GIACOMO LEOPARDI E O SÉCULO
1.3 LEOPARDI ALÉM DO CLASSICISMO E DO ROMANTISMO
Sobre os ideais que se desenvolviam no jovem Leopardi em relação aos acontecimentos que se consolidavam não só na Itália, mas também na Europa, De Sanctis afirma que:
[...] c'è nell'ambiente morale del giovine una certa mescolanza di vecchio e di nuovo, di classico, di
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Giuseppe Acerbi (1773-1846) foi diretor da revista Biblioteca italiana de 1816 a 1826. Entre Acerbi e Leopardi foram trocadas dez cartas (LEOPARDI, 1998, p. 2381-2382).
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biblico e di contemporaneo; e quantunque gridi contro la Rivoluzione francese, c'è nel suo spirito una stoffa rivoluzionaria in formazione, aggregata a tutto il resto, che nel Saggio è voce di riforma e di libero esame, e qui si esprime come moderazione e attenuamento di tutto ciò che in casa e a scuola aveva trovato di assoluto e di eccessivo (1905 , p. 25).
O “Saggio” citado por De Sanctis é o Saggio sopra gli errori popolari degli antichi, uma obra que Leopardi escreveu ainda muito jovem entre 1813 e 1816. Nessa obra, Leopardi expressa a sua erudição construída por meio dos clássicos e apresenta a sua opinião sobre a religião e a política. Segundo De Sanctis, “il Saggio è il prodotto dell’ambiente e della tradizione, una tradizione passivamente ricevuta, non ventilata, non assorbita nella propria personalità” (1905, p. 22-23). O ensaio, escrito em uma ocasião em que Leopardi anuncia uma gama de conhecimento condensado em anos de estudo na biblioteca da família, é de grande importância para a história do autor, pois “è ancora il prodotto spontaneo e inconscio della natura e dell’educazione, come siamo tutti, più meno, in quella età” (1905, p. 22-23).
Para Walter Binni, apesar de Leopardi ter tido uma formação clássica e essa ter sido responsável por sua personalidade, não se pode afirmar que o poeta tenha tido uma posição completamente classicista. Segundo o crítico,
[...] sarebbe erroneo chiudere il Leopardi in una schematica e chiusa definizione del classicismo (ribaltata a generale equazione classicismo- progressismo di fronte a romantico-reazione) senza tener conto dell’enorme acquisizione nella formazione leopardiana delle inquietudine preromantiche e dello stesso attrito non solo polemico con il romanticismo, se la stessa finale prospettiva della Ginestra supera di gran lunga ogni pura tensione male immaginabili senza un contato profondo con l’esaltazione romantica delle forti passioni e della poesia-messaggio (1988, p. 12).
Cesare Luporini, por sua vez, em Leopardi progressivo, destaca a influência do Romantismo sobre a filosofia leopardiana. Segundo o
estudioso, a consciência literária de Leopardi se origina na época romântica,
[...] tuttavia la oltrepassa per la direzione in cui si svolge, per la schiettezza e virile compostezza con cui è vissuta e fatta oggetto di reflessione, priva com’è di estetizzante compiacimento e, quasi sempre, del gusto della sofferenza e dilacerazione da cui è materiata: ‘coscienza infelice’ che non culla in se medesima (1996, p. 5).
A importância dessa experiência consiste na “intensità e precisione che essa acquista e riesce a mantenere dentro il limite che le è proprio, per cui diventa in qualche modo esemplare e tipica” (LUPORINI, 1996, p. 5). A forma como se consolida essa experiência está profundamente ligada a um momento de intenso isolamento no mundo interior e de incoerência com a realidade histórica. É o caso do tédio, um tema muito corrente no Romantismo, que também é dominante em Leopardi. Segundo Luporini, é o início e o fim do “sistema” de Leopardi, pois
[...] il rapporto che Leopardi ha con esso, come con tutti i termini del suo mondo filosofico (natura, ragione, illusione, ecc.), è un rapporto personale e drammatico, di consentimento o risentimento, di accettazione o deprecazione (1996, p. 6).
Esses termos se transformam em personagens de um drama “la noia rivela il vuoto, il nulla delle cose” (LUPORINI, 1996, p. 6-7).
Para Carpeaux, Leopardi “não foi Romântico”, mas ele deixou seu Romantismo à posteridade, pois “o Romantismo lhe foi imposto pela vida” (1996, p. 142). Segundo o crítico, um dos motivos da infelicidade de Leopardi foi o confinamento na biblioteca paterna, ao qual o poeta teria sido condicionado, assim como a casa paterna foi a “prisão” que tornou Leopardi totalmente inapto para a vida. Carpeaux ainda afirma que o poema All’Italia (1818) foi a expressão da desilusão patriótica, e
[...] o republicanismo radical e anticristão de Leopardi parecia aproximá-lo de Byron, e a reação política e clerical na Itália, reação que ele
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sofreu diretamente na casa paterna, parecia explicação suficiente do seu desespero (1996, p.142).
