 2005. (CD – ROM 2).
[...] tudo mandou o dito juiz fazer este termo de henserra
mento em que asignou com a dita tutora a que por ser molher nam saber escrever o asignou o Seo rogo o dito seo irmam Antonio Cardozo de Souza e mandou
o dito Juiz que focem [ilegível] das contas a concluzam de que fiz este termo eu Joze Camillo [ilegível] Eschrivam [ilegível] o escrevi. Guimes
Anto Cardozo de Souza
O fato de a maioria das mulheres setecentistas sergipanas ser não-assinante é bastante significativo, pois era um forte indicativo da condição feminina na sociedade colonial e da instrução que era a elas destinada. Ribeiro (2000)113, ao estudar o tema, afirmou que a mulher
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Ribeiro (2000) reforça a compreensão de muitos autores que estudaram o tema e entenderam que a instrução era reservada aos filhos homens e, para as mulheres, a educação restringia-se à aprendizagem de boas maneiras e prendas domésticas para serem boas mães e boas esposas. Mesmo as mulheres de posse, oriundas de famílias mais abastadas não tinham assegurado o direito à instrução. Conforme essa autora, a questão em pauta, remete à tradição ibérica, transportada de Portugal para a Colônia brasileira: as influências da cultura dos árabes naquele país, durante quase 800 anos, consideravam a mulher um ser inferior. De acordo com essa discussão,
no citado período não tinha acesso à instrução. Nesta pesquisa, considero que a mulher tinha acesso à “instrução própria do seu sexo” e esta não envolvia o aprendizado da leitura e da escrita. Muito embora não tenha encontrado informações mais específicas acerca da instrução que as mães dos (as) órfãos (ãs) receberam-na, de forma a permitir uma análise mais detalhada sobre o tema, a literatura demonstra que elas eram instruídas na Doutrina Cristã e nos Bons Costumes e, ainda, aprendiam os ofícios próprios do seu sexo. Essa discussão será aprofundada no capítulo quatro, quando terei elementos para abordar a instrução elementar de seus filhos órfãos e órfãs.
Porém, o fato de as mulheres não saberem ler nem escrever lhes causavam prejuízos, pois as mesmas ficavam sujeitas a enganações de terceiros e, por isso, recorriam aos parentes para assinar a seu rogo, como forma de amenizar problemas dessa natureza. Na tentativa de amenizar os problemas citados, intelectuais como Verney incluiu, na sua proposta pedagógica, a necessidade de as mulheres adquirirem conhecimentos, que antes estavam reservados apenas à esfera dos homens.
No seu livro “O Verdadeiro método de ensinar”, no apêndice de sua última carta, a dezesseis, Verney dedicou às mulheres. Dividido em cinco tópicos, o livro inicialmente discorre sobre a pretensa inferioridade114 intelectual da mulher e a sua necessidade de receber
Silva (1998) destacou o papel da mulher nessa sociedade como claramente definido: “[...] elas têm uma casa, que governar, marido que fazer feliz e filhos que educar na virtude. E era para bem desempenhar estas funções que as meninas deviam ser retiradas das casas paternas, onde era descuidada a sua formação, para serem educadas no recolhimento. Os vícios da educação doméstica são descritos fundamentalmente em torno do conceito de ociosidade. Tendo serviçais para a servir, logo a menina pensava estar isenta do ‘trabalho das mãos’ e, sem ter nada que fazer, dormia demais: ‘e deste demasiado sono vem a fazer-se mole, mais delicada, e mais exposta às rebeliões da carne’. Ociosa, adquiria também "uma perniciosa sensibilidade para os divertimentos e espetáculos’ e uma grande curiosidade pela vida alheia, procurando "saber tudo o que se diz e o que se faz” (SILVA, 1998, p. 235).
