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Lentes sobre a juventude – alguns estudos e reflexões

Figura 5 Taxa líquida de escolarização ajustada na educação superior, por sexo – Brasil.

5. JUVENTUDE UNIVERSITÁRIA – REFLEXÕES SOBRE A CONDIÇÃO DO JOVEM UNIVERSITÁRIO COMO SUJEITO SOCIAL

5.1 Lentes sobre a juventude – alguns estudos e reflexões

A juventude é uma construção histórica que assume destaque nas sociedades industriais modernas, produto das novas relações e condições sociais que alteraram a representação da família e promoveram a transformação das relações de trabalho, fazendo emergir o trabalho assalariado e tornando necessária a proliferação de novas instituições de socialização como a escola.

Em um texto onde aborda a juventude, grupos culturais e sociabilidade, Dayrell (2004; 2005, 10.) considera:

[...] a categoria juventude não mais presa a critérios rígidos, mas sim como parte de um processo de crescimento mais totalizante, que ganha contornos específicos no conjunto das experiências vivenciadas pelos indivíduos no seu contexto social. Significa não entender a juventude como uma etapa com um fim predeterminado, muito menos como um momento de preparação que será superado quando entrar na

vida adulta. A juventude constitui um momento determinado, mas que não se reduz a uma passagem, assumindo uma importância em si mesma como um momento de exercício de inserção social, no qual indivíduo vai se descobrindo e descortinando as possibilidades em todas as instâncias da vida social, desde a dimensão afetiva até a profissional. Esse processo é influenciado pelo meio social concreto no qual se desenvolve e pela qualidade das trocas que este proporciona, fazendo com que os jovens construam determinados modos de ser jovem. É nesse sentido que enfatizamos a noção de juventudes, no plural, para enfatizar a diversidade de modos de ser jovem existente.

A percepção do Dayrell acerca da dinâmica dialética que implica em ser e se perceber como jovem demonstra que o espaço histórico e social onde o indivíduo vivencia suas experiências e práticas é definidor do sentido atribuído por ele a esta condição de ser, que é a juventude. A formação cultural e social está associada a um conjunto de espaços sociais, lugares e instituições, que atuam como constituintes deste ser, que em conflito com aquilo que fora estabelecido para ele, se identifica com formas e padrões próprios e singulares. Como categoria manipulável pelo mundo adulto e pelo próprio jovem, a juventude é reivindicada como uma identidade, que em essência se associa ao que é genérico, e se dissocia dessa generalização a fim de constituir-se como sujeito, agente, protagonista de uma condição social de existir.

Souza (2004) afirma que a juventude é uma categoria inventada pelos adultos, e que as experiências sociais e contemporâneas da juventude estão no viver em grupos, no fazer-se na relação com outro. Mas a ideia ou até mesmo a categorização do que representa ser juventude, não ocorre fora do contexto daqueles que a formam, os jovens, como sujeitos sociais, criam e recriam a si mesmo e as suas identidades em consonância com o que está a disposição, de forma objetiva e subjetiva, seja no jogo das relações sociais ou dentro da estrutura social, e que lhe permitirá atuar enquanto jovem.

Na perspectiva da autora os tempos da vida estão contidos uns nos outros, pois cada indivíduo, em consonância com suas condições de existência, assume distintas representações dos tempos da vida. Esta relação está presente na observação de Pais (2009, p. 372) no dialogo com um jovem guia no Nordeste do Brasil, quando o interroga sobre sua idade. Este, aumentando a mesma, justifica que sua escolha independe do seu tempo de vida, mas das suas necessidades para estar no mundo. Ou como afirma Souza, a idade está,

[...] no devir das experiências e respostas existenciais, uma idade não elimina a outra, mas a contém. Em vez de se pensar na juventude como um momento de preparação para algo que está por vir, alimentando preconceitos e hierarquizações, acreditar que «o menino e a menina, o jovem e a jovem estão na pessoa adulta ou

velha e, inclusive, os meninos e as meninas podem responder como adultos em determinadas situações». (SOUZA, 2004, p.49)

Ou, como diz Pais (1993), a juventude é uma categoria socialmente construída e, como tal, observa que os tempos da vida são fases sucessivas e complexas no processo de construção social.

