2.1 GÊNERO DO DISCURSO ARGUMENTATIVO
2.1.2 LETRAMENTO
Segundo Kleiman (1989a, apud Rojo, 2009, p. 97), o conceito de letramento surgiu numa tentativa de separar os estudos sobre o impacto social da escrita dos estudos sobre alfabetização. A alfabetização teria seu foco no indivíduo, em suas capacidades e competências escolares de leitura e escrita. O letramento, por outro lado, busca estudar os usos que fazemos da escrita nas situações de interação social nas quais estamos envolvidos diariamente. Independentemente, se essas circunstâncias são de instâncias sociais valorizadas socialmente ou locais, isto é, se restringem a grupos específicos, principalmente grupos que não são prestigiados socialmente.
Rojo (2009, p.10) define letramento como “conjunto muito diversificado de práticas sociais situadas que envolvem sistemas de signos, como a escrita ou outras modalidades de linguagem para gerar sentidos”. Logo, o estudo do letramento engloba o exame de práticas que estão relacionadas diretamente com o uso da linguagem. Considerando isso, podemos afirmar que o ensino dos gêneros, por refletirem por meio da linguagem esferas de atividades humanas diversas, pode ser considerado uma prática de letramento, visto que se situam em esferas sociais específicas, com objetivos comunicacionais distintos. Isto é, os gêneros também são práticas sociais situadas, pois cada esfera tem seus gêneros ajustados às suas especificidades.
Como dito, o ensino dos gêneros é positivo quando temos como objetivo um ensino crítico e reflexivo, um ensino que se importe em oferecer aos alunos insumos teóricos sobre as diferentes práticas sociais ligadas ao uso da linguagem. Como afirma Bakhtin (1997), os enunciados são “espelhos” das esferas sociais e refletem mesmo as pequenas mudanças ocorridas.
Compreendemos que os gêneros são vistos como representação das ações sociais, de saberes culturalmente valorizados e, portanto, podem ser considerados práticas sociais de letramento, enunciados. Roxane Rojo (2009) discute, em seus estudos, a concepção de práticas de letramento valorizadas e não valorizadas, ou seja, gêneros que têm sua prática de aprendizagem valorizada socialmente na escola, em contraposição a gêneros marginalizados.
Ou seja, o mundo exige um aluno que perceba que cada texto, em sua composição, em seus aspectos linguísticos, é organizado segundo sua função social e seus propósitos específicos. Esses textos, valorizados socialmente ou não, situados na escola ou vindos de outras instâncias sociais, constituem-se como práticas de letramento que têm como objetivo, a
um texto.
Conforme apontado por Rojo (2009, p. 11) “um dos objetivos da escola é possibilitar que os alunos participem das várias práticas sociais que se utilizam da leitura e da escrita na vida da cidade, de maneira ética, crítica e democrática”. Se esse não é o objetivo encontrado nas escolas, pelo menos deveria ser. Pensando nisso, nosso propósito com o estudo foi propor aos alunos a reflexão de um assunto que deveria ser debatido em todas as esferas sociais e que, inclusive, voltou à discussão nas pautas políticas e sociais - a maioridade penal - dada a sua relevância. E esse debate, como será visto, foi desenvolvido por meio do aprendizado da escrita de um artigo de opinião.
Cabe ressaltar que, por trabalharmos com a concepção de escrita como processo, a produção de texto envolveu várias etapas o que proporcionou atividades diversas, como o debate entre os alunos, o que evidencia nossa preocupação com um ensino que potencialize uma leitura cidadã e letrada. Apesar de a escola se propor a um ensino normativo, nos comprometemos com uma prática social que estivesse preocupada em fomentar uma leitura de mundo e não apenas com o cumprimento de uma atividade de escrita.
Os estudos atuais do letramento, segundo Rojo (2009), têm se envolvido com o estudo de letramentos locais ou vernaculares. Sabemos da importância desse foco; contudo, acreditamos que ensinar criticamente os gêneros prestigiados, que circulam em esferas dominantes, também é importante. E esse ensino é feito primeiramente pela leitura de mundo, pela compreensão das circunstâncias sociais às quais estamos atrelados fortuitamente. Não é um ensino de como se acomodar, mas de como se inserir, para se tornar protagonista.
A escola, por ser uma agência oficial de letramento, deve se propor a um projeto que contemple vários tipos de letramento, não apenas os prestigiados, como o que está relacionado às práticas sociais que considerem o artigo de opinião, mas também aquelas que considerem os gêneros oriundos das comunidades nas quais os alunos estão inseridos cotidianamente. Entre esses letramentos, podemos citar os multiletramentos, não ignorando, como dito, os letramentos locais; os letramentos multissemióticos que não trabalham apenas como texto verbal, mas com textos não verbais e digitais; e os letramentos críticos e protagonistas, isto é, um letramento imprescindível para o trato ético dos discursos.
Moita-Lopes e Rojo afirmam que isso é importante, pois
o fato de que a linguagem não ocorre no vácuo social e que, portanto, textos orais e escritos não têm sentido em si mesmos, mas interlocutores (escritores e leitores, por exemplo) situados no mundo social com seus valores, projetos políticos, histórias e
desejos constroem seus significados para agir na vida social. Os significados são contextualizados. Essa compreensão é extremamente importante no mundo altamente semiotizado da globalização, uma vez que possibilita situar os discursos a que somos expostos e recuperar sua situacionalidade social ou seu contexto de produção e interpretação: quem escreveu, com que propósito, onde foi publicado, quando, quem era o interlocutor projetado etc. Tal teorização tem uma implicação prática, porque possibilita trabalhar em sala de aula com uma visão de linguagem que fornece artifícios para os alunos aprenderem, na prática escolar, a fazer escolhas éticas entre os discursos em que circulam. Isso possibilita aprender a problematizar o discurso hegemônico da globalização e os significados antiéticos que desrespeitam a diferença (2004, p. 37-38, apud Rojo, 2009, p. 108).
Em vista disso, a escola precisa se preparar para receber os novos textos oriundos de novas necessidades interacionais, assim como os textos prestigiados por instância sociais que, mais cedo ou mais tarde, possam fazer parte do mundo de seus alunos. E nosso objetivo com esta pesquisa, foi possibilitar aos alunos a participação em debate de temas polêmicos e, posteriormente, na escrita foi instrumentalizar os alunos envolvidos na pesquisa no debate de temas polêmicos e posteriormente na escrita do artigo de opinião, texto argumentativo que geralmente veicula assuntos relevantes socialmente, isto é, um assunto cuja discussão concerne a todas as pessoas. E discussão no sentido dialógico, isto é, de aprender com o outro, ouvindo e falando, reformulando. Ou seja, tendo atitude responsiva.