3.4 PLANO DE MANEJO DA MOSCAS-DAS-FRUTAS BASEADO NOS
3.4.1 Levantamento das espécies de moscas-das-frutas com armadilhas
No monitoramento da mosca-das-frutas com armadilhas, no pomar experimental da localidade do Rio dos Sinos, Caraá, RS, no período de 12 meses, foi identificada uma única espécie de mosca-das-frutas, a Anastrepha fraterculus (Figura 28), sendo capturadas 1021 fêmeas dessa espécie.
(Foto de Luciana Fofonka, 2004)
Figura 28: Mosca-das-frutas da espécie Anastrepha fraterculus identificada no pomar experimental de Rio dos Sinos, Caraá, RS/ 2004.
Uramoto (2002) em estudos conduzidos em Piracicaba/SP, também obteve preferencialmente a espécie A. fraterculus na coleta de frutos da família Rosaceae (laranja e tangerina). Kovaleski (1997) em estudo conduzido em Vacaria, RS concluiu que A. fraterculus foi predominante, representando mais de 80% do total de insetos capturados.
Segundo Bleicher et al. (1980) no Rio Grande do Sul, a espécie da mosca-da-fruta mais freqüente nos pomares de citros e de importância econômica é a Anastrepha fraterculus (Wiedemann).
A ocorrência específica de A. fraterculus pode ser atribuída à diversidade de plantas hospedeiras dessa espécie, encontrada nas proximidades do pomar experimental (capítulo 2.2.4) alem da própria laranja Valência.
Além de visualizar as moscas nas armadilhas, durante o monitoramento no pomar, por várias vezes pode-se observar esse inseto ovipositando as laranjas (Figura 29).
(Foto de Luciana Fofonka, 2004)
Figura 29: Mosca-das-frutas ovipositando uma laranja no pomar experimental de Rio dos Sinos, Caraá, RS/2004.
3.4.2 Flutuação populacional da mosca-das-frutas
Em todos os meses do levantamento com armadilhas foram capturados adultos de Anastrepha. Ocorreu aumento dos níveis populacionais nos meses de agosto a outubro, com um
pico populacional em outubro, quando se capturou 25% do total das fêmeas. Os níveis populacionais mantiveram-se relativamente altos no período de agosto a janeiro. Também se verificou uma discreta elevação no nível populacional em abril, mantendo-se em níveis mais baixos nos demais meses do ano. O período em que os níveis foram menores correspondeu aos meses de junho e julho, sendo que em julho o número máximo de moscas foi de 25 espécimes (Figura 30). 40 55 48 31 25 51 135 286 207 152 87 44 0 50 100 150 200 250 300 350
mar abr mai jun jul ago set out nov dez jan fev mar/04 a fev/05 N ú m e ro d e f ê m eas
Figura 30: Flutuação populacional de A. fraterculus capturadas em armadilhas no pomar
experimental de laranjeira (variedade Valência) da localidade do Rio dos Sinos, Caraá/ RS no período de março /2004 a fevereiro/2005.
O aumento significativo nas capturas de A. fraterculus sugere que a oferta de laranjas pode ter determinado o pico populacional, pois o período de maiores capturas coincide com a época de frutificação da laranja Valência (setembro a fevereiro) (Figura 31).
A presença de hospedeiros (multiplicadores e alternativos) de A. fraterculus próximos ao pomar podem ter contribuído para a manutenção de sua população nos outros meses do ano, como a goiaba, a laranja (variedade Laranja-de-Umbigo) e o pêssego, cujos meses de frutificação conforme Lorenzi (1992), correspondem aos meses de janeiro a abril, abril a agosto e de novembro a janeiro, respectivamente (Figura 32).
0 50 100 150 200 250 300 350
mar abr mai jun jul ago set out nov dez jan fev mar/04 a fev/05 N ú me ro d e fê me as ********* ****** 0 50 100 150 200 250 300 350
mar abr mai jun jul ago set out nov dez jan fev mar/04 a fev/05 N ú m e ro de fêm eas --- laranja
Figura 31: Flutuação populacional de A. fraterculus capturadas em armadilhas e período de frutificação da laranjeira, variedade Valência, no pomar experimental da localidade do Rio dos
Sinos, Caraá/ RS no período de março /2004 a fevereiro/ 2005.
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Figura 32: Flutuação populacional de A. fraterculus capturadas em armadilhas e período de frutificação dos hospedeiros localizados nas proximidades do pomar experimental da localidade do Rio dos Sinos, Caraá/ RS no período de março /2004 a fevereiro/ 2005.
A alta incidência da mosca-das-frutas A. fraterculus no pomar experimental de laranjeiras do Rio dos Sinos, Caraá/RS pode estar relacionado com a migração das moscas presentes nos frutos hospedeiros localizados próximos às laranjeiras.
Como já foi apontado no capítulo 3 (3.1 e 3.2), o município de Caraá apresenta muitas frutíferas, sendo algumas hospedeiras da mosca-das-frutas. Isso também poderia ser responsável
* Goaiba - Laranja
pela sucessão da A. fraterculus para os pomares de laranjeiras de Caraá, mantendo a população desta espécie ao longo do ano.
Em estudo conduzido em Santa Catarina, Nora apud Garcia et al. (2003), constataram que a grande diversidade de plantas hospedeiras (nativas e cultivadas) em diferentes épocas de frutificação facilita a reprodução sucessiva de A. fraterculus durante o ano todo.
Uramoto (2002), em estudo sobre a biodiversidade de moscas-das-frutas do gênero Anastrepha, em São Paulo, também associou a sucessão de hospedeiros como responsáveis pela manutenção da população da A. fraterculus ao longo do ano. Nugyen et al. apud Uramoto (2002), verificaram que as variedades de citros na Flórida foram atacadas apenas na época em que o índice de infestação nos hospedeiros primários foi alto ou no período de escassez destes hospedeiros.
A disponibilidade de frutos hospedeiros tem sido o fator mais importante para o aumento no nível populacional das espécies de Anastrepha, como verificado por vários autores em estudos no Brasil (CANAL et al., 1998; FEHN, 1982; MALAVASI & MORGANTE, 1981; SOUZA FILHO, 2006; URAMOTO, 2002). Segundo Nascimento & Carvalho (2000), em pomares onde predomina um único hospedeiro, os maiores níveis populacionais coincidem com a época de maior quantidade de frutos maduros.
Na região de Pelotas/RS, a A. fraterculus não tem diapausa invernal, ou seja, está presente e com atividade durante todos os meses do ano. Certamente que, no final de outono e inverno, a população de moscas é menor que nos demais meses do ano. Isso porque, nos meses frios, há escassez de plantas hospedeiras da mosca-das-frutas, porém, quando presentes, podem ser infestados como o exemplo da laranja (SALLES, 1995).
No sul do Brasil, o pico populacional da mosca-das-frutas acontece na primavera até dezembro. Fora desse período podem ocorrer outros picos, porém sempre associados à presença de hospedeiros multiplicadores (SALLES, 1995).
O tamanho das populações e a época de aumento populacional variam de ano para ano e não obedecem a um padrão determinado (ALUJA, 1994). Sendo assim, as oscilações populacionais observadas neste trabalho não devem ser consideradas como padrão definitivo para esta área.