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3. CAPÍTULO II: OS SONS COMO A EXPRESSÃO ARTÍSTICA CONFIGURADORA

3.4. Melodia: o reino da liberdade

3.4.3. Liberdade da melodia: momento do particular se achar no universal

Neste momento, perguntamos em que instância se dá essa liberdade da melodia em relação à harmonia: nosso objetivo é investigar a relação do particular no universal e como se dá a liberdade nessa relação. Tal passo é de extrema importância, pois sendo o melódico o mais livre na música, ele discordará ou não das leis da harmonia? Em nossa investigação, esse argumento nos mostra mais uma vez que a lógica é a mesma para todo o seu sistema, sendo a relação entre indivíduo e Estado a mesma entre melodia e harmonia. A falta de leis do Estado ou da harmonia nessa relação geraria o terror ou o atonalismo.

Segundo José Henrique Santos, na passagem de Hegel na Fenomenologia do Espírito intitulada de A Liberdade Absoluta e o Terror, é a falta de um poder de representação para mediar a vontade absoluta e a vontade dos indivíduos, o que gera o terror, a fim de evitar uma identificação imediata entre vontade geral e vontade individual. “Assim como o Absoluto abstrato se perverte em absolutismo, a vontade geral degenera em ditadura; e quando perdem o senso da medida e nenhum princípio (arché) consegue governar (archeim), só resta a an- archía.” (HENRIQUE, 2007, p. 322) Esse poder de representação na música podemos interpretar, em analogia, como as leis da harmonia ou leis da tonalidade, incluindo modulações. São regras de consonância e dissonâncias. Tal processo, neste sentido, é

144 “A melodia incorporou nela mesma o harmônico como sua base não apenas universal, mas em si mesma determinada e particularizada, e em vez de perder desse modo a liberdade de seu movimento, ganhou primeiramente para o mesmo a força e determinidade análogas que o organismo humano alcança por meio da firme estrutura óssea, a qual somente elimina posições e movimentos inapropriados; aos movimentos adequados, ao contrário, dá sustentação e segurança.” (Est, III, p. 328)

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dialético. Como afirma Hegel nos Princípios da filosofia do Direito, “o domínio do direito é o espírito em geral; aí, a sua base própria, o seu ponto de partida está na vontade livre, de tal modo que a liberdade constitui sua substância” (HEGEL, 1997, p. 12). Pensaremos a relação entre as leis da harmonia e a melodia livre a partir do conceito de liberdade de sua filosofia do Direito.

Trata-se da liberdade da vontade: a natureza de ambas só se deduz na correlação com o todo. A fantasia da melodia está na liberdade da vontade. Sendo o espírito inteligente,

as determinações através das quais, pela representação, efetua o seu desenvolvimento desde o sentimento até o pensamento, são as jornadas para alcançar produzir-se como vontade, que, enquanto espírito prático em geral, é a verdade próxima da inteligência. (HEGEL, 1997b, p.12)

É pela vontade da consciência refletida em cada um que podemos “determinar a si mesmo, de dar a si mesmo” (Ibidem, p. 13). Uma liberdade negativa ou do intelecto é a fuga de todo conteúdo e de toda restrição. Não caminham juntos pensamentos e vontade. “É a liberdade do vazio” (Ibidem, p. 14), pura paixão, representação abstrata, fúria destruidora. Busca-se o particular contido no universal, em que o segundo está contido no primeiro. Nesse sentido, a melodia, por mais tensões que crie, estará contida nesse todo, sendo ela manifestação daquele. O eu ilimitado é tomado apenas como positivo. O Eu abstrato, para si, deve ser o verdadeiro. Hegel o vê já em Kant e Fichte, sendo a limitação própria do si. Para Hegel, a questão é a imanência do universal, questão do dualismo, em que a vontade faz essa ligação. O particular, quando reflete sobre si mesmo, torna-se individualidade. A autodeterminação do Eu consiste no situar-se a si mesmo no negativo – é determinar o limitado. “O Eu determina-se enquanto é relação de negatividade consigo mesmo.” (Ibidem, p. 16) A melodia em relação às leis “concebe-se como pura virtualidade à qual não se prende, mas onde se encontra porque ela mesma lá se colocou” (Ibidem, p. 16).

