2 DA CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO À APROPRIAÇÃO DAS
2.3 PRECEITOS FORMATIVOS DA PRÁTICA DOCENTE NA CULTURA DIGITAL35
2.3.3 Letramento, letramento digital e multiletramentos
O letramento se configura como “estado ou condição de quem não apenas sabe ler e escrever, mas cultiva e exerce as práticas sociais de leitura e escrita”
(SOARES, 2009, p. 47). O ser letrado é aquele que possui letramento, ou seja, a capacidade de interagir através da linguagem em suas mais variadas esferas da comunicação. E para se adquirir o letramento é necessário desenvolver competências específicas.
Essas competências que constituem o letramento envolvem diversos tipos e níveis de habilidades e conhecimentos que podem ser aplicados a diferentes suportes e são trazidas pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC, 2018) ao orientar que os docentes devem “proporcionar aos estudantes experiências que contribuam para a ampliação dos letramentos, de forma a possibilitar a participação significativa e crítica nas diversas práticas sociais permeadas/constituídas pela oralidade, pela escrita e por outras linguagens” (BNCC, 2018, p.68).
Dentre as dez competências gerais apresentadas no documento, duas delas tratam das que envolvem o letramento, sendo também contempladas em duas dentre as seis relacionadas ao componente da área da linguagem.
3- Utilizar diferentes linguagens – verbal (oral ou visual-motora, como Libras, e escrita), corporal, visual, sonora e digital –, bem como conhecimentos das linguagens artística, matemática e científica, para se expressar e partilhar informações, experiências, ideias e sentimentos em diferentes contextos e produzir sentidos que levem ao entendimento mútuo.
6- Compreender, utilizar e criar tecnologias digitais de informação e comunicação de forma crítica, significativa, reflexiva e ética nas diversas práticas sociais (incluindo as escolares) para se comunicar, acessar e disseminar informações, produzir conhecimentos, resolver problemas e exercer protagonismo e autoria na vida pessoal e coletiva (BNCC, 2018, p.
65)
Desse modo, percebe-se que não há limites para o letramento, pois a necessidade de interação linguística varia de indivíduo para indivíduo de acordo com sua relação com o meio em que vive. Ao pensarmos o letramento no aspecto pessoal do indivíduo, veremos que existem o que se chama de graus de letramento. Conforme Ribeiro (2009) explica:
Pessoas que leem Camões e escrevem teses têm um grau de letramento diferente das pessoas que escrevem um bilhete por ano e lê em apenas os rótulos das latas no supermercado. Todos esses graus são importantes, a diferença é que graus mais elevados podem ampliar as possibilidades de atuação das pessoas e das comunidades. (RIBEIRO, 2009, p. 19)
Entretanto, o letramento também pode ser visto no seu aspecto social, o que as pessoas fazem, sua prática em contexto. Nesse sentido, percebe-se que não há apenas um letramento e sim, letramento(s), pois, estão num contexto cultural específico, com tecnologias específicas para fins próprios. “Letramento, ou mais precisamente os letramentos, são práticas sociais e culturais que têm sentidos específicos e finalidades específicas dentro de um grupo social, […] e por isso são diferentes em diferentes contextos socioculturais. (BUZATO, 2006, p. 5) como: o letramento alfabético, o letramento científico, o letramento corporal, e, entre tantos outros; o digital.
Letramento digital (LD), conceituado por Xavier (2011), está no domínio das funções e ações necessárias à utilização da tecnologia digital, “e novas práticas lecto- escritas e interacionais efetuadas em ambiente digital” (XAVIER, 2011, p. 6). São novos modos de leitura e escrita em ambiente digital, é a intensa prática de
comunicação mediada por aparatos tecnológicos. Nessa perspectiva, ligar o computador, acessar sites, buscar informações nas plataformas, produzir conteúdos com linguagem verbal e não verbal, digital hipertextos, etc. fazem parte das competências e habilidades de um letrado digital.
Assim, percebe-se o letramento digital no seu aspecto de técnica para ler e escrever, comunicar-se através do suporte midiático em tela. Porém, não se pode considerar o letrado digital como sendo um superconhecedor de computadores. Num sentido mais amplo, deve-se pensar o letramento digital por uma visão mais crítica que vai além desse uso. Como bem nos lembra Lévy (1999), o LD é o conjunto de técnicas materiais e intelectuais, de práticas, de atitudes, de modo de pensamento e de valores que se desenvolvem juntamente com o ciberespaço, criam condições para o desenvolvimento das pessoas e das sociedades (LÉVY, 1999, p. 17)
Constituindo assim, outras habilidades de manuseio, leitura e escrita, como saber localizar, recuperar informações, ser capaz de avaliar e usar informação de maneira crítica para que se torne conhecimento.
As habilidades requeridas pelo LD (letramento digital) também são tratadas na BNCC (2018) na seção Linguagens e suas tecnologias referindo à competência específica 7 apresentadas no Quadro 1:
QUADRO 1 – HABILIDADES PARA O LETRAMENTO DIGITAL BNCC 2018 - SEÇÃO LINGUAGENS
E SUAS TECNOLOGIAS
(EM13LGG701) Explorar tecnologias digitais da informação e comunicação (TDIC), compreendendo seus princípios e funcionalidades, e utilizá-las de modo ético, criativo, responsável e adequado a práticas de linguagem em diferentes contextos.
(EM13LGG702) Avaliar o impacto das tecnologias digitais da informação e comunicação (TDIC) na formação do sujeito e em suas práticas sociais, para fazer uso crítico dessa mídia em práticas de seleção, compreensão e produção de discursos em ambiente digital.
