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3. ANÁLISE DO EMPREGO DOS PRONOMES

3.2. Levantamento de usos nos Relatos Pessoais

A partir da elaboração das redações do gênero relato pessoal, chegamos aos seguintes resultados, para os pronomes na posição de sujeito:

Gráfico 2: Usos pronominais em relatos pessoais

Fonte: as autoras

Com relação aos relatos pessoais, foi possível perceber que certos usos não ocorreram como esperado, uma vez que os alunos não compreenderam que o texto seria lido para os colegas, e que eles poderiam recorrer à interlocução. Além disso, muitos relataram situações que ultrapassaram o ambiente escolar, ou relataram acontecimentos vividos com outros colegas em outra escola. Ainda, para muitos, a ideia de que o relato poderia conter diálogos e interlocuções não foi plenamente assimilada, por isso os textos possuem essencialmente a voz

35 Interessante destacar que os resultados observados não reproduzem um padrão, nem uma realidade, uma vez

que existe o uso de tu em outras variedades de nossa língua (cf. FLECK, 2016), e existem pesquisas que apontam o uso predominante de a gente em comparação ao nós (cf. MOURA, 2015 e SMANIOTTO, 2010). É possível que a predominância do nós em nossa análise decorra do fato de que a produção fora realizada no contexto escolar e, por esse motivo, houve um monitoramento maior por parte dos alunos no momento de redigir o texto. Ainda assim, os dados encontrados são pertinentes a nosso estudo das variantes utilizadas para as variáveis de segunda pessoa e de primeira pessoa do plural analisadas.

133 5 13 0 20 40 60 80 100 120 140 Usos nós você a gente

do narrador. No entanto, com relação aos usos referentes ao “eu+outro”, foi possível obter resultados passíveis de análise36.

Consideramos, nesse caso, no entanto, que a aplicação dos textos obteve êxito, uma vez que, no que se refere à interlocução, com a aplicação das cartas, foi bastante visível a ocorrência de você em todos os textos, sem paralelo algum com o tu, ressalvando-se somente o uso, em alguns casos, do pronome oblíquo te, mas, ainda assim, dialogando com o pronome

você. Foi possível identificar, também nessas produções, o predomínio do pronome nós,

ainda que houvesse uso da forma a gente (grafada como “agente”), como nos exemplos retirados de R2:

(19) agente foi se aproximando (20) agente virou melhores amigas

Infere-se que o uso expressivo da forma nós se deve, mais uma vez, à facilidade de identificação do sujeito, fato que pode ser explicado por mais da metade dos usos de primeira pessoa do plural se referirem a situações elípticas, bem como pelo fato de que a supressão da forma a gente, sem ter havido pelo menos uma ocorrência, não indicaria exatamente a qual sujeito o verbo se refere.

Com relação ao traço semântico do referente (“[+] ou [-] eu-ampliado”) para as formas nós e a gente, foi possível observar, conforme tabela abaixo:

[+] ampliado [-] menos ampliado

NÓS 21 112

A GENTE 06 07

TOTAL 27 119

Tabela 4: nós/a gente vs. valores semânticos das formas

Fonte: As autoras Assim como na carta pessoal, houve, nos relatos pessoais, a predominância das formas menos ampliadas, uma vez que os estudantes escreveram um relato pensando em um colega/amigo/parente específico e, desse modo, o uso de nós e a gente refletiria a relação eu+outro. Com relação aos casos das formas mais ampliadas, foi possível perceber que isso se

36 Dessa maneira, notamos que não houve, nos relatos, dados consistentes para se comparar as noções de

[+ampliado] ou [-ampliado] do pronome você, uma vez que as cinco ocorrências desse pronome encaixam-se mais na noção de [+ampliado]. Tal resultado pode ser interpretado visto que, em muitos casos, o relato pessoal não se dirige a um leitor específico. Assim, os alunos, seguindo a orientação geral do gênero trabalhado, não realizaram a interlocução direta, isto é, [-ampliada], em seus textos.

deveu ao fato de nós e a gente referirem-se a um grupo maior de pessoas, conforme os exemplos abaixo:

(21) Eu, a Isabela e a Giovana fomos passear (22) [...] eu e uma amiga tocamos no assunto (23) [...] perdemos um jogo

(24) agente (sic) ganhou [...] recebemos a medalha

No que se refere à concordância, encontramos os seguintes dados:

Presença de CV Ausência de CV

NÓS 129 04

A GENTE 10 03

TOTAL 139 07

Tabela 5: nós/a gente vs. Concordância verbal

Fonte: As autoras Percebemos que ocorreu a concordância verbal na maioria dos dados observados, tanto em casos com o pronome aparecendo explicitamente, como nos casos elípticos. Nota-se, portanto, que os alunos realizaram a referência entre sujeito e verbo.

Com relação ao paralelismo, podemos observar os seguintes dados:

Referência 1 Referência 2

NÓS 48 85

A GENTE 08 05

TOTAL 56 90

Tabela 6: nós/a gente vs. Paralelismo formal

Fonte: As autoras A partir da tabela acima, é possível verificar uma ocorrência maior de casos de Referência 2, principalmente no que se refere ao uso do pronome nós. Isso é possível porque, nos relatos dos alunos, houve a produção de parágrafos extensos, nos quais a referência pronominal ocorria logo no início e, no decorrer do parágrafo, realizava-se a referência ao termo anterior, seja de forma explícita ou implícita. Houve, ainda, casos em que a mudança de referência era mais comum devido ao fato de ora o texto utilizar o pronome nós, ora utilizar a expressão a gente, como nos exemplos retirados da R14:

(25) Nesse dia a gente estava morrendo de medo porque nós íamos jogar contra o 7º ano. A gente estava com medo de perder e passar vergonha.

Assim, esses resultados nos auxiliaram na elaboração das atividades destinadas a esse mesmo público (alunos de sétimo ano), o que resultou em um caderno de atividades que pretende contemplar os usos pronominais referentes às pessoas do discurso, segundo tanto a gramática normativa quanto as variedades não contempladas pela perspectiva gramatical.

Como já mencionado, após essas etapas, elaboramos um Caderno de atividades e um

Manual para o professor, que consideraram o ensino do novo quadro pronominal do PB.

Pretendemos, portanto, realizar uma nova abordagem dos pronomes pessoais para estudantes do 7º ano do Ensino Fundamental. Ao final, esperamos que ocorra a elaboração, por parte de professor e alunos, de novos quadros pronominais, os quais contemplem tanto a norma culta quanto as outras variedades linguísticas menos prestigiadas no ambiente escolar.

4. PROPOSTA DE INTERVENÇÃO: O CADERNO DE ATIVIDADES E O CADERNO