“Tal é a liberdade que constitui o conceito ou substância ou, por assim dizer, a gravidade da vontade, pois do mesmo modo a gravidade constitui a substância dos corpos.” (Ibidem, p. 16) A melodia é um particular que tem certo fim. Todo verdadeiro é concreto. “É o universal que tem no particular seu oposto, mas num particular que, graças à reflexão que em si mesmo faz, está em concordância com o universal.” (Ibidem, p. 16) Para o autor, tal nível de especulação é de caráter lógico, é uma questão de determinação da vontade. O

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conteúdo da vontade se torna seu fim. Só no conceito a vontade é livre. Só assim torna-se para si o que era em si.145

Sendo a música criação do espírito, aqui entendemos a vontade livre da melodia enquanto vontade livre do compositor diante das leis da harmonia. Hegel vê liberdade no melódico, mas ele não pode se perder, ou seja, é preciso haver um caminho a ser seguido. Mesmo nessa liberdade de não se prender a um campo harmônico único, ele modula, cria tensões, porém é necessário o retorno a si mesmo. Essa infinita capacidade de determinação e de possibilidades no movimento progressivo dos sons do melódico não tira dele a necessidade de um todo fechado. Essa totalidade e riqueza de sons com progressos e multiplicidade não permite ao melódico perder-se de um início e um fim, sendo dada mais liberdade ao meio. Esse todo tem que ser acabado. O início é retomado no fim.

Para Hegel, a liberdade da melodia não é um caminhar para o indeterminado, esse todo “é em si mesmo articulado e retorna a si mesmo, a melodia corresponde ao ser-junto-a-si- mesmo livre da subjetividade, de quem deve ser a expressão” (Est, III, p. 319). Ela expressa a subjetividade nos sons que são articulados em um todo acabado. A melodia pode sofrer várias modulações, como em uma sonata, mas há o retorno ao tom inicial. A melodia não precisa ficar presa a um tom e pode perfeitamente criar dissonâncias, mas tem de resolvê-las.146 Só assim, para Hegel,

a música – em seu elemento peculiar da interioridade, que se torna imediatamente exteriorização, e da exteriorização, que se torna imediatamente interior – exerce a idealidade e a liberdade que, ao obedecerem ao mesmo tempo a necessidade harmônica, situam a alma na percepção de uma esfera mais elevada. (Ibidem, p. 318)

A melodia, sendo ideal e livre, não deixa de obedecer às leis da harmonia, mesmo que as melodias tenham um alto grau de liberdade dentro das tonalidades.147 Esse alto grau talvez

145 Em um terceiro momento, no tópico alfa, em cada melodia, o melódico, o cantábile, “seja em que espécie de música for, deve mostrar-se como que é predominante, independente, que na riqueza de sua expressão não se esquece e não se perde. Segundo este lado, a melodia é na verdade a infinita capacidade de determinação e a possibilidade no movimento progressivo de sons, os quais, porém devem ser conduzidos de modo que sempre um todo em si mesmo total e fechado permaneça diante dos nossos sentidos. Este todo contém certamente uma multiplicidade e tem em si mesmo um progresso, mas uma totalidade deve ser em si mesmo firmemente acabado e necessita nesta medida de um início e término determinados, de sorte que o centro é apenas a mediação daquele início e deste fim” (Est, III, p. 318).

146 Esse início e fim bem definidos da melodia nos dá mais ferramentas para entendermos melhor toda questão levantada por Olivier sobre a dialética de Hegel e a forma sonata de Beethoven.

147 “A distinção entre uma modulação transitória e uma harmonia cromática é sempre tênue; em geral apenas as modulações firmemente estabelecidas levam a análise a ser apreciada em termos de uma tonalidade diferente. Entre os acordes relacionados com outra tonalidade, é usado, então, o termo região. Assim, a referência à região

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chegou ao seu ápice para a época de Hegel com a Grande Fuga – Opus 133 de Beethoven, onde esse retorno a si mesmo inicia sua relativização:148 processo histórico, por sua vez, que deságua em Schoenberg.

Portanto, é através da ideia de forma musical que o compositor trará para o efetivo todas essas questões musicais aqui discutidas por Hegel. Para Schoenberg, “o compositor, ao escrever uma peça, não junta pedacinhos uns aos outros, [...] mas concebe a composição em sua totalidade como uma visão espontânea; só então é que inicia a elaboração” (SCHOENBERG, 2008, p. 28). Ele tem que preencher os requisitos da lógica, coerência e compreensibilidade, as necessidades de contrastes, variações e fluência de apresentação. Assim, a forma musical é um todo acabado e pensado. “Em um sentido estético, o termo forma significa que a peça é ‘organizada’. Isto é, que ela está constituída de elementos que funcionam tal como um organismo vivo.” (Ibidem, p. 27) Para ele, sem organização, a música seria uma “massa amorfa, tão ininteligível quanto um ensaio sem pontuação, ou tão desconexa quanto um diálogo que saltasse despropositadamente de um argumento a outro” (Ibidem, p. 27).

