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4. Bonfim e Pacaraima (Roraima)

4.2.1. Lethem, Bonfim e Boa Vista

No que diz respeito a mobilidade humana nestes municípios, os brasileiros se deslocam para a Guiana para trabalhar, notadamente, como garimpeiros, mas também como vendedores e atendentes em estabelecimentos comerciais, cozinheiras, ou taxistas (Lourenço, 2012). O movimento de garimpeiros brasileiros em direção à Guiana tem dados inestimados, porém é notável, em seu escopo e frequência. A grande maioria dos garimpeiros que, hoje, transita por Bonfim, é natural dos estados amazônicos e do nordeste do Brasil, em particular do Estado do Maranhão. Alguns entrevistados chegam a estimar a presença de, aproximadamente, seis mil brasileiros nos garimpos do país vizinho.67 O termo trânsito deve ser tomado, literalmente, nes-se contexto, uma vez que, chegados, via de regra de ônibus, ao terminal rodoviário de Boa Vis-ta, os garimpeiros, imediatamente, se dirigem, também de ônibus, a Bonfim. Não permanecem em Bonfim, já que no pequeno terminal rodoviário da cidade os aguardam taxis e mini-vans, levando-os diretamente à ponte, já na cidade contígua de Lethem, na Guiana. Nesta última localidade, parte dos garimpeiros utilizam uma pequena – porém, mais ativa, em comparação a Bonfim – rede de hotéis e pensões, enquanto aguardam os vôos diários que saem do pequeno aeroporto. Em Lethem, é possível, também, obter passagens aéreas para Paramaribo, no Suri-name. Nesse sentido, a Guiana é, de fato, também uma passagem utilizada pelos garimpeiros brasileiros para chegar ao Suriname. (BO01, BO03)

Segundo os relatos de entrevistados, os garimpeiros também são levados por grupos que facilitam a entrada deles em barcos, por mar, até a Guiana, de onde se dirigem aos garimpos nos rios Potaro e Mazaruni. Pode-se supor, dado o alto custo do transporte, que a garimpagem opera, na maioria das vezes, por recrutamento (voltaremos a esse ponto adiante). Os atores estratégicos não sabem precisar a localização dos garimpos. (BO01, BO03).

No que diz respeito aos outros trabalhadores, ainda de acordo com a Prefeitura Municipal de Bonfim (BO01), os brasileiros que trabalham em Lethem nas lojas do comércio são explora-dos, submetendo-se, muitas vezes, a jornadas exaustivas de 14 horas diárias.

Em relação a situações de violações de direito, o tráfico de pessoas e a exploração sexual de adolescentes são as mais preocupantes. De acordo com a Prefeitura Municipal de Bonfim (BO01), Conselho Tutelar (BO03) e Secretaria Municipal de Educação (BO06), as adolescen-tes do sexo feminino da cidade vão para a Guiana para trocarem sexo por dinheiro e drogas.

67 Deve-se observar que a garimpagem semi-mecanizada, implementada pela iniciativa privada, é legalizada na Guiana, onde ocor-re a extração de ouro e diamantes. (Pocor-refeitura de Bonfim BO01, Conselho Tutelar BO03).

Em Lethem, há casas de diversão noturna e, por isso, as jovens se dirigem para lá nos finais de semana, diferentemente de Bonfim que não possui alguma.

O Conselho Tutelar de Bonfim (BO03) relatou um caso (possivelmente em 2012 ou 2013; o interlocutor não conseguiu precisar a data) no qual uma adolescente denunciava a mãe e o padrasto de aliciamento, transporte e exploração de adolescentes do sexo feminino e mulheres brasileiras nas regiões garimpeiras na Guiana. As vítimas eram, na maioria das ve-zes, originárias de Manaus e de Boa Vista. O Conselho Tutelar levou o caso para o Ministério Público Federal, mas o processo foi remetido à Polícia Civil. Por precaução, o delegado da Polícia Civil de Bonfim pediu ajuda ao Conselho Tutelar, já que havia risco à segurança da adolescente, pois o padrasto era conhecido na cidade. A adolescente foi enviada para Boa Vis-ta aos cuidados da SecreVis-taria EsVis-tadual do Trabalho e Bem EsVis-tar Social e depois não foi mais localizada.

Segundo os entrevistados, eles acreditam que haja tráfico de pessoas, principalmente de mulheres e de adolescentes do sexo feminino, com fins de exploração sexual nas áreas de ga-rimpo. Bonfim seria um local de passagem para estas pessoas e não o destino final, tampouco o de origem, que, neste caso, aponta Boa Vista como origem. (BO01, BO03, BO06)

A Prefeitura Municipal de Bonfim (BO01), Conselho Tutelar (BO03), CRAS (BO04) e Secretaria Municipal de Educação (BO06) relataram ainda, o uso abusivo de drogas por crianças e adolescentes indígenas (8 a 12 anos), que, para financiar o vício de entorpecentes, são aliciados como “aviãozinhos” para a venda de drogas nas escolas de Bonfim. E, no verão, quando o rio seca e pode ser atravessado a pé, adolescentes brasileiros são usados como mulas pela rede de tráfico de drogas.

Já no que diz respeito a mobilidade/migração de Lethem para Bonfim, os atores estraté-gicos informaram que os guianenses atravessam a fronteira para utilizar os serviços de atenção básica da saúde em Bonfim. Muitos guianenses moram em Bonfim, onde há disponibilidade de terrenos a serem ocupados, assim eles registram o terreno para obter a cidadania brasileira e ter acesso a benefícios governamentais, principalmente ao bolsa família. Como toda cidade gêmea, a interação familiar é bastante intensa devido aos casamentos entre pessoas dos dois países, uso do comércio e serviços públicos, principalmente do lado brasileiro.

Na área da saúde, as mulheres guianenses vêm ao Brasil para o nascimento de seus filhos. (BO01). Há mais guianenses em Bonfim do que brasileiros em Lethen, e , segundo Pe-reira (2006), 70% dos moradores do município de Bonfim é de origem guianense. A Prefeitura Municipal de Bonfim (BO01) relatou que acredita que a maioria (não soube precisar) de seus moradores sejam guianenses e que falam inglês.

Quanto ao itinerário Lethem – Boa Vista, a Prefeitura Municipal de Bonfim (BO01) re-latou que os guianenses que migram para Boa Vista em busca de melhores condições de vida

moram em invasões ou em comunidades carentes. Essa informação é corroborada por Santos (2014) ao relatar que os guianenses se dirigem a Boa Vista em busca de serviços públicos de saúde e de educação. De acordo com Rost (2008), as mulheres da Guiana migram para Boa Vista para trabalhar em serviços domésticos e/ou de baixa qualificação exigida (ex.: empre-gadas domésticas, babás, ambulantes, diaristas e catadoras de lixo). Corroborando com esse dado, Santos (2014) relatou que os migrantes guianenses se direcionam a Boa Vista em busca de empregos cuja qualificação educacional exigida é baixa, considerando que não possuem elevado grau educacional.

De acordo com a Prefeitura Municipal de Bonfim (BO01), essa migração não aparenta ser organizada por algum grupo, pois não há exploração laboral ou sexual dos referidos mi-grantes guianenses.