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3 LETRAMENTO DIGITAL

3.1 LETRAMENTO DIGITAL E CONTEXTO SOCIAL

Com as TDICs, foram criadas novas formas de relações, fazendo surgir novos formatos de socialização. Sobre esses novos formatos pode-se afirmar que:

[...] nas sociedades tradicionais, e mesmo nas cidades modernas da era industrial, as relações sociais estavam circunscritas basicamente ao espaço e ao tempo imediato. A maioria dessas relações eram pessoais e aconteciam no seio de pequenas comunidades: família, a vizinhança, o povoado onde se residia. A socialização, a entrada em um âmbito cultural, a apropriação dos significados da própria cultura, ocorria a partir da relação entre esses sistemas. Em contraposição a isso, a proliferação atual das TIC está configurando novas estruturas sociais e formas de organização nas quais os limites espaço-temporais tradicionais são colocados em xeque (LALUEZA, CRESPO, CAMPS, 2010, p. 58).

Na pós-modernidade, tem-se tanto a leitura quanto a escrita praticadas na internet de modo distinto do tradicional. Na escrita, as atividades realizadas dentro da rede podem os usuários a uma produção textual colaborativa. A exemplo disso, tem-se as fanfictions5 e a plataforma google docs6. Essas plataformas permitem a construção de textos por autores diversos, um processo de produção de textos mediado pelas novas tecnologias.

Na leitura, com o surgimento da internet, tornou-se possível atingir um grande número de leitores em um curto tempo, um único texto pode ser lido por milhares de pessoas, não, necessariamente, conhecidas. Lalueza, Crespo e Camps (2010) colocam que a sociedade está diante de uma nova ferramenta desenvolvida com base em uma antiga: a escrita. Dessa forma, as novas práticas sociais inseridas nesse contexto consideram o desenvolvimento de habilidades distintas para a leitura e a escrita.

Ainda sobre a linguagem, pode-se considerar que suas formas de manifestação implicam processos antagônicos e relações de dominação e de resistência, e o seu uso são formas exercidas pelas classes dominantes para sobrepor seus discursos (BAKHTIN, 2006), sendo a relação entre contexto social, letramento e poder essencial,

5 Fanfictions podem ser consideradas um gênero textual que permite a publicação de textos, por meio

do endereço http://www.fanfiction.net/. Uma história escrita por fãs, a partir e um livro, quadrinhos, animê, filme ou série de tv. Essa forma de produção textual foi estudada por AZZARI, CUSTODIO (2013).

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Google Docs é uma plataforma que permite criar e editar documentos de texto na web, além de permitir o compartilhamento da autoria com outros usuários.

visto que pesquisadores contemporâneos perceberam que as práticas letradas estão diretamente ligadas a estruturas culturais e de poder de uma sociedade, de acordo com Street (2014). O autor enfatiza também o fato de que a escrita tem um alto potencial de interação social, cujo contexto cultural é um forte influenciador no modo de comunicação e escrita.

A linguagem, dessa maneira, não é utilizada apenas para transmitir informações, mas também:

[...] as pessoas falam para serem ouvidas, às vezes para serem respeitadas e também para exercer uma influência no ambiente em que realizam os atos linguísticos. O poder da palavra é o poder de mobilizar a autoridade acumulada pelo falante e concentrá-la num ato linguístico (GNERRE, 1991, p. 5).

Percebe-se, claramente, essa relação de poder presente em discursos como o político e o religioso em que, dependendo do contexto social e cultural, transmite um valor diferenciado, fazendo sentido para os participantes daquele círculo. As relações de poder estão embutidas em práticas letradas, mas é necessário afastar-se da visão dominante de letramento que o liga diretamente à escolarização. Além disso, “também requer um abandono da caracterização da pessoa letrada como intrinsicamente civilizada, desapegada, lógica etc., em contraste com as iletradas ou as que se comunicam principalmente por canais orais” (STREET, 2014, p. 140).

Essa visão do letramento funcionalmente necessário para o desenvolvimento social acaba por mascarar e naturalizar esse papel para o letramento na sociedade contemporânea. Street (2014) afirma:

O letramento pedagogizado que temos discutido se torna, então, um conceito organizador em torno do qual se definem ideias de identidade e valor social; os tipos de identidade coletiva a que aderimos e o tipo de nação a que queremos pertencer ficam encapsulados em discursos aparentemente desinteressados sobre a função, o propósito e a necessidade educacional desse tipo de letramento. O letramento, nesse sentido, se torna uma chave simbólica para vários dos problemas mais graves da sociedade: questões de identidade étnica, conflito, sucesso (ou fracasso) podem ser desviadas na forma de explicações sobre como a aquisição do letramento pode ser aperfeiçoada e como distribuição do letramento pode ser ampliada; problemas de pobreza e desemprego podem ser transformados em questões sobre por que os indivíduos fracassam na aprendizagem do letramento na escola, ou continuam, quando adultos, a recusar atenção reparadora, desviando assim a culpa das instituições para os indivíduos, das estruturas de poder para a moral da pessoa (STREET, 2014, p. 141).

O letramento deve ser decodificado, dessa maneira, não apenas em torno da educação, mas em termos de discursos culturais e nacionalistas. Não se afirma aqui que dentro dessa hegemonia social haja alguma cultura utilizada como modelo, ou alguma

marginalizada. O discurso de necessidade de avanço tecnológico pode, por vezes, esconder o letramento específico desejável para aquela situação, visto que a construção do letramento pode servir para naturalizar sua posição ideológica particular. Street (2014) coloca que essa posição ideológica vai aparecer como um fato consumado da vida moderna, uma necessidade pela qual somos todos conduzidos.

3.2 LETRAMENTO DIGITAL E DESENVOLVIMENTO CRÍTICO DO INDIVÍDUO