• Nenhum resultado encontrado

ARQUITECTURAS, EQUIPAMENTOS E ASPECTOS RITUAIS

LIBAÇÕES E PRÁTICAS

SIMPOSIÁSTICAS SACRIFÍCIOS RITUAIS DE FOGO QUEIMA DE ESSÊNCIAS/ PERFUMES DEPOSIÇÃO DE OFERENDAS RITOS FUNDACIONAIS PRÁTICAS NECROLÁTRICAS CULTOS BETÍLICOS OU SEMELHANTES ABANDONO PROGRAMADO OUTROS

Castro Marim III X – X – X – – – ? –

Castro Marim IV X – X – X X – – ? – Tavira (P. G.) X X X X X ? ? – ? – Abul A ? ? X X ? – – – X – Ratinhos X – X X X X – X X – Azougada ? ? ? ? X ? – – – – Neves I X ? X ? X X ? – – – Neves II ? – ? – – – – – – X Corvo I ? X X ? X – – – – – Espinhaço – – X ? – – – – – – Castro Marim V X X X ? X X X ? X – Abul B X X X ? X ? – – – –

Alcácer do Sal – Rato ? ? X X X ? – ? ? X

Alcácer do Sal –

Castelo ? ? X X X ? – – ? –

Garvão X X X X X X ? – X –

contextualização nas práticas mágico ‑religiosas do Mediterrâneo antigo, trabalho a desenvolver de futuro sustentado na base empírica que este trabalho procurou reunir e sistematizar. Não obs‑ tante, parece indispensável passar uma rápida revista pelo tipo de ritos aos quais os contextos estudados serviram de palco.

De longe o tipo de ritual mais atestado consiste na realização de libações e na deposição de oferendas, atestada em virtualmente todos os contextos estudados pela presença nos espaços de culto de recipientes destinados ao consumo de alimentos bem como de contentores (grandes recipientes e ânforas) que corresponderão provavelmente à oferenda de géneros alimentícios ao santuário e, por intermédio deste, à divindade. Estreitamente ligada com esta prática estará a da realização de sacrifícios de animais, bem conhecida em contextos de culto «Orientalizantes» peninsulares (Bandera Romero, 2002) e que parece também atestada em Tavira, talvez em Abul A, em Corvo I, na fase V de Castro Marim, em Abul B e em Garvão, dos quais determinadas partes caberiam à divindade e o restante seria consumido, talvez em banquetes comunitários de aspecto cívico ou, porventura, aristocrático (Alvar, 1999). No caso do Castelo de Alcácer do Sal os sacrifí‑ cios poderão, putativamente, ter sido substituídos pela deposição de bronzes zoomórficos.

Igualmente muito comuns parecem ser os rituais de fogo, consubstanciados nos altares antes comentados, e que estarão seguramente conotados com um ideal de purificação pelo fogo e talvez relacionados também com a ideia de regeneração (recorde ‑se a propósito a egersis de Melqart, que morre pelo fogo para renascer, simbolizando a renovação na natureza, cf. Lipinski, 1995: 226 e ss.; Escacena Carrasco, 2009), sendo a este último respeito muito interessante o caso dos larnakes de Neves I com as suas possíveis cremações associadas. Ligada com este tipo de ritos está também a queima de essências e perfumes (López Rosendo, 2005), que parece ser tam‑ bém prática corrente nos contextos estudados: estão atestados quer os recipientes destinados a conter estas substâncias («ampolas», unguentários, anforiscos…) quer elementos especifica‑ mente destinados à sua queima (queimadores de dupla taça, kernoi, thymiateria, queimadores fenestrados…).