A segmentarização do curso da vida em sucessivas fases é produto de um complexo processo de construção social. No dia-a-dia, os indivíduos tomam consciência de determinadas características e, se elas afetam um universo considerável de indivíduos pertencentes a uma geração, são culturalmente incorporadas. Se essas características de um período da vida apresentam-se como expressão de problemas, então atraem a atenção dos poderes públicos, tornando-se objeto de medidas legislativas ou não. Como exemplo, há os programas de formação profissional, prolongamento da escolaridade, a criação do Estatuto da Criança e do Adolescente e muitas outras.

Verifica-se aí que a construção da juventude e sua problematização, tanto pelo poder público como pela própria ciência, é produto das relações que os jovens, estabelecidos e reconhecidos como próprios dos grupos em questão, retomam ou reivindicam para si os atributos ou práticas que os distingue dos outros a partir das normas constituídas na sociedade.

O sociólogo português José Machado Pais em uma pesquisa realizada em 1993, em uma ilha do Açores. Observa:

Numa pesquisa etnográfica que realizei (Pais, 1993) numa ilha (Santa Maria dos Açores),constatei que alguns jovens estudantes procuravam áreas de estudo que não

existiam na ilha (em Portugal, quando finalizam a

escolaridadeobrigatória,osjovenssãoobrigadosaescolherumaáreadeespecializaçãodea cordocomocursosuniversitáriosquepretendemseguir).OMinistérioda Educação, perante estes “dados”, aparentemente “objectivos”, decidiu satisfazer assupostaspretensõesdosestudantes,numalógicade“oferta-procura”;asescolas

secundárias de Santa Maria passaram a fornecer especializações nas áreas até então mais procuradas. Surpreendentemente, os jovens passaram a preferir as áreas que tinham sido extintas por falta de procura.

Como interpretar este paradoxo? Desconfiando dos “dados” aparentemente “objectivos” e investigando os contextos subjectivos e trajectivos de opções tão inesperadas que nos apontam para objetividades ocultas. Santa Maria é uma pequena ilha perdida no Atlântico. O sonho de muitos dos seus habitantes é emigrarem: para o Brasil, Estados Unidos, Canadá ou Lisboa. Os jovens da ilha cresceram na teia destas idealizações trajectivas. O sonho que acalentam é também o de saírem da ilha. Aqualquer pretexto. Por exemplo, a pretexto de seguirem áreas de estudo quenãoexistamnailha. Aliás, fora da ilha é também mais provável arranjar namorado (a) que facilite a evasão da ilha. Desta forma, as estratégias conjugais aparecem fortemente imbricadas com as estratégias escolares e profissionais. (PAIS, 2005, p.65)

O agir prático dos jovens da ilha de Santa Maria se adequa a uma necessidade que ultrapassa a percepção efetiva do enunciado discursivo institucional, ou seja, as políticas propostas pelo Estado não respondiam a demanda dos jovens que destituídos da sua condição de sujeito eram submetidos a escolhas que iam de encontro as suas expectativas. Ultrapassar os limites da ilha era um desejo e dentre as estratégias para alcançar a formação profissional e as escolhas educacionais eram disposições práticas de atuação destes sujeitos. É possível deduzir que cursar o que a escola oferecia implicava em fincar os pés num lugar que não queriam estar, a escolha de uma opção distinta do que é oferecido expressa o desejo de não estar ali.

A questão que emerge a partir do relato etnográfico de Pais (1993 apud PAIS, 2005), no que tange as disposições e estratégias de escolha e afiliação dos jovens universitários em questão é: em que medida as escolhas dos grupos de pesquisa e a participação nestas atividades está associada ao querer fazer pesquisa? Quais os sentidos atribuídos ao fazer da pesquisa para os jovens do Recôncavo da Bahia? Será que as inscrição e afiliação a grupos de pesquisa se constitui numa estratégia de fortalecimento da rede de relações sociais, cujos objetivos está na inserção no mercado ou na constituição de laços de afinidade que possibilitem projeções futuras e de coparticipação profissional?