Figura 12 - Noturno em D - K. 286 para quatro orquestras

de tônica menor, ou à região de subdominante menor, indica o uso temporário de acordes derivados da tonalidade correspondente, mas sem que haja a ocorrência de um completo estabelecimento de um tom através de uma cadência.” (SCHOENBERG, 2008, p. 24)

148 “O afastamento frequente da região de tônica para outras regiões mais ou menos estranhas parecia obstruir a unidade e a inteligibilidade. Entretanto, mesmo a mente mais avançada estará sempre sujeita às limitações humanas, e os compositores daquele período (romântico), sentindo instintivamente o perigo da incoerência, contrabalancearam a tensão de um plano (a harmonia complexa) pela simplificação de um outro plano (a construção motívica e rítmica). Isto talvez explique as repetições e as freqüências de Wagner, Bruckenr, Debussy, César Franck, Tchaikovsky, Sibelius, e muitos outros. Para os contemporâneos Gustav Mahler, Max Reger, Richard Strauss, Maurice Ravel, etc., a harmonia complexa não colocava em risco a compreensibilidade.” (SCHOENBERG, 2008, p. 58)

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Percebemos acima, no Noturno em D – K. 286 para quatro orquestras, de Mozart, a independência da melodia em relação ao acompanhamento, sem deixar de seguir as leis da necessidade harmônica. Há uma independência rítmica em relação às outras vozes. A melodia principal soará como a alma livre da música.

A melodia principal está no violino 1. O violino 2, a viola e o violoncelo estão na função de harmonia, juntamente com o corni em D na primeira pauta. A melodia move-se de uma forma mais independente das outras vozes.

A tonalidade é Ré maior. No quarto compasso, há a presença dos arpejos do acorde: o violoncelo Ré (I), a viola Ré e Fá# (III), o violino 2 Fá#, Lá (III) e o corni F (III). Há a presença dos arpejos do acorde. A melodia do violino 1 está em Lá e Ré, que são notas do arpejo, mas seu movimento é de total liberdade, cantábile. O quinto compasso é um acorde de tensão, a melodia caminha descendente de Ré a Si, havendo um repouso em Dó# (I). A harmonia é de Dó# meio diminuto, pois temos a sétima menor Si (VII) e não a sexta. No sexto compasso, a melodia repousa em Lá (I), que será a tônica, formando um acorde de Lá maior, violoncelo e viola Mi (V), violino 2 Mi e Sol (VII), que caracteriza a sétima, dando ao acorde um caráter de dominante. No sétimo compasso, no primeiro tempo, a melodia principal do violino 1 é Lá (III) e Sol (II), forma-se um acorde de Fá# menor, o violoncelo e viola Dó# (V), o violino 2 Fá# (I) e Mi. No segundo tempo do sétimo compasso, a melodia resolve-se em Fá#, caracterizando a terça do acorde de tônica Ré (I), o violoncelo Lá (V), viola Dó# (VII M), o violino 2 Ré (I) e o corni Fá# (III).

Nesses breves compassos do Noturno de Mozart, percebemos um exemplo de uma melodia como espírito livre, mas que, ao mesmo tempo, não deixa de estar segundo as leis da necessidade, o que bem caracteriza a alma livre da música em equilíbrio entre a liberdade e a necessidade. Com relação às contradições levadas ao extremo, temos em Beethoven um exemplo, mas como já dito, Hegel não cita o compositor.

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3.5. A Relação dos meios de expressão musical com o seu conteúdo: sobre qual conteúdo deve alcançar na música uma expressão adequada à arte

Em que medida a música ganha sua autonomia? A questão, neste ponto, é a relação da música com a palavra. Aqui também perguntamos sobre que tipo de texto é ideal para a música e sobre os gêneros.

Na relação dos meios de expressão musical com seu conteúdo, o autor observa que a música pode ser de dois tipos, a saber, a música de acompanhamento (vocal) e a instrumental. O primeiro se dá quando o seu conteúdo espiritual não é só apreendido na interioridade abstrata, sentimento subjetivo, e sim quando a representação apreendida é pela voz humana, que expressa cantando ao mesmo tempo palavras que indicam um conteúdo determinado. É a palavra cantada. O segundo ocorre quