Literacy in Second Language: the possession of the word
2. Letramento visual e multimodalidade na educação de surdos
Entre questões substantivas relativas à surdez, destaca-se o letramento visual como proposta metodológica a se coadunar com a língua de sinais, por esta se realizar no campo espaço-visual de seus usuários. A utilização de imagens na educação de surdos embora seja consenso, ainda prescinde de ultrapassar a imagem enquanto recurso ilustrativo.
Apesar do texto imagético ter ganhado o mundo, principalmente após o advento das tecnologias midiáticas, sua entrada dentro da sala de aula com fins pedagógicos ainda é muito tímida. À primeira vista, pode parecer que a imagem basta por si mesma, mas se assim fosse, poderíamos dizer que ser alfabetizado é suficiente para se compreender um texto escrito. No caso do surdo, em virtude da limitação do sentido auditivo, a apreensão da realidade se faz por intermédio do canal visual, sendo assim, é importante integrar o texto imagético às formas de letramento, contudo não significa dizer que o trabalho com a leitura de imagens não necessita de um construto teórico.
Conforme Street, as habilidades técnicas associadas à leitura e à escrita são imprescindíveis para o desenvolvimento pessoal, mas elas têm de estar associadas à “variedade de necessidades letradas na sociedade contemporânea” (2014, p.41). O modelo de letramento ideológico, segundo o autor, extrapola a decodificação das letras, alvo da alfabetização, para a inserção da escrita nas práticas sociais. É importante ressaltar “o processo de socialização na construção do significado do
letramento” (idem, p.44). Ou seja, comparando o alfabetismo verbal e o visual, podemos dizer que consideramos um sujeito alfabetizado quando ele consegue ler as letras, mas ele será considerado letrado quando conseguir imprimir sentido ao que lê. Nesse sentido, cabe ao docente explorar e mapear os diferentes significados advindos de gêneros discursivos diversos, com suas diferentes linguagens e modos semióticos distintos, não se restringindo à linguagem escrita, a fim de construir com seus alunos um processo de produção e recepção dos signos, num viés do letramento crítico.
Assim como se ensinam as letras, deve-se ensinar a leitura de imagens, por intermédio de estratégias inseridas em práticas sociais. Pouco a pouco, elas adentram o espaço escolar predominantemente logocêntrico. Com o advento das TICs, e com a tecnologia computacional a mão de qualquer cidadão que tenha um smartfone, as novas gerações tornaram-se digitais. Textos compostos por mais de um modo sobrepujaram a proeminência da linguagem escrita, demandando de seus leitores competência leitora diferente da que estavam acostumados até então. O foco do ensino no texto verbal desloca-se para o texto multissemiótico, em que diferentes semioses disputam o sentido ao lado das letras. Mesmo num texto escrito, como numa monografia, salientam-se recursos visuais como negrito, aspas e itálico. Num suporte como o jornal, por exemplo, temos desde recursos do tamanho e cores de letras e diagramação, até o uso de imagens. E, se considerarmos o contexto digital, o uso dos hiperlinks traça um caminho entre textos, extrapolando o texto linear tão característico dos bancos escolares.
Na sociedade contemporânea, cada vez mais, urge trabalhar com o aluno surdo um olhar crítico, fazendo emergir do texto não apenas significados denotativos, lineares, constantes em sua superfície, mas também as múltiplas vozes que permeiam as entrelinhas. De modo geral, muitos desses alunos ao chegarem ao ensino superior trazem uma bagagem diminuta de conhecimento de mundo, exigindo do professor não só o trabalho com a língua portuguesa, mas também com o contexto cultural, social e cognitivo.
Conforme Lemke (2010, p. 456), podemos dizer que “todo letramento é multimidiático, você nunca pode construir significado com a língua de forma isolada”. Ou seja, assim como a palavra, a imagem não pode ser lida de forma estática, mas no interior de um contexto, significando mais do que a “soma das partes”:
o que realmente precisamos ensinar, e compreender antes que possamos ensinar, é como vários letramentos e tradições culturais combinam estas modalidades semióticas diferentes para construir significados que são mais do que a soma do que cada parte poderia significar separadamente (idem, p. 462).
A grande inserção de imagens nos campos midiáticos acarretou uma mudança no olhar para o que se entendia até então como letramento, implicando numa ressignificação das práticas pedagógicas. No tocante à educação de surdos, uma abordagem multimodal e multissemiótica de ensino torna-se fundamental, uma vez que a comunicação se caracteriza pela forte conjugação de diferentes modos – gestual, visual, linguístico e espacial. Assim, como o texto deixa de ser visto como constituído apenas por palavras e passa a ser visto como um construto organizado por arranjos semióticos variados, cabe aos professores alinharem-se à perspectiva do letramento visual, motivando os alunos a lerem e produzirem textos provenientes de diferentes semioses.
Dentro do quadro teórico em tela, é fundamental trabalhar com os aprendizes a integração de todos os recursos existentes a fim de inferir sentido. As habilidades de leitura e escrita ampliam-se em direção a todo e qualquer recurso capaz de produzir significado. Kress (1998) chama atenção para o fato de que a imagem não é a mera tradução do texto escrito, mas, assim como as palavras, agrega novos sentidos, integrando linguagem verbal e não verbal.
No bojo dessa discussão, propusemos, em nossas turmas de primeiro período constituída por 20 graduandos surdos, uma atividade de produção de texto, baseada em uma campanha da Dove, Retratos da real beleza, na qual eles teriam de elaborar uma
escrita com base em textos autênticos e na linha do letramento visual em conformidade com a visualidade do surdo. Sendo assim, escolhemos o gênero textual campanha social, por entendermos, assim como Martin (1992), que gênero é um sistema estruturado em partes, com meios específicos para fins específicos, ou seja, é estruturado em estágios e realizado pelo registro. Estruturam-se em estágios, componentes relativamente estáveis, levando o usuário a um ponto de conclusão, podendo ser incompleto caso esse objetivo não seja atingido. Dessa forma, tem um caráter mutável, por ser um sistema aberto de acordo com cada atividade humana de comunicação.