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2. O poder de uma deusa

2.2 Levana

O mito de Levana é pouco conhecido atualmente. Pela grande variedade de

divindades da cultura greco-romana clássica, não é de se espantar que muitas tenham

caído no esquecimento da cultura ocidental contemporânea. Porém, se esquecer do

nome de um deus antigo não necessariamente pressupõe suplantar seus símbolos e

construções socioculturais, já que as ideias associadas a muitos dos mitos continuaram

presentes nos tempos modernos.

O advento da cultura escrita também é importante para que os mitos não se

percam na oralidade. Afinal, se a importância dos mitos é inegável, a grande

preocupação é de que a reminiscência dessas histórias possa ter sido alterada com o

passar do tempo.

Assim, chegamos a uma pergunta decisiva: que significado têm estas histórias recolhidas? Podem significar duas coisas diferentes. Podem significar, por exemplo, que a ordem coerente, como uma espécie de saga, é a condição primitiva, e, sempre que se encontrem mitos em elementos desconexos, há-de tratar-se do resultado de um processo de deterioração e desorganização; neste caso, apenas se encontram elementos dispersos do que anteriormente foi um todo significante. Pode-se também apresentar a hipótese

de que o estado desconexo é o arcaico, e que os mitos foram reunidos e postos em ordem por alguns nativos sabedores e filósofos, que nem sempre aparecem em toda a parte mas apenas em determinado tipo de sociedade. Tem- se precisamente o mesmo problema com a Bíblia, porque parece que o seu material de base era formado por elementos desconexos que depois foram reunidos por filósofos conhecedores para tecer uma história contínua. Seria extremamente importante descobrir se a situação entre os povos sem escrita que foram estudados pelos antropólogos é a mesma que a da Bíblia ou outra completamente diferente (STRAUSS, 1987, p. 42).

Da mesma forma, é possível que a absorção cultural desses deuses se dê de

outras formas. A título de exemplo, a figura atualmente difundida como um dos grandes

símbolos da paixão – o Cupido – é uma entidade grega clássica1 cujo ícone ainda hoje é

vastamente representado, quer como forma de comunicação vulgar, usando aqui o termo

no sentido de usual, quer relacionado a ideias de sentimento ou de consumo puro e

simples (veja-se o largo uso da imagem para fins comerciais, como o dia dos

namorados). É normal que os símbolos se alterem durante a História, pressionados pelos

avanços civilizatórios, surgimento de novas religiões e a possível necessidade de

explicações cada vez mais complexas.

A história de um conceito não é, de forma alguma, a de seu refinamento progressivo […], mas a de seus diversos campos de constituição e de validade, a de suas regras sucessivas de uso, a dos meios teóricos múltiplos em que foi realizada e concluída sua elaboração (FOUCAULT, 2009, pg. 4).

Há poucas citações a Levana, sendo uma delas extraída dos escritos de Santo

Agostinho, em sua obra De Civitate Dei (A Cidade de Deus). Agostinho de Hipona (354

– 430), bispo de Hipona (cidade na África), foi um dos primeiros teólogos do

cristianismo. A Cidade de Deus foi escrita por ele em reação ao movimento de crítica ao

cristianismo que começou a tomar forma após o chamado Saque dos Visigodos a Roma.

Ocorrida em 410 d.C., foi a primeira ocorrida em cerca de 800 anos, sendo identificada

com o declínio do poder romano no Ocidente. As críticas diziam que a falta de fé nas

1Assim como os demais deuses, essa divindade tem seu nome grego e seu nome romano. Para os gregos, Eros era a figura responsável pela forma mais bruta do amor e da paixão, enquanto sua mãe, Afrodite, era a patrona do desejo. Para os romanos, Eros ganhava o nome de Cupido, já sendo representado com o arco e flecha capazes de fazer nascer o amor nas pessoas.

antigas divindades em prol do Deus único cristão estaria na origem do Saque, como um

castigo divino. A Cidade de Deus é composta de 22 livros, dos quais os primeiros cinco

de destinam a criticar o politeísmo.

Os doutores dos pagãos defendem a opinião de que os diversos deuses mais não são que um e o mesmo Júpiter. (…) está, finalmente, na multidão dos deuses, a bem dizer plebeus; é quem preside, com o nome de Libero, à emissão seminal dos homens e, com o nome de Libera, à das mulheres; é Diespáter, que leva a seu termo o parto; é a deusa Mena, que preside às regras das mulheres; é Lucina, invocada pelas parturientes; é quem, com o nome de Ópis, presta socorro aos recém-nascidos, recebendo-os do seio da terra; é quem, com o nome do deus Vaticano, lhes abre a boca para os vagidos; com o nome da deusa Levana, os ergue da terra; com o nome da deusa Cunina, vigia os berços; é ele e não outro quem, com o nome das deusas Carmentes, narra os destinos dos recem-nascidos; quem, com o nome de Fortuna, preside aos acontecimentos fortuitos; com o da deusa Rumina, munge a mama para o pequenino — por isso é que os antigos chamaram ruma à mama;com o da deusa Potina, lhes administra a bebida; com o da deusa Edura, lhes fornece a comida (SANTO AGOSTINHO, 1996, pg 400).

Embora pouco conhecido, no entanto, o mito da deusa Levana ainda faz parte

do imaginário contemporâneo. Segundo a mitologia romana clássica, Levana era a

deusa responsável pela elevação de uma criança. E aqui que se faz interessante ressaltar

que os povos antigos entendiam essa elevação de duas formas – objetiva enquanto o pai,

através de seu ritual, realmente pegava a criança em seus braços e subjetiva

entendendo-se que o pai entendendo-seria, então responsável por transformar a criança em um cidadão. Ainda

hoje, Levana habita nosso imaginário, emprestando seu nome até mesmo a uma linha de

babás eletrônicas (aparelhos que ―vigiam‖ as crianças).

Era comum que as mulheres procurassem por Levana ao conceber crianças sem

que o pai quisesse reconhecê-las. Isso porque, segundo os costumes da época, o

reconhecimento paterno se dava no ato do pai de segurar a criança e levantá-la,

identificando-a como sua descendência (por isso, elevação objetiva).

Levana era a deusa romana que realizou para o recém-nascido o mais antigo escritório de enobrecer bondade, típico, por seu modo, dessa grandeza que pertence ao homem em todos os lugares, e de que benignidade poderes invisíveis que mesmo em mundos pagãos, às vezes desce para sustentá-la (QUINCEY, 1909, p. 29).

No entanto, talvez a elevação subjetiva fosse a mais importante atribuição de

Levana. Seria ela a responsável pela elevação (ou não) intelectual, social, cultural da

criança, interferindo, no todo, na formação, desenvolvimento e futuro durante sua vida.

Nesta dissertação, aproveitaremos esse mito para uma comparação com os

professores e educadores e nossas expectativas, enquanto sociedade, em relação a eles.

Para que possamos analisar, justamente, essa expectativa social, utilizaremos o Plano

Nacional de Formação de Professores, elaborado pelo Ministério da Educação, das

secretarias de educação dos estados e municípios e de instituições públicas de educação

superior.

No documento Desmistificando o papel do educador (páginas 40-43)

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