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Tendo sido justificada a utilização do termo letramento digital como o conceito com o qual trabalharemos nesta pesquisa, ainda é necessário compreender melhor os limites e especificidades que circunstanciam essa categoria teórica. De acordo com Soares (2002, p.151, grifo do autor), este seria definido como “um certo estado ou condição que adquirem os que se apropriam da nova tecnologia digital e exercem práticas de leitura e de escrita na tela, diferente do estado ou condição – do letramento – dos que exercem práticas de leitura e escrita no papel”. Ao analisarmos mais detidamente essa proposta conceitual, percebemos que dois elementos diferenciam o letramento do letramento digital: a apropriação da nova tecnologia digital, o que nos remete à discussão feita anteriormente sobre o papel estruturante e estruturado da tecnologia nas sociedades e a leitura e escrita na tela.

Assim, estamos compreendendo que na perspectiva dessa autora, as demandas geradas pelo desenvolvimento das tecnologias digitais de informação e comunicação nos colocaram diante de um novo contexto de realização de eventos de letramento. Esses passam a requerer dos sujeitos novas habilidades e apropriações próprias da natureza e da relação que estabelecem com o contexto digital no que tange às práticas de leitura e escrita. No entanto, embora possamos vislumbrar a presença desses dois elementos na reconstrução do conceito de letramento adequado às demandas da cultura digital, ainda percebemos uma das fragilidades apontadas anteriormente, a noção estática, não contínua e fechada do estado ou condição. Assim como postulamos para o letramento, em um contexto independente das práticas da cultura digital, também nesse contexto entendemos essa noção como dinâmica, ininterrupta, aberta, fluida e processual.

Nesse sentido, a formulação de um conceito consensual do que vem a ser o letramento digital e como é constituído não está consolidada entre os estudiosos da área. De acordo com Buzato (2007) que problematiza esse conceito em seu texto Entre a fronteira e a periferia: linguagem e letramento na inclusão digital, precisamos

construir a percepção de um processo também plural como tratamos anteriormente com os letramentos. Falamos, então, de letramento(s) digital(is), o que abarca uma série de circunstâncias distintas as quais requerem habilidades e apropriações também diversas. O autor define letramento(s) digital(is) como sendo “redes complexas de letramentos (práticas sociais) que se apoiam, se entrelaçam, se contestam e se modificam mútua e continuamente por meio, em virtude e/ou por influência das TIC” (BUZATO, 2007, p. 168).

Observemos que temos nessa segunda definição uma densidade maior na qual se reconhece a inter-relação de codeterminação entre as práticas sociais de letramento e as tecnologias da informação e da comunicação nos termos em que discute Castells (1999). O(s) letramento(s) digital(is) são caracterizados inicialmente como redes complexas, logo não há uma determinação unilateral, posto que a complexidade advém justamente do fato de reconhecer que as práticas sociais de leitura e escrita estruturam e são estruturadas por, em virtude /ou por influência das tecnologias. Para além disso, Buzato (2007) também destaca em sua formulação conceitual o fato de que estamos diante de um processo e não de um produto, no qual os elementos que o constituem se apoiam, se entrelaçam e se contestam constantemente.

Nessa lógica, Buzato (2009, p. 22), em seu texto Letramento e inclusão: do estado-nação à era das TIC, redefine o conceito de letramento(s) digital(is) apresentando-o como “redes complexas e heterogêneas que conectam letramentos (práticas sociais), textos, sujeitos, meios e habilidades que se agenciam, entrelaçam, contestam e modificam mútua e continuamente, por meio, virtude e influência das TIC”. Notemos que outras dimensões ganham relevo nessa nova proposição dentre as quais podemos observar o foco na heterogeneidade constitutiva dos letramentos, bem como a ampliação dos seus elementos constitutivos entre os quais vemos figurar também textos, sujeitos, meios e habilidades agenciadas e em constante modificação.