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Conforme Almeida (2005) a inferioridade feminina era um elemento que estava incorporado na sociedade portuguesa e, ao estudar os escritores portugueses setecentistas, percebi que, em suas obras, entre outros pontos negativos, destacaram os defeitos das mulheres, que segundo eles eram sempre os mesmos: “[...] inconstância, hipocrisia, frivolidade, vaidade, extravagância, soberba, ostentação, beatice, presunção, traição, tagarelice, beleza” (ALMEIDA, 2005, p. 82). Essa autora destacou que “[...] as quadras populares são pródigas em evidenciar tudo o que é considerado negativo na mulher, assim é possível recolher as pérolas que se seguem no cancioneiro e nos folhetins populares que circulavam nas maiores cidades portuguesas, como Lisboa e Porto: santas, na igreja, diabos, em casa; anjos, na prática, bufos, na janela; pegas, na porta, cabras, na horta; enfadamento, na cama” (Idem, p. 82). Na visão do autor português João de Barros, “[...] os conselhos das mulheres são extremamente frágeis e sem validade, pois quando Deus fez o homem, fez a mulher por derradeiro, junto às coisas inferiores. Sua cabeça não era considerada pelo nosso autor como coisa divina, por isso de limitada capacidade. Essa inferioridade impediriam de exercerem o governo da república, presidirem julgamentos, por serem apaixonadas e chorosas, e pregarem na missa, porque jamais acabariam” (Ibidem, p. 83). Considerando a discussão, Ribeiro (2000) destacou outro exemplo elucidativo da questão em pauta: “[...] Gonçalo Trancoso que afirmava que a mulher não tinha necessidade de ler e escrever e, se possível, não deveria falar. Afirmo que é bom aquele refrão que diz: a mulher honrada sempre deve ser calada” (RIBEIRO, 2000, p. 74). Era desse modo que a mulher era vista na sociedade portuguesa e em suas Colônias, considerando que a sua função perante a sociedade era a de procriar os filhos machos, varões que pudessem herdar as posses do pai, para a preservação de seus privilégios masculinos.
estudos elementares compostos de elementos de fé, ler e escrever, Catecismo histórico, seguido de Gramática Portuguesa e quatro operações da Aritmética. Além disso, enfatizou a importância de estudos complementares, que eram: Geografia e História sagradas; História Universal, especialmente Grega e Romana; História particular de Portugal. Em seguida tratou dos estudos especializados de Economia doméstica, sobre o conhecimento cabal do governo da casa e dos lavores femininos.
Conforme asssinalei, Verney lutou para que suas obras fossem adotadas na reforma do ensino levada a cabo pelo Marquês de Pombal, pois essa seria a forma mais eficaz de concretizar o seu ideal pedagógico. Por conseguinte, tal proposta não se efetivou na prática e assim a instrução das mulheres continuou sem as inovações propostas por aquele iluminista português; por outro lado, não se pode esquecer de que o objetivo de sua proposta era o de possibilitar à mulher, através dos conhecimentos adquiridos, o bom governo do lar e a preservação dos bens dentro de uma mesma família, assegurando a manutenção da estrutura familiar portuguesa.
Porém, enfatizo que esse discurso produzido por esses intelectuais do século XVIII, sobre a educação das mulheres não era desinteressado. Tinha um propósito, pois a sociedade portuguesa estava se adequando a um novo projeto de nação moderna e as mulheres não podiam ficar à margem dessa nova realidade. Dentro das condições estabelecidas por aqueles intelectuais foi traçado um perfil de mulher ideal, condizente aos novos tempos para que as mesmas pudessem conduzir melhor o destino para o qual estavam designadas: a família e o espaço doméstico.
