CAPÍTULO I – MULHERES, CIDADANIA E DIREITO DE VOTO NA
I. 3. – Liberalismo moderado vs liberalismo radical
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25 as mulheres dependem dos homens quer pelos seus desejos quer pelas suas necessidades; nós subsistiríamos melhor sem elas do que elas sem nós» (citado em Henriques, op. cit.: 186).
Elas deveriam ser educadas desde a infância para agradarem e serem úteis aos homens, para os fazerem «amá-las e estimá-las», para os educar enquanto fossem jovens e para cuidar deles quando adultos. Tinham ainda a obrigação de os aconselhar, consolar e tornar as suas vidas «fáceis e agradáveis». (Pérez Garzón, 2011: 55). A sua educação formal deveria ser básica e resumir-se às questões relativas à gestão das tarefas domésticas. Os homens, pelo contrário, deveriam ser instruídos para assumirem responsabilidades na vida pública. As mulheres existiam para servir; os homens para (co)mandarem. Elas eram seres passivos e fracos; eles, activos e fortes. O modelo pedagógico rousseauniano legitimava, desta forma, preconceitos ancestrais contribuindo para a sua manutenção na nova ordem social e política que nasceu com o liberalismo.
Este contrato social que define o lugar de homens e mulheres na família e na sociedade (e que várias teóricas do feminismo, como Carole Pateman, denominam de contrato sexual) é, para Rousseau, imprescindível para o progresso da humanidade. Se as mulheres abandonassem as tarefas domésticas para se ocuparem dos assuntos públicos, haveria um desequilíbrio na relação entre os dois sexos, o que colocaria em causa o avanço da sociedade. Além disso, sendo as mulheres seres frágeis e emocionais, não seriam capazes de empregar princípios racionais na aplicação da justiça, a base do novo modelo político.
Posição diferente tinha o Marquês de Condorcet. Num artigo intitulado Sobre a admissão das mulheres aos direitos de cidadania (Sur le droit de cité des femmes, no original), publicado em 3 de Julho de 1790, Condorcet questionava os princípios nos quais se apoiava o estado republicano para excluir as mulheres do direito público.
Defendendo que homens e mulheres eram dotados de razão e de moral, e, por isso, merecedores dos mesmos direitos, concluía que a violação da igualdade de direitos só podia dever-se ao «hábito»: «O hábito pode familiarizar os homens com a violação dos seus direitos naturais, ao ponto de, entre aqueles que os perderam, ninguém pensar em reclamá-los, ninguém acreditar ter sido vítima de uma injustiça»13 (Condorcet, 1847: 5).
13 No original: «L’habitude peut familiariser les hommes avec la violation de leurs droits naturels, au
26 A exclusão das mulheres dos direitos de cidadania não foi «um acto de tirania», mas uma forma de provar que os seus direitos naturais não eram os mesmos dos homens ou de demonstrar que elas não eram capazes de os exercer, o que era «difícil de provar».
«Elizabeth de Inglaterra»14, «Maria Teresa»15 e as duas «Catarinas da Rússia»16 eram o exemplo de como não faltavam às mulheres «força anímica» e «coragem de espírito». O que lhes faltava era uma educação para a cidadania, uma oportunidade para aprenderem a moverem-se num espaço que raramente fora o delas, para decidirem em função da razão e não do coração. Afastadas dos assuntos públicos, da gestão do bem comum, da aplicação da justiça baseada em leis positivistas, as mulheres acostumaram-se a viver segundo os princípios da «honestidade natural» e do «sentimento».
Excluir as mulheres da república com base neste argumento implicava privar dos direitos de cidadania todas aquelas que por força do seu «trabalho incansável» não tivessem a oportunidade de «exercitar a razão». O que significaria que, a pouco e pouco, apenas os homens que frequentassem um «curso de Direito Público» pudessem ser considerados cidadãos. Um privilégio próprio do Antigo Regime e não de um regime que defendia direitos iguais para todos «os indivíduos da espécie humana».
No mesmo artigo, Condorcet desmonta ainda um outro motivo muitas vezes apresentado como justificação para excluir as mulheres do direito de cidadania: o da utilidade pública. Havia a crença de que todos os cidadãos tinham como objectivo último o governo da coisa pública, o que afastaria as mulheres da gestão da casa e da educação dos filhos. Mas Condorcet acreditava que não era pelo facto de as mulheres serem membros da Assembleia Nacional que elas descuidariam os seus afazeres domésticos, da mesma forma que os artistas não se afastavam dos seus ateliês.
Por todos estes motivos, Condorcet defendia: «Ou nenhum indivíduo da espécie humana tem verdadeiros direitos, ou todos têm os mesmos; e aquele que vota contra o direito de outro, independentemente da sua religião, da sua cor ou do seu sexo, desde point que, parmi ceux qui les ont perdus, personne ne songe à les réclamer, ne croie avoir éprouvé une injustice».
14 Isabel I (1533-1603), rainha de Inglaterra e da Irlanda desde 1558 até à sua morte.
15 Maria Teresa da Áustria (1717-1780), imperatriz consorte do sacro império romano-germânico entre 13 de Setembro de 1745 e 18 de Agosto de 1765.
16 Catarina I (1684-1727) e Catarina II (1729-1796), imperatrizes da Rússia.
27 logo renunciou os seus»17 (Idem: 6).