A universidade é ao mesmo tempo um espaço de formação profissional e uma possibilidade de mobilidade econômica e social, podendo ser percebidas como coisas distintas, pois representam perspectivas que se aproximam da realidade de quem opera a escolha. Logo, escolher fazer parte de programas de iniciação à pesquisa, ensino ou extensão, representa a necessidade de permanecer e sobreviver, como também a de obtenção de prestígio e reconhecimento como bolsista.

Sendo assim, “falar” de jovens trabalhadores ou jovens estudantes, jovens urbanos ou rurais, jovens “pobres” ou jovens de “classe média” não assume o mesmo sentido de juventude enquanto fase da vida. Assim sendo, o estudo da juventude exige do raciocínio sociológico a constante “vigilância epistemológica” (BOURDIEU; CHAMBODERON; PASSERON, 2004), que implica na adoção do pressuposto metodológico de que a juventude não é socialmente homogênea. Portanto, “a juventude apareceria socialmente divida em função dos interesses, de suas origens sociais, das suas perspectivas e aspirações” (PAIS, 1990, p. 149).

A vigilância epistemológica está em perceber que para além de uma denominação, há um conjunto de práticas e representações sociais que estão presentes como condição distintiva dos indivíduos, aquilo que de forma particular contribui na constituição dos sujeitos, e que se expressa nas suas práticas, no seu fazer e no seu atuar dentro de um dado espaço social. E,

ainda que estas categorias estejam circunscritas ao mundo dos adultos, elas orientam os olhares e as definições classificatórias que operam naquilo que é constituinte do indivíduo, como também naquilo que é a forma manifesta das experiências humanas, o agir prático, os saberes e o conhecimento.

Esta mão dupla entre o rigor epistemológico e os recortes do objeto, representa bem a inquietude em conceituar a juventude. Diz respeito a uma dialética que opera com as categorias do pensamento científico e as categorias presentes nas representações dos indivíduos sobre o seu estar no mundo. Esta dialética implica em promover o choque e construir o conceito no processo de observação e reconhecimento do próprio objeto de estudo, assim sendo, representa um abordar da juventude a partir daquilo que tem concretude na percepção e na imaginação, tanto daqueles a quem é atribuído o conceito, como, daqueles que o reivindicam como parte de uma identidade. Apreender o que é próprio da condição de juventude é um exercício de grande valia para compreendermos suas múltiplas faces.

Pois, como afirma Oliveira (2013: 17);

Enquanto categoria socialmente construída, a juventude não pode ser compreendida apenas a partir da sua dimensão simbólica, mas também a partir da materialidade histórica que envolve a sua produção social. Faz-se necessário reconhecer que o “modelo de juventude”, hegemonicamente produzido ao longo da sociedade moderna, não foi e nem é vivido por todos os indivíduos pertencentes ao mesmo grupo etário, da mesma forma.

De fato, há na sociedade grupos que são heterogêneos, pluriclassistas, multireferenciados, que estão situados numa mesma instituição ou espaço social e que são alocados numa mesma condição ou identidade. A racionalidade moderna estabeleceu conceitos para referenciar os agentes que operam na sociedade e nas instituições responsáveis por validar o discurso desta forma de racionalidade. Ela renomeou as identidades e as numerou de forma sequencial, atribuindo-lhe um status, uma posição social associada a um espaço social ou instituição. É assim com os jovens que adentram a universidade são reclassificados e suas identidades são substituídas por números sequenciais de matriculas. A partir daí, seu status é modificado perante a sociedade, e passam a ser reconhecidos como juventude universitária. Além disto, há ainda a distribuição do prestígio pelo pertencimento ao curso, à instituição e ao papel que desempenha neste espaço. Logo, ser jovem universitário, bolsista de pesquisa, ensino ou extensão, expositor de comunicações científicas é um exemplo de como a racionalidade moderna opera, destituindo as identidades e constituindo conceitos homogeneizadores para classificar os indivíduos e dissocia-los das suas práticas e identidades, mas, dando e criando as condições para constituição de novas identidades.