No entanto, o fato de a mulher de posses não ter aprendido a ler e a escrever não constituiu regra. Isso não implica dizer que algumas não aprenderam aqueles ensinamentos no interior de suas fazendas e sítios, onde os pais contratavam um professor, geralmente um padre, para ensinar as suas crias, conforme revelaram as obras de Silva (1995)115 e de
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Silva (1995), no diálogo realizado entre um dono de uma fazenda e um Frei, que se passou no início do ano de 1764, no interior do Nordeste brasileiro, apresentou um indicativo de como a educação feminina acontecia no interior das fazendas: “- Dizei-me, Frei Francisco, não seria de vosso gosto criar um pouco de raízes? Tenho cá uma miúda de set'anos e tenho ganas que faça seus estudos, do que vós facilmente poderíeis vos ocupar. - Uma miúda, d'zeis, Senhor? Mas o que se ensinaria a uma miúda, e com que intento?- Vede, trata-se de filha única, já que a mãezita morreu-lhe. E uma vez que não penso em consorciar-me outra vez, será minha herdeira universal. Terá necessidad's da escrita e das mat'máticas. - Mesmo que assim seja, Senhor Bartholomeu, o que nunca se pode afiançar, casar-se-á, e o marido terá conta dos bens. - 'stamos em sertão profundo, Frei Francisco. Se em um ano vemos quatro d'sconhecidos será uma raridade. Há a hipótese de que a miúda se venha a consorciar com um sertanejo, mesmo que não seja de meu gosto. p'rcebeis aonde já chego? Não! Quero que tenha seus estudos e se faça independente. Que tenha um pouco seus latins e história do mundo, nem mesmo faltando-lhe os fundamentos religiosos. Não sou homem d'igrejas, mas quero que tenha instruções. E por isto, Frei Francisco, pensei na oferta. Creio que poderei fazer-me generoso, e quem sabe o frade gostaria
Freyre (1986-1990)116. Algumas mulheres da Capitania de Sergipe Del Rey deixaram as suas assinaturas nos inventários de seus maridos, como: Maria Cardozo de Oliveira, Angelica Perpetua de Jezus, Maria Francisca de Freitas, Francisca Catharina Solto Maior e Jozefa Maria de Rezendes.
Entretanto, a documentação em análise, não me permite evidenciar como essas mulheres aprenderam a assinar os seus nomes. Mostram apenas que elas assinaram o nome, como demonstram as páginas a seguir. De algumas delas, encontrei mais de uma assinatura, em um mesmo documento, como foi o caso de D. Angélica de Jezus e de D. Francisca Catharina Solto Maior:
Figura 25 – Assinatura de Maria Cardozo de Oliveira (1765).
Fonte: Inventário de Alexandre Gomes Ferrão Castelobranco, Comarca de Portoda Folha, 1765, p. 7. In: CATÁLOGO DIGITAL..., 2005. (CD – ROM 2).
Figura 26 – Assinatura de Angelica Perpetua de Jezus (1777).
Fonte: Inventário de Manoel Joze de Vasconcelos e Figueiredo, Comarca de São Cristóvão, 1777, p. 4. In: CATÁLOGO DIGITAL..., 2005. (CD – ROM 1).
d'stabelecer-se por três ou quatro anos, até o desfastio das estradas e gados?- Não parece-me d'cente ensinar uma miúda. Mas se é de vosso gosto...Meses depois, talvez corrido das ações na Ordem de Cristo, Frei Francisco aportava na Palma, pronto a aceitar a oferta de Bartholomeu que o recebeu de braços abertos. Afinal, a filha teria um pr'ceptor, a ensinar-lhe as ciências da vida” (SILVA, 1995, p. 165-166).
116
Freyre (1986-1990) também destacou que era muito comum aos meninos fazerem os estudos em casa, com o capelão ou com mestre particular. Esse autor se refere somente aos meninos, mas quando havia meninas nesses locais, geralmente elas acabavam aprendendo também os ensinamentos da instrução elementar.
Figura 27 – Segunda assinatura de Angelica Perpetua de Jezus (1777).
Fonte: Inventário de Manoel Joze de Vasconcelos e Figueiredo, Comarca de São Cristóvão, 1777, p. 53. In: CATÁLOGO DIGITAL..., 2005. (CD – ROM 1)
Figura 28 – Assinatura de Maria Jozefa de Rezendes (1779)
Fonte: Inventário de Miguel Pereira de Rezendes, Villa de Santo Antonio das Almas de Itabaiana., 1779, p. 271. Arquivo Público do Estado de Sergipe, Fundo Sebrão Sobrinho - cx 01.
Figura 29 – Assinatura de Francisca Catharina Solto Maior (1794)
Fonte: Inventário de Antonio Fernandes Beires, da Comarca de Estância, 1794, p. 4. In: CATÁLOGO DIGITAL...,2005. (CD – ROM 1).
Figura 30 – Segunda assinatura de Francisca Catharina Solto Maior (1794)
Fonte: Inventário de Antonio Fernandes Beires, da Comarca de Estância, 1794, p. 86. In: CATÁLOGO DIGITAL...,2005. (CD – ROM 1).
Figura 31 – Assinatura de Maria Francisca de Freitas (1796)
Fonte: Inventário de Manoel Caetano do Lago da Comarca de São Cristóvão, 1796, p. 2. In: CATÁLOGO DIGITAL...,2005. (CD – ROM 1).