O contraste entre as três formulações discutidas até aqui sobre o conceito de letramento(s) digital(is) nos faz perceber que não se trata apenas de uma transposição do conceito da área da linguagem para o ambiente digital. Temos, para além disso, outras relações que precisam ser consideradas e discutidas como tensionadoras dessa noção. Estamos tratando de uma série de letramentos, que

envolvem práticas sociais, históricas e discursivas situadas no contexto digital, marcado pela inserção das tecnologias digitais de informação e comunicação que, por sua vez, requerem dos sujeitos habilidades que extrapolam aquelas necessárias ao letramento apenas e se reconfiguram tanto no campo técnico, como social e semiótico. Assim, diante da complexidade dessa formulação e da dificuldade de construir um conceito fechado e inquestionável para os letramentos digitais, concordamos com Saito e Souza (2011) quanto estes propõem uma reconstrução do conceito entendendo-o como:

Uma rede de múltiplos letramentos, entendidos como práticas sociodiscursivas do ambiente digital, mediadas pelas TICs – em suas dimensões técnicas, sociais e hipersemióticas –, ideologicamente marcadas por contextos específicos e agenciadas por sujeitos e instituições posicionados sociohistoricamente na Sociedade Informacional. (SAITO; SOUZA, 2011, p. 136)

Essa é a nossa opção para discutir letramento digital por compreendermos tal conceito como complexo e densamente constituído por vários elementos que residem na intersecção entre o letramento, do ponto de vista da linguagem, e o digital. Entendemos, em conformidade com as postulações de Selber (2004) que a noção de letramento digital está composta por pelo menos três aspectos:o funcional, que entende os aparelhos tecnológicos como ferramentas e os sujeitos como usuários que o fazem de forma eficiente; o crítico, que compreende os aparelhos tecnológicos como artefatos culturais e os sujeitos como questionadores informados da tecnologia; e o retórico, que possui um caráter metalinguístico e compreende os aparelhos tecnológicos como mídia hipertextual e os sujeitos como produtores reflexivos da tecnologia. Nessa compreensão conseguimos perceber a dimensão da densidade inerente ao conceito de letramento digital e tratá-lo não mais de forma simplificada como uma transposição conceitual letramento/letramento digital, mas associada com a natureza crítica e produtiva das TIC, para além de técnica, pois como sugere Ribeiro (2009):

O letramento digital está dentro do continuum do letramento mais amplo, não linearmente, mas a rede de possibilidades que se entrecruzam. [...] O importante é compreender que a relação entre os dispositivos para a comunicação foi recentemente reconfigurada. Consequentemente, as possibilidades e as exigências do letramento também o foram. (RIBEIRO, 2009, p. 36)

Dessa forma, embora tenhamos optado por essa concepção de letramento digital, conforme nos sinalizam Souza, Marques e Cruz (2013) no texto Letramento digital: levantamento de pesquisas em bases de dados brasileiras, “estamos longe de um consenso em relação aos termos atribuídos para designá-lo, assim como aos conhecimentos e práticas sociais que envolvem o uso e a interação com mídias e TIC na atualidade”. No entanto, alguns encontros e concordâncias são possíveis, dentre os quais destacamos a sua compreensão enquanto fenômeno que permeia a técnica, as práticas sociohistóricas e culturais e os aspectos semióticos de composição, conforme a concepção aqui adotada. Nessa perspectiva, consideramos pertinente também, depois de exposto o nosso conceito de letramento digital, compreender melhor outra categoria conceitual que está no seu cerne, o hipertexto, uma vez que segundo Martins Silva (2011, p. 32) o contexto da cultura digital também faz com que leitores e autores assumam “novos contratos comunicativos, praticando a leitura e a escrita de modo multissequencial, [...] clicando nos links que abrem novas possibilidades de leitura, [...] além de uma infinidade de situações que redimensionam o ler e o escrever no ciberespaço”.

2.4 HIPERTEXTO: OUTRAS LÓGICAS PARA AS PRÁTICAS DE LEITURA E