Esse comportamento levou Leopardi a ser considerado em 1840, segundo Carpeaux, “o poeta da desgraça antes de levantar a aurora da liberdade” (1996, p.142).
Apesar de Leopardi ter toda uma formação classicista, o seu percurso teve um indício de pré-romantismo baseado em Alfieri e Foscolo. Esse indício proporciona uma mudança progressiva e um inevitável encontro com o Romantismo que
inicia e acompanha a progressiva mudança de um novo gosto e de uma nova concepção da arte, que, através de um complexo de reações e de polêmicas, leva Leopardi a aceitar aos poucos os fundamentos pressupostos da escola moderna, e culmina na afirmação de uma poética original explicitamente romântica, embora em sentido bastante diverso e quase oposto àquele dominante nos românticos da Alta Itália (LUCCHESI (org.), 1996, p. 97).
Segundo De Sanctis, Leopardi, só e isolado no seu pensamento e na sua dor, foi eco de um mistério. O ceticismo do poeta anuncia a dissolução do mundo teológico-metafísico e inaugura o mundo real:
La metafisica in lotta con la teologia si era esaurita in questo tentativo di conciliazione. La moltiplicità de’sistemi avea tolto credito alla stessa scienza. Sorgeva un nuovo scetticismo che non colpiva più solo la religione o il soprannaturale, colpiva la stessa ragione. La metafisica era tenuta come una succursale della teologia. L’idea sembrava un sostituto della provvidenza. Quelle filosofie della storia, delle religioni, dell’umanità, del dritto avevano aria di costruzioni poetiche. La teoria del progresso o del fato storico nelle sue evoluzioni sembrava una fantasmagoria. L’abuso degli elementi provvidenziali e collettivi conduceva diritto all’onnipotenza dello stato, al centralismo governativo. L’ecletismo pareva una stagnazione
intellettuale, un mare morto. L’apoteosi del successo rintuzzava il senso morale, incoraggiava tutte le violenze. Quella conciliazione tra il vecchio ed il nuovo, tollerata pure come temporanea necessità politica, sembrava in fondo una profanazione della scienza, una fiacchezza morale. Il sistema non attecchiva più: cominciava la ribellione. Mancata era la fede nella rivelazione. Mancava ora la fede nella stessa filosofia. Ricompariva il mistero (1996, p. 905- 906).
De Sanctis chama a atenção para a complexa mudança ocorrida entre as últimas décadas do século XVIII e o início do século XIX que viu surgir uma nova concepção de mundo que colocava em crise os limites entre razão/filosofia e metafísica/fé. As vozes dessa transição do século XIX estariam representadas, segundo o historiador, nos Canti de Leopardi. (1996, p. 905-906).
Rigoni, em Il pensiero di Leopardi, diz que a oposição de Leopardi ao Romantismo italiano é de fato evidente. No entanto, o poeta tem uma inconsciente afinidade com os ideais e as concepções típicas do Romantismo europeu e isso se pode notar nas reflexões registradas no Zibaldone por meio de conceitos filosóficos e estéticos. Segundo o crítico, o primeiro aspecto que inscreve o pensamento de Leopardi ao do Romantismo europeu é o conceito de poesia não mais como imitação, segundo a tradição estética, mas como criação e expressão da pura subjetividade. Quanto à reflexão sobre a natureza da poesia, segundo Rigoni,
Leopardi ripercorre solitariamente ma puntualmente l’evoluzione compiuta della cultura estetica tedesca e inglese fra Sette e Ottocento, che giunse alla dissoluzione della teoria imitativa dell’arte attraverso il primato riconosciuto per un verso alla musica, per l’altro alla lirica (1997, p. 120).
Outro ponto desenvolvido em algumas páginas do Zibaldone entre 1821 e 1823 é a elaboração de uma estética da natureza e do conhecimento aproximada àquela defendida pelos pensadores Românticos. A afinidade ideal com o Romantismo se manifesta ainda em uma série de aspectos particulares, que vão
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dall’intraducibilità dello stile classico alla descrizione dei caratteri della tragedia antica, della polemica antiutilitaria nella letteratura e nella cultura all’inversione dei tradizionali rapporti fra etica ed estetica, dal richiamo della malinconia all’elogio della flânerie (RIGONI, 1997, p. 120).
Percebemos, através das considerações dos críticos, que se torna difícil inserir Leopardi em um ou outro contexto literário, pois o autor manifestou uma afinidade com o Romantismo, embora tenha tido uma formação fundamentada nos Clássicos. Leopardi parece transitar com maestria entre esses dois cenários literários da sua época, aspecto que pode ser conferido também nas suas consepções sobre tradução.