Sposito (2003) amparada nas formulações de Attias-Donfut (1996) sugere que se trata de uma sobreposição entre “momento da vida” e “sujeitos concretos”, que indevidamente são abordadas como semelhantes. A noção de juventude sempre reporta a uma fase ou momento do ciclo da vida, portadora de determinados valores, atitudes e práticas, cujos sentidos e reconhecimento vinculam-se a constituição da sociedade moderna; inclusive, transformando-se em modelo cultural a ser seguido pela sociedade. Por sua vez, “jovens” são os sujeitos que vivem essa fase da vida, que podem ou não aceitar os modelos de “juventude” predominantes em determinado momento histórico, ou seja, “são sujeitos históricos concretos, situados em um tempo e espaço determinados” (ESTEVES; ABRAMOVAY, 2007 apud OLIVEIRA, 2013, p. 39).

É por esta razão que Abramo (2005) e Sposito (2003) observam que a juventude deve ser tratada como juventudes, ou seja, no plural. Isto é, como o que se multiplica nas condições de existência e modos de vida próprios a estes sujeitos, pois assim expressam a diversidade de situações e escolhas destes indivíduos num dado momento da vida.

O que se apresenta no debate é a relação entre o sujeito e suas condições de existência associadas à conjuntura política e social de cada época, como também as representações daquilo que conformam as identidades como estratégias de superação e inclusão na própria sociedade. Há de se ter tempos da juventude, como formas de compreensão das condições objetivas e subjetivas de afirmação das identidades, que atribuem ao indivíduo à condição de sujeito social, protagonista e detentor da sua própria condição de existência.

Enquanto sujeitos e protagonistas de um fazer prático, estes indivíduos dispõem de um conjunto de arbitrários, escolhas culturais e sociais, para atuarem em determinadas situações; em conformidade com os seus interesses e numa relação de interdependência com as condições objetivas e subjetivas que dispõem para atuarem, tornam-se responsáveis pela adequação, superação, contradição ou aceitação daquilo que lhes é imposto, podendo assim constituir ou não, um novo habitus. O exemplo anteriormente citado dos Jovens da ilha de Santa Maria nos Açores investigada por Pais (1993) no século XX, evidencia isto.

5.1.1. Tempos da juventude – reflexões conceituais e usos do conceito

A compreensão da ação do homem na construção da sociedade está presente no campo das teorias sociais. O homem em busca de assegurar sua preservação e manutenção atuou na criação de ferramentas e tecnologias transformando a natureza. Porém, o domínio sobre a natureza está para além da transformação da matéria prima em mercadoria, implica em produzir experiências e formas de agir que caracterizam épocas e momentos da vida.

Observar a sociedade e seus indivíduos nas distintas fases da vida, e colher delas informações é um mecanismo de compreensão da condição humana. Que nas palavras de Melucci (1997, p.5), trata-se de uma forma de intervenção onde:

A tarefa não é somente da ordem da dominação da natureza e da transformação de matéria prima em mercadoria, mas sim do desenvolvimento da capacidade reflexiva do eu de produzir informação, comunicação, sociabilidade, com um aumento progressivo na intervenção do sistema na sua própria ação e na maneira de percebê- la e representá-la.

Nesta perspectiva os indivíduos imersos nesta dinâmica criativa têm a possibilidade de atuarem conforme suas especificidades de classe, raça, gênero, origem, etc.. A orientação das ações está associada às experiências, “cada vez mais construídas por meio de investimentos cognitivos, culturais e materiais” (MELUCCI, 1997, p.5).

Em uma sociedade que está quase que inteiramente construída por nossos investimentos culturais simbólicos, tempo é uma das categorias básicas através da qual nós construímos nossa experiência. Hoje, o tempo se torna uma questão-chave nos conflitos sociais e na mudança social. A juventude que se situa, biológica e culturalmente, em uma íntima relação com o tempo, representa um ator crucial, interpretando e traduzindo para o resto da sociedade um dos seus dilemas conflituais básicos. (MELUCCI, 1997, p.7)

A juventude resguarda para si uma característica que ao mesmo tempo a distingue da heteronomia da infância com relação à autonomia da vida adulta, absorvendo experiências tradicionais ou contemporâneas e atribuindo-lhes, ou não, significados próprios. Se num primeiro instante a ideia de juventude revela uma forma de associação à vontade de outros, por outro lado, lhes é cobrado certa autonomia capaz de escolhas e opções, próprias da vida adulta. Isto é uma condição estruturante na formação dos sujeitos, que passam a questionar o próprio sentido do tempo na formação da sociedade.

Os tempos que nós experimentamos são muito diferentes uns dos outros e às vezes parecem até opostos. Há tempos muito difíceis de medir — tempos diluídos e tempos extremamente concentrados. Pense na multiplicidade de tempos que imagens (televisão, gráficos, propaganda) introduzem na nossa vida diária. Isto também significa separações, interrupções mais definidas que no passado — muito mais perceptíveis do que em estruturas sociais relativamente homogêneas — entre os diferentes tempos em que nós vivemos.

Existe particularmente uma clara separação entre tempos interiores (tempos que cada indivíduo vive sua experiência interna, afeições, emoções) e tempos exteriores marcados por ritmos diferentes e regulado pelas múltiplas esferas de pertencimento de cada indivíduo. (MELUCCI, 1997, p.7)

A apropriação que o jovem faz do tempo produz diferenciações entre as formas de apreensão e vivência das experiências, que impossibilita a redução dos arbitrários culturais e do próprio agir a um denominador comum que universalize a condição de existência dos indivíduos ou à definição de certa homogeneidade de classe. Contudo, há necessidade de perceber-se o que há de comum nestas experimentações da vida e do tempo, pois a construção das identidades individuais e o reconhecimento social e coletivo estão associados à compreensão das diferenças no interior das sociedades. Tempos diferentes - seja ele cronológico ou social - operam com indivíduos diferentes e em cada fase da vida, fazendo com que a opção e ou escolha resvale na própria contradição da sociedade, que busca constituir uma unidade comum como razão de um único tempo, que é próprio do modelo homogeneizante estabelecido pela racionalidade moderna que atua em conformidade com as classe dominantes.

Peralva (1997, p.18) observa que com relação ao tempo, o passado e o futuro diluem-se, uma vez que as distintas fases da vida possuem características próprias e se autonomizam em relação às outras. Na era moderna há uma tensão, potencializada na ideia de que o passado não deve coibir ou restringir, nem tampouco destruir os elementos intrínsecos à contemporaneidade que buscam a transformação da sociedade.

Ainda que as distintas fases da vida tenham características próprias, estas foram atribuídas por uma racionalidade dominante que opera na modernidade, logo, por um rigor epistemológico que não buscou apreender a diversidade das experiências individuais e seus desdobramentos no agir prático daqueles que esta racionalidade rotula. Ao construir o tipo, o modelo, o esperado, a racionalidade dominante que atua na modernidade furtou do indivíduo sua autenticidade crítica para perceber-se no mundo – histórico, material, social, econômico e político – e dispôs, através das instituições que regula e autoriza como reprodutora desta razão, o papel de socializar e reproduzir o que é comum e estabelecido como próprio da modernidade.

Em Melucci (1997) o tempo é uma questão social onde se situa a própria experiência temporal, ele está imerso num campo cultural e conflitivo onde esta experiência é questionada. A disponibilidade de possibilidades sociais recai sobre os jovens como formas de incertezas, funcionam como linguagens temporárias e provisórias, que definem estilos de roupas, gêneros musicais, atuação em grupos e formas de reconhecimento e identidades próprias para cada época, fazendo emergir reconhecimentos momentâneos e fluidos.

Neste sentido é que José Machado Pais (1990) nos afirma que a juventude é um conceito pré-construído que necessita ser destruído para que possa ser reconstruído. Isto é,

torna-se necessário estabelecer rupturas com a opinião corrente na teoria social para que se possa construir um contra discurso, uma nova opinião, que em síntese poderá negar a opinião anterior ou até mesmo acrescer e superá-la. Nas palavras do autor, existe a:

necessidade de estabelecer rupturas com as representações da juventude, isto é, de estabelecer rupturas com a doxa dominante, tentando, em contrapartida, desenvolver, em relação à realidade socialmente construída que é a juventude, outra doxa mais firme que a espontânea, sem que hesite – é mesmo uma necessidade – em tornar-se paradoxa. (PAIS, 1990, p.139)

O tempo de escolarização, o tempo de assumir formas de expressar a sexualidade, o