A prática de ritos fundacionais prévios à edificação dos contextos de culto não é, também, invulgar, estando atestada na fase IV de Castro Marim, com o depósito de uma ânfora e uma urna «Cruz del Negro», e novamente na fase V do mesmo sítio, desta feita assumindo um cariz bem mais complexo, com inumações infantis, a abertura de uma vala bífida de significado pouco claro e talvez com a erecção de betilos ou postes sacros (derivados das asherim orientais); no Castro dos Ratinhos a deposição de uma possível veste com botões áureos associada a um conjunto cerâ‑ mico poderia corresponder também a um rito fundacional; em Neves I a própria deposição da hipotética incineração assinalada pelo mais antigo dos larnakes poderá ter correspondido ao momento de efectiva sacralização deste espaço; finalmente, em Garvão, parecem ter ‑se realizado complexos rituais de consagração antes da deposição dos materiais votivos, incluindo a deposi‑ ção de oferendas, a realização de sacrifícios animais e mesmo, talvez, humanos.

A possibilidade de que se tenham verificado, em alguns dos contextos estudados, práticas necrolátricas assume ainda contornos bastante difusos. A questão dos sacrifícios humanos, ulti‑ mamente bastante discutida para o mundo fenício ‑púnico (Wagner, 1995; Marín Ceballos, 1995), acarreta um conjunto muito substantivo de problemas, remetendo para conceitos cosmológicos e escatológicos complexos. A existência na fase V de Castro Marim de inumações infantis como

parte dos ritos de sacralização do espaço sugere a existência de práticas conotáveis, de alguma forma, com o tipo de ritos presentes no mundo «Ibérico» (AA.VV., 1989). Também a possibilidade de que o complexo religioso de Neves I se tenha desenvolvido em torno a duas incinerações depostas de forma sucessiva no mesmo ponto aponta para possíveis ritos ligados à divinização dos antepassados. Quanto ao crânio de Garvão (Antunes e Cunha, 1986), os dados para valorizar historicamente o mesmo são escassos, mas é possível que a sacralização do espaço tenha acarre‑ tado, pelo menos, a realização de algum tipo de rito necrolátrico.

Também ainda difusa é a imagem da possível difusão de cultos betílicos de matriz fenícia no extremo Ocidente. É conhecida uma certa tendência anicónica das religiões da área siro‑ ‑palestiniana do I milénio a.n.e. partilhada pela religião fenícia (Trebolle, 1997), estando também atestada a representação betílica da divindade no mundo «Orientalizante» peninsular (Bandera Romero et al., 2004; Belén e Escacena, 2002: 168 ‑170). Nos casos portugueses, as evidências são ténues, mas parece comprovada a representação anicónica da divindade no Castro dos Ratinhos, sendo provável que se tenha também verificado na fase V de Castro Marim, aqui curiosamente a par da representação divina de forma antropomórfica, como o comprovam as figurinhas de pasta vítrea exumadas no sítio, num dualismo que não é estranho ao próprio mundo fenício (Belén e Escacena, 2002).

Ao nível ritual haveria também a referenciar a possibilidade, ainda que pouco sustentada, de a escrita ter constituído parte integrante das práticas cultuais em Neves II

Outra prática que permanece, por agora, sem paralelos no território em análise é a da reali‑ zação de práticas de adivinhação que parece atestada na Rua do Rato, em Alcácer do Sal pelo conjunto de astrágalos que tive oportunidade de descrever acima.

Uma última característica recorrente nos sítios estudados é o cuidado posto no abandono dos espaços de culto, revelado em alguns casos pela escassez de espólio (que poderia, por outro lado, indicar uma frequentação reservada destas áreas), como nas fases III e IV de Castro Marim, em Abul A ou no Castro dos Ratinhos, e noutras instâncias pela existência de depósitos votivos selados (casos da fase V de Castro Marim ou de Garvão). Nalgumas circunstâncias o fogo parece ter jogado um papel significativo nesses momentos de abandono, verificando ‑se níveis de incên‑ dio na última fase de Abul A e na fase V de Castro Marim que não podem deixar de recordar o grande incêndio ritual que terá marcado o abandono de Cancho Roano (Maluquer de Motes et al., 1987).

10. PARA UMA TIPOLOGIA CONTEXTUAL DOS ESPAÇOS DE CULTO