Condorcet era considerado um dos precursores do feminismo em França. Todo o seu discurso assentava na defesa de uma república que respeitasse o princípio da representação nacional, ou seja, que não excluísse da sua governação uma parte dos seus membros, neste caso, as mulheres. Contudo, o Projecto de Declaração de Direitos e de Constituição que apresentou na Convenção Nacional18 no dia 15 de Fevereiro de 1793 não fazia qualquer referência às mulheres.
Cerca de 80 anos depois, surge do outro lado do Canal da Mancha, aquele que à época foi considerado a bíblia das sufragistas e que terá sido o primeiro ensaio verdadeiramente feminista escrito por um homem. Referimo-nos ao livro A Sujeição da Mulher (The Subjection of Women, no original), escrito em 1869 por John Stuart Mill, um acérrimo defensor da emancipação social, económica e política das mulheres (dois anos antes, tinha apresentado uma petição a favor do sufrágio feminino – ler Capítulo II desta primeira parte). Nesta obra, o filósofo inglês mostra-se preocupado com a forma desigual como o quadro jurídico e os costumes arreigados tratam homens e mulheres e sustenta que apenas uma relação social entre ambos os sexos baseada no princípio da
«perfeita igualdade» permitirá o desenvolvimento moral e intelectual da humanidade.
Para ele, o que então se designava por «natureza feminina» mais não era do que «algo eminentemente artificial – o resultado de repressão forçada em algumas direcções, estimulação não natural noutras19» (Mill, 1869: 38-39), utilizado para justificar essa sujeição das mulheres ao sexo masculino.
À semelhança de Condorcet, também John Stuart Mill considera que a ignorância das mulheres, fruto de uma instrução deficiente, deve ser combatida a bem do progresso da civilização. Só um investimento na sua educação formal as poderia preparar para assumirem novas responsabilidades na família e, sobretudo, na sociedade, abrindo-lhes as portas a profissões e funções políticas que até então lhes estavam
17 No original: «Ou aucun individu de l’espèce humaine n’a de véritables droits, ou tous ont les mêmes; et celui qui vote contre le droit d’une autre, quels que soient sa religion, sa coleur ou son sexe, a dès lors abjuré les siens».
18 Convenção Nacional é a denominação dada ao regime político que vigorou em França entre 20 de Setembro de 1792 e 26 de Outubro de 1795.
19 No original: «What is now called the nature of women is an eminently artificial thing – the result of forced repression in some directions, unnatural stimulation in others».
28 interditas e tornando-as verdadeiras companheiras dos homens e não suas escravas.
Numa palavra, só assim as mulheres seriam verdadeiramente livres económica, social e politicamente.
Excluir à partida as mulheres da esfera política mais não era do que um acto de egoísmo e de injustiça perpetrado por metade da humanidade sobre a outra metade.
Muitas mulheres tinham já provado serem capazes de se encarregarem dos assuntos de governo de forma tão ou mais responsável do que os homens. Por toda o mundo, havia vários exemplos de monarquias e impérios liderados com grande mérito por mulheres, por vezes, em períodos de grande instabilidade política e social, já para não falar das sociedades mais antigas, como a da cidade grega de Esparta, onde havia um equilíbrio de poderes entre homens e mulheres. Não permitir que as mulheres votassem ou se candidatassem a funções públicas representava, no seu entender, um retrocesso civilizacional: «as únicas coisas que a lei existente exclui as mulheres de fazerem, são aquelas que elas já provaram serem capazes de fazer20» (Idem: 99).
Por outro lado, a atribuição do direito de voto às mulheres significaria não só um tratamento justo e igualitário entre ambos os sexos, mas também uma maior garantia de que a política se regeria por elevados padrões de ética. Muitos opositores ao sufrágio feminino argumentavam que as mulheres já participavam indirectamente nas eleições, pois influenciavam, em muitos casos, o sentido de voto dos elementos masculinos da família (em especial, os maridos). Contudo, John Stuart Mill defende que permitindo às mulheres participarem nas eleições – como votantes e/ou candidatas a cargos políticos -, estas seriam co-responsáveis pelo governo da coisa pública.
Além do mais, acrescenta o autor, «é provável que a opinião política da maioria das mulheres de uma determinada classe não seja muito diferente da dos homens da mesma classe, excepto quando estão em causa interesses nos quais as mulheres, enquanto tal, estão de alguma forma envolvidas21» (Idem: 96-97). Nestes casos, o voto é a sua garantia de que esses interesses são tratados de forma justa e igualitária.
20 No original: «the only things which the existing law excludes women from doing, are the things which they have proved that they are able to do».
21 No original: «The majority of the women of any class are not likely to differ in political opinion from the majority of the men of the same class, unless the question be one in which the interests of women, as such, are in some way involved».
29 John Stuart Mill rejeita liminarmente que as mulheres tenham menos faculdades intelectuais do que os homens para desempenharem funções políticas, concluindo que a sua discriminação assenta apenas na dificuldade que a generalidade do sexo masculino tem em tolerar «a ideia de viver em igualdade» (Idem: 92).
O que os defensores da emancipação feminina defendiam, no fundo, era que o papel desempenhado por cada um dos sexos na esfera pública e na esfera privada não era determinado pela natureza nem resultava de um qualquer desígnio divino, mas sim de uma construção social (Offen, 2000: 32). Não eram as condições biológicas que definiam as relações sociais entre homens e mulheres e a sua identidade enquanto tal, mas as concepções culturais. A masculinidade e a feminilidade, como tudo o que encerram, são socialmente construídas. Esta teoria seria recuperada na década de 60 do século XX por filósofos como Judith Butler e Michel Foucault, dando origem a uma nova disciplina: os estudos de género.