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Leitura e processos cognitivos

No documento TESE FINAL CARLA DIMITRE_PHD (páginas 105-108)

PARTE I – FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

CAPÍTULO 3 O DESENVOLVIMENTO DA COMPETÊNCIA DE LEITURA

3.2. LEITURA E ATO DE LER

3.2.1. Leitura e processos cognitivos

Durante décadas, os investigadores em linguística nem sempre estiveram de acordo no que respeita às vias de leitura: uns afirmavam que era essencial a passagem pelo som, outros que a passagem pela via fonológica caraterizava os leitores iniciantes.

O recurso à oralidade (falar e compreender o que se ouve) é identificado como uso primário da língua e o recurso à escrita e à leitura, como uso secundário. Desta forma, “a compreensão do que se lê depende do conhecimento que se possui da vertente oral da língua”(Sim-Sim, 2006, p.36). Outros investigadores (Cruz, 2007; Jolibert, 2003; Snow, 2002) corroboram a ideia de que a compreensão da leitura está condicionada pela competência do uso da língua falada e escrita. De facto, sendo o código oral regido por regras, é essencial saber traduzir os sinais convencionados em sequências sonoras, para saber ler o material impresso, concretamente: grafemas, sílabas, palavras, frases e, por fim, textos (Sim-Sim, 2001), compreendendo o texto lido.

No ato de ler, o leitor é o agente de um processo de transformação da linguagem escrita, em linguagem falada, atribuindo significado ao texto que lê (Capovilla & Capovilla, 2007; Coltheart, 2005; Dehaene, 2007. Há uma transformação gerada durante o ato de ler. A conversão grafema-fonema realiza-se pela via fonológica, enquanto, pela via lexical, se realiza a pesquisa, na memória a longo prazo. Por outras palavras, Sim-Sim (2006) explicita que, no processo de reconhecimento visual das palavras, acontece a ativação imediata da via de acesso ao significado; no entanto, sempre que o leitor não identifica a forma global das palavras, o acesso passa a realizar-se através da forma fonológica das mesmas.

Segundo Dehaene (2007, p.70), um leitor fluente “seulement aprés plusieurs années d’aprentissage” utiliza a via direta ou lexical, uma vez que “les deux voies finissent par s’intégrer l’une à l’autre, au point de produire, chez le lecteur adulte, l’apparence d’un système de lecture unique et integre.” O leitor competente domina este sistema.

Na figura seguinte, pode-se observar uma exemplificação das vias de acesso ao reconhecimento da palavra:

Fonte: Sim-Sim (2007) – adaptado por Alves (2012, p. 57).

Como esquematizado na figura 3, através da via lexical, de uma forma rápida e ortográfica, o reconhecimento global das palavras é gerado pelo reconhecimento de características visuais no material gráfico, pela visualização do vocabulário que o leitor retém na memória e pela ativação semântica. Através da via sublexical, de uma forma indireta, percetiva e ortográfica, a correspondência entre som e letra passa pela identificação da forma das letras, pela análise dos segmentos silábicos e fonémicos, pela reconstrução de cadeias sonoras e pela ativação semântica (Sim-Sim, 2007).

Qualquer ser humano consegue ativar, automaticamente, as informações sobre a pronúncia das palavras, mesmo sem as articular em voz alta, facto que comprova a via direta de acesso às palavras. Por outras palavras, e indo ao encontro de Coltheart (2005) e Dehaene (2007), a via fonológica e a via lexical, funcionando em paralelo, apoiam-se uma na outra, acelerando o processo de leitura. De acordo com outros investigadores (Amor, 2006; Lomas, 2003; Sánchez & Jiménez, 2001; Sousa, 2000), o processamento das palavras, através da ativação das vias visual e fonológica, será tanto mais rápido, quanto maior for a familiaridade do leitor com o vocabulário em uso, no texto lido.

Além das vias de acesso ao processamento das palavras, outras variáveis existem, que irão influenciar a leitura e a compreensão da informação. Assim, Fonseca (2002) enumera algumas variáveis dependentes das competências cognitivas, que o leitor deve possuir: a atenção, a perceção, a memória, o processamento simultâneo e sequencializado, a simbolização, a compreensão, a inferência, a planificação e produção de estratégias, a concetualização, a resolução de problemas, a rechamada e a expressão de informação.

No entender de Azevedo (2007) e Fonseca (2002), os processos cognitivos, implicados na leitura, englobam os conhecimentos linguísticos e concetuais, o domínio visual do léxico, a capacidade visual, auditiva e taloquinestésica, o conhecimento da

conversão grafema/fonema, como essencial para a descodificação da escrita e consequente descodificação de palavras, bem como a capacidade de construir significados, a partir do texto e do contexto. Além da linguagem, Azevedo (2007) e Silva et al. (2009) acrescentam outros processos envolvidos na complexa atividade de leitura, tais como a cultura, a psicomotricidade, a emotividade e a perceção visual e auditiva, entre vários.

Por sua vez, e analisando os múltiplos processos cognitivos, que o ato de ler implica, Citoler (1997) e Cruz (2007) debruçam-se em torno da compreensão e da descodificação. Estes investigadores definem dois níveis. O nível inferior, onde colocam a descodificação, por envolver os módulos percetivo e lexical, e o nível superior, onde situam a compreensão, por envolver os módulos sintático e semântico. Citoler (1997) reforça que ambos os processos são essenciais, para a concretização da leitura e que ambos funcionam em simultâneo, durante o ato de ler.

Figura 4 - Processos cognitivos que interagem na leitura

Fonte: Lomas (2003, p. 166)

Para além de Lomas (ibidem), outros autores têm vindo a categorizar os níveis de compreensão da leitura. Há algumas décadas, em 1978, Herber atribuiu três níveis “à compreensão em geral”; em 1980, Smith afirmou que a compreensão “integra quatro categorias”; em 1983, Chall explicou que, durante a escolaridade, há seis estádios de leitura, que se desenvolvem de acordo com alguns exemplos apresentados por Sim-Sim (2006, p. 45). Esta investigadora concluiu que, independentemente das teorias existentes, “a compreensão subentende diversos graus de complexidade” e respetivas competências específicas. Em acréscimo, reforça que as características do próprio leitor se sobrepõem à “capacidade de compreensão em si mesma” (ibidem).

Torna-se, então, evidente, que a aprendizagem da leitura é um processo complexo. O treino sistematizado, com técnicas de automatização, é essencial para que o aprendiz de leitor ultrapasse o moroso processo de tradução grafema-fonema, que o conduzirá ao imediato reconhecimento visual das palavras, e, por fim, ao acesso à compreensão textual (Duarte, 2008; Jolibert, 2003; Sim-Sim, 2007).

Neste sentido, compreende-se o quão importante se torna a forma como é realizada a abordagem da leitura, em contexto de sala de aula. O professor deve selecionar e aplicar estratégias, que motivem o aluno a interessar-se pelo assunto do texto, valorizando as atividades de antecipação sobre o conteúdo textual, apelando ao conhecimento prévio dos alunos, antes e durante a leitura do texto e orientando os alunos no processo de leitura, no entendimento de que ler é compreender (Jolibert, 2003).

No documento TESE FINAL CARLA DIMITRE_PHD (páginas 105-108)

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