• Nenhum resultado encontrado

2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

2.4 LETRAMENTOS: PLURISSIGNIFICAÇÃO DOS CONCEITOS E AS

CONCEPÇÕES DE ENSINO

O termo Letramento tem gerado inquietações no tocante à sua conceituação, dada a amplitude de seus aspectos, conforme é observado ao longo da discussão acerca do tema. Tal fator ocorre em grande parte pelo fato de novas modalidades e práticas sociais de leitura e escrita favoreceram a expansão do termo. Nesse contexto, podemos citar as tecnologias da comunicação eletrônica e a variedade cultural resultante de um mundo globalizado como pontos que reforçam a ideia de uma expansão para o conceito de letramento.

Street (2003), amplia a significação do termo ao pluralizá-lo (Letramentos). Essa pluralização, segundo o autor, ocorre em razão da variedade dessa prática a qual pode ocorrer de forma institucionalizada (em escolas, ambientes de trabalho,

igrejas, dentre outras agências que necessitam de atores igualmente reconhecidos socialmente – pastores, mestres, docentes e funcionários em geral) e não institucionalizada, quando acontecem em ambientes específicos ou marginais, tendo como agentes membros de comunidades não pouco valorizados socialmente (como são os casos de grupos de happer, grafite, dentre outros).

Essa nova visão traz ao cenário a pluralização do termo como uma forma de abranger os distintos aspectos que compõem as práticas de letramento(s). Desta forma, passa-se a incluir os elementos que exercem funções diversas através do uso da palavra na interação do indivíduo com o mundo, real ou virtual. Esses fatores podem ser de ordem sociais, cognitivas ou culturais. Assim, dentro desta perspectiva surge o termo letramentos que, nas palavras de Soares (2003) passa a dar ênfase aos estudos e concepções diversas daqueles que inserem também tecnologias em suas práticas de leitura e escrita.

Diante da concepção de Letramentos, surge uma outra ramificação do termo, bem mais amplo que o atual conceito, os multiletramentos. Para Rojo e Moura (2012, p. 13), os multiletramentos “são as associações existentes entre as multiplicidades culturais e multissemióticas da comunicação contemporânea”.

Toda essa discussão a respeito da pluralização do conceito de letramento, faz- nos concluir que a junção de diversos espaços, estruturas de produção, reprodução e propagação da informação resultam em diferentes modos de letramentos. Na pedagogia dos multiletramentos, o foco é que haja a abertura para incluir as atividades de leitura/escrita numa perspectiva crítica, analítica e que resulte na produção de texto multissemióticos e com ênfase na multiculturalidade.

Portanto, uma abordagem voltada para os multi (multiletramentos, multissemioses, multiculturalidade) deve apresentar unanimidade estrutural e flexibilidade para poder englobar todos as implicações inerentes. Dentre os pressupostos citados, destacaremos aqui a flexibilidade estrutural como necessária ao trabalho que vise à concepção multi. Somente a flexibilização possibilitará atrelar ao conhecimento (escolar – institucionalizado) a diversidade cultural e de linguagens, inclusive a tecnológica, a que o aluno está submetido cotidianamente.

Dentro dessa diversidade estão inseridos os letramentos não valorizados (populares, de massa e não institucionalizados) e os valorizados (escolares e escolarizados), e os usos das tecnologias da comunicação (gêneros midiáticos, multimodais e multissemióticos) denominados como novos letramentos. A conexão

dessas realidades favorecerá o desenvolvimento de letramentos críticos que, a nosso ver, é ponto fundamental para os Estudos de Letramento. São os letramentos críticos que resultarão na ressignificação e no redimensionamento dos focos de aprendizagem da língua que, consequentemente, resultarão em práticas efetivas de ensino e aprendizagem.

Assim, o termo “Multiletramentos” veio para expandir concepções até então vinculadas ao Letramento de modo a envolver os aspectos característicos da sociedade tecnológica digital. Essa globalização favorece a circulação de textos híbridos, formados por uma miscelânea de diferentes domínios-populares/eruditos, de diferentes letramentos, (vernaculares/dominantes). Essa hibridização, nas palavras de Rojo e Moura (2012), favoreceu a descentralização dos conhecimentos, possibilitando a desconstrução de dicotomias como: erudito/popular, central/marginal. A hibridização da comunicação favoreceu o surgimento do que nas palavras de García Canclini (2008, p. 302-309) pode ser denominado como desterritorialização, ou seja, não há um território exclusivo para que a interação comunicativa ocorra. Nesse processo, cada pessoa é produtor de suas próprias “coleções”. Estas vão sendo ampliadas, adaptadas e reorganizadas com base na vivencias e na interação como os outros e com outras formas de comunicação mediadas não apenas pela leitura e a escrita, mas também a partir delas.

Assim, partindo do pressuposto de que não há letramento e sim letramentos, Rojo (2009) afirma que:

O surgimento e a ampliação contínua de acesso às tecnologias digitais da comunicação e da informação (computadores pessoais, mas também celulares, tocadores de mp3, Tvs digitais, entre outras) implicaram pelo menos quatro mudanças que ganham importância na reflexão sobre os letramentos. (ROJO, 2009, p.105)

Dentre as mudanças está, a diversificação da informação, essa deu-se através dos meios de comunicação analógicos e digitais surtindo um efeito significativo na maneira de como os textos são lidos, produzidos e circulam na sociedade atual.

O segundo ponto que a autora destaca é diminuição das distâncias espaciais. Atrelada ao primeiro fator, essa diminuição ocorre porque não há mais fronteiras geográficas que impeçam a informação de circular. As mídias digitais e analógicas favorecem o transporte rápido das informações.

O que Rojo (2009) denomina diminuição temporal ou contração do tempo é a instantaneidade com que as informações são transportadas, os produtos culturais das mídias circulam em uma velocidade sem precedentes e isso influencia diretamente as práticas de letramento que exigem cada vez mais do indivíduo agilidade para lidar com essas ferramentas.

E por fim, o quarto e último ponto é a multissemiose ou a multitiplicidade de maneiras de significação do texto. O universo multimidiático e hipermidiático trouxe para o texto uma nova apresentação, a inserção e imagens (móveis ou não), de

recursos como música, interação verbal direta (comentários em

postagens),extrapolam os limites do antigo papel e já fazem parte do universo de boa parte da sociedade, assim, segundo a autora , a escola não pode omitir-se a essas mudanças, não apenas de conceitos, mas também de cultural que vem instaurando- se no processo comunicativo, Daí, a razão de se trabalhar com ênfase tanto nos multiletramentos quanto nos letramentos múltiplos.

2.5 DOS PROJETOS PEDAGÓGICOS AOS PROJETOS DE LETRAMENTO: NOVOS