(EM13LGG703) Utilizar diferentes linguagens, mídias e ferramentas digitais em processos de produção coletiva, colaborativa e projetos autorais em ambientes digitais.
(EM13LGG704) Apropriar-se criticamente de processos de pesquisa e busca de informação, por meio de ferramentas e dos novos formatos de produção e distribuição do conhecimento na cultura de rede
Fonte: BNCC, 2018, p. 497
Portanto, o letramento digital é entender e participar da cultura digital criticamente e criativamente no seu tempo social. No tocante à Educação, sinaliza aos docentes que as práticas contemporâneas de linguagem permeiam a cultura digital,
os novos letramentos (nesse caso o digital) e os multiletramentos. Entendendo, assim, o letramento digital segundo Souza (2007) que é definido como:
conjunto de competências necessárias para que um indivíduo entenda e use a informação de maneira crítica e estratégica, em formatos múltiplos, vinda de variadas fontes e apresentada por meio do computador, de maneira crítica e estratégica, sendo capaz de atingir seus objetivos, muitas vezes compartilhados social e culturalmente. (SOUZA, 2007, p. 60)
Nesse contexto do avanço das TIC para as TD, o acesso à informação tomou proporções gigantescas. Tudo está disponível a um clic da palma da mão. Mas informação não é conhecimento. O conhecimento vai além de reter informações, é usar-se delas para entender ou descobrir e criar o novo. Nesse sentido, adquirir letramento digital é formar-se para o mundo, além de ser uma necessidade educacional e social. Por isso, a formação do professor para o seu letramento é importante, para que haja a mediação entre informação e conhecimento, portanto, “o professor precisa estar letrado além de cientificamente, também midiática e digitalmente, ou seja, ter as alfabetizações necessárias ao nosso século e ao desenvolvimento tecnológico pelo qual passamos” (CAMAS; BRITO, 2017, p. 321).
Na perspectiva dos letramentos, a mudança da prática pedagógica, descaracterizando o papel do professor como detentor do saber e caracterizando as aprendizagens num ambiente colaborativo e participativo, torna o ensino autônomo.
A inserção das TD revoluciona a educação somente com esse agir docente, compreendendo assim que a maior agência de promoção do letramento é a Escola.
Mas, a escola, ainda hoje, não vive uma mudança de paradigmas em sua prática letrada, há incongruências dos que ainda apontam as tecnologias e o letramento digital somente com visões restritivas e de aparelhamento do ambiente. E ainda se percebe práticas de letramento, vivenciadas na atualidade, não sendo contempladas nos currículos. Contudo, se as práticas sociais de letramento não podem ser dissociadas do seu contexto, é ingênuo pensar que o letramento se dá apenas na esfera da língua formal escrita.
A mídia digital abriu um leque de possibilidades não vistas antes. O Ciberespaço, conceituado por Lévy (1999), como “novo meio de comunicação que surge da interconexão mundial dos computadores [...] o universo oceânico de
informações que ela abriga, assim como os seres humanos que navegam e alimentam esse universo”, rompeu fronteiras e conectou a todos mudando as dimensões de espaço-tempo. Nele a multiplicidade de textos emergiu, bem como novas formas cognitivas de uso da linguagem. A leitura não linear, o hibridismo de códigos verbais e não verbais, a complexidade do hipertexto, o mix de língua formal e informal, as remixagens, a linguagem visual, tudo, gerando as novas semioses, possibilitam o entendimento de uma conexão linguística plural de leitura e escrita.
É percebendo que essas práticas são múltiplas que surge a perspectiva dos multiletramentos:
Os Multiletramentos se encaixam como uma possibilidade de um caminho pedagógico para lidar com essas transformações por ter suas bases nas interpretações múltiplas, no hibridismo, na heterogeneidade e na construção do conhecimento a partir dos contextos e da subjetividade. (ALVES, 2018, p.
22)
E o termo multiletramento surge justamente trazendo uma pedagogia, um olhar o pluralismo híbrido de letramentos nos quais estamos rodeados na sociedade imersa numa cultura digital. Rojo (2013) as define:
Multiletramentos são as práticas de trato com os textos multimodais ou multissemióticos contemporâneos – majoritariamente digitais, mas também impressos –, que incluem procedimentos (como gestos para ler, por exemplo) e capacidades de leitura e produção que vão muito além da compreensão e produção de textos escritos, pois incorporam a leitura e (re)produção de imagens e fotos, diagramas, gráficos e infográficos, vídeos, áudios etc.
(ROJO, 2013, p. 21).
Baseados nessas noções, a prática pedagógica do professor deve caminhar rumo às práticas multiletradas, numa aprendizagem colaborativa para a construção de conhecimento, “as quais partem da simples potencialidade de leitura e imersão em múltiplas textualidades para uma potencialidade de que todo interlocutor torna-se um potencial construtor-colaborador de criações conjugadas” (FOFONCA, 2015, p.
38.326).
Pelas definições apresentadas, conceitua-se neste trabalho o letramento digital como sendo a competência e a capacidade de lidar com a linguagem de
maneira crítica e autônoma em ambiência virtual, e o aprimoramento do letramento digital do professor como sendo fator primordial para uma efetiva mudança na prática pedagógica e transformação do ensino com as tecnologias.
De modo a podermos responder a questão desta pesquisa, que gira em torno do que a experiência dos docentes da EJA, com o dispositivo digital Luz do Saber, pode revelar na apropriação das tecnologias pelo Ciclo de Aquisição do Conhecimento, abriremos a próxima seção no aprofundamento do dispositivo digital LDS.