Figura 32 – Segunda assinatura de Maria Francisca de Freitas (1796)
Fonte: Inventário de Manoel Caetano do Lago da Comarca de São Cristóvão, 1796, p. 20. In: CATÁLOGO DIGITAL...,2005. (CD – ROM 1).
Mesmo diante de suas “marcas autográficas”117 ou assinaturas118, não posso afirmar que aquelas mulheres sabiam escrever e muito menos ler, pois esses saberes à época eram ensinados separadamente119 e, muitas vezes, era comum aprender a desenhar a assinatura.
117
Expressão utilizada por Magalhães (2001, p. 103).
118
A assinatura, conforme Magalhães (2001), pode ser interpretada no âmbito da História da alfabetização com dois objetivos distintos: “(a) a assinatura como factor de distinção entre assinantes e não-assinantes, vulgarmente convertidos em alfabetizados e não-alfabetizados; b) a assinatura utilizada como indicador intrínseco do nível de alfabetismo” (MAGALHÃES, 2001, p. 104).
119
“De fato, nas sociedades do Antigo Regime em que a aprendizagem da escrita sucede a da leitura e envolve apenas uma parte das crianças, é claro que, se todos os que assinam o nome sabem ler, nem todos os que lêem sabem assinar o nome. É claro também que ocorre os que sabem assinar nem todos escrevem, ou porque a assinatura constitui o último estágio de sua aprendizagem cultural, ou porque a falta de prática os fez perder o domínio da escrita que aprenderam outrora e cujo resquício é a assinatura. Paradoxalmente, podemos considerar que nas sociedades antigas a assinatura identifica uma população que com certeza sabe ler, mas da qual só uma parte (impossível de numerar) sabe escrever, e que não é a totalidade dos que sabem ler, pois uma parte destes (também impossível de calcular) nunca soube assinar” (CHARTIER, 1991, p. 114). Já na sociedade moderna, Hèbrard (1991) fez a seguinte análise: a escrita progride de forma que as populações respondam aos interesses da referida época. A escrita, por sua vez, era uma arte ligada ao desenho e, em muitos casos, quem escrevia era incapaz de decodificar o que tinha copiado. “Aprender a ler – escrever – contar supõe ao menos um tempo e um espaço específico, com freqüência uma pessoa em quem se reconhece a capacidade de instruir e a quem se remunera, enfim, os instrumentos sem os quais a transmissão não poderia ter lugar” (Idem, p. 63). Estes conhecimentos foram durante muito tempo, ensinados de forma dissociada: “[...] duas culturas profissionais antigas parecem constituir sua base: a dos clérigos, centrada na prática de uma escrita tendo a vocação de modelar uma língua erudita cujo caráter ‘escrito’ vai se acentuando com o tempo, de uma escrita que se tornou o modo privilegiado da leitura dos textos proporcionados por essa língua; a dos mercadores, apoiada ela também numa prática da pena mais prioritariamente dedicada ao registro e à transmissão de informações verbais ou cifradas. Em suma, escrever/ler ao qual se contrapõe em escrever/contar. Essas práticas culturais, dissociadas durante muito tempo, dispõem de seus próprios modos de
Em contrapartida, o fato de exercerem tal prática chamou-me a atenção para alguns aspectos: essas cinco mulheres, além de se distinguirem entre as demais (trinta e duas), por causa da posição social que ocuparam na sociedade sergipana no século XVIII, elas se distinguiram também pela capacidade de assinar os seus nomes..
O fato de, na Capitania de Sergipe Del Rey, existirem mulheres assinantes, naquele século, confronta-se com a afirmação de Magalhães (2001)120, a qual ressalta que a mulher do mundo ocidental, até o século XIX, assinou a rogo. Mesmo considerando as devidas proporções, pois o autor trabalhou com o imenso universo do mundo ocidental, ao adentrar em uma especificidade desse mundo – Sergipe Del Rey – notei que é preciso ponderar as generalizações, pois a nossa Capitania destoa daquela afirmação, uma vez que houve cinco mulheres assinantes, a partir da metade do século XVIII.
O quadro 7 demonstra que, somente nos meados do século anunciado, houve evidências de mulheres assinantes, na Capitania de Sergipe Del Rey. Essa constatação permite-me fazer duas inferências. Primeiro, na metade daquele século, começou a se desenhar uma mudança de comportamento das mulheres de posse da Capitania de Sergipe Del Rey, em função da expansão da economia local e das relações mercantis, que vão adentrando a área rural ao final do mencionado século.
transmissão, amplamente endógenos, forte ou fracamente escolarizados (mas uma escola continua então uma estrutura da profissional)” (HÉBRARD, 1991, p. 101). Já Magalhães (2001) entendeu que “[...] os sujeitos praticaram a leitura e a escrita de forma diferenciada, em conformidade com os contextos histórico-geográficos e socioculturais e com as representações funcionais ou outras, mas praticaram também em conformidade com a apropriação individual e com as capacitações técnicas e simbólicas” (MAGALHÃES, 2001, p. 50). Esse autor apresenta ainda o “método de alfabetização”, mais usual até finais do Antigo Regime: “O método assentava numa aprendizagem diferenciada para a leitura e para a escrita. Regra geral a aprendizagem da leitura era anterior a aprendizagem da escrita. Por outro lado, para assumir uma atitude informada ‘conscientizada’ sobre determinados assuntos bastava saber ler. Seja por debilidade económica, ou por motivo de suficiência, a verdade é que, numa multiplicidade de casos, os pais retiravam os filhos da aprendizagem da leitura e da escrita, após um curto período de freqüência que lhes permitira aceder a uma capacidade de leitura rudimentar e à assinatura do nome. Tudo parece indicar no que se refere a Portugal, que no decurso do Antigo Regime e mesmo ainda no século XIX, já em período de franca escolarização, a generalidade das crianças alfabetizadas não fora além de um nível rudimentar de literacia que lhe permitia decodificar mensagens escritas e ‘firmar’ a sua participação em determinados actos sociais” (Idem, p. 73-74).
120“[...] não se encontrou ainda nenhuma situação, para o período em estudo genericamente os séculos XVIII e XIX, em que a mulher firme de cruz ou por qualquer outro sinal. Em contrapartida, quando, homem e uma mulher não sabem assinar, ele firma de cruz e ela por não saber assinar (roga) [...]”. “Mas não apenas o caso da mulher, também o caso de alguns serviçais. A mulher tomou no entanto parte activa em processos administrativos como madrinha, como testemunha (caso frequente Inquirições de Genere), ou mesmo como outorgante, ré ou que todavia não firma de cruz, como genericamente a mulher rural não assina antes da segunda metade do século XIX” (MAGALHÃES, 2001, p. 124).
Quadro 7 – Mulheres assinantes da Capitania de Sergipe Del Rey
No Inventariado Inventariante Ano Montante-
mor Montante- líquido Local 01 Alexandre Gomes Ferrão Castelobranco Maria Cardozo de Oliveira
1765 [ilegível] [ilegível] Villa Nova Real do Rey do rio São Francisco 02 Manoel Joze de Vasconcelos e Figueiredo Angelica Perpetua de Jezus
(1777) [ilegível] [ilegível] Villa de Santo Antonio e Almas de Itabaiana 03 Miguel Pereira de Rezendes Maria Jozefa de Rezendes 1779 1:184$480 1:154$450 Villa de Santo Antonio e Almas de Itabaiana 04 Antonio Fernandes Beires Francisca Catharina Solto Maior 1794 4: 720$940 4:375$275 Povoação de Estância 05 Manoel Caetano do Lago Maria Francisca de Freitas 1796 12:532$190 3:190$700’ Cidade de Sergipe Del Rey Fonte: Elaboração da pesquisadora, a partir do Catálogo Digital da Documentação do Século XVIII de Sergipe: inventários judiciais, 2 CD-ROM e inventários do APES
Essa expansão exigiu o aprendizado de tais saberes, necessários para gerir o próprio negócio, como se verificou nos três primeiros casos evidenciados no citado quadro: Maria Cardozo de Oliveira, Francisca Catharina Solto Maior e Maria Francisca de Freitas eram assinantes e possuíram os maiores espólios dentre as trinta e sete mulheres pesquisadas121. Reafirmando esse entendimento, é oportuno comentar o caso de Maria Cardozo de Oliveira, que não teve mencionado os valores monetários de sua fortuna por causa das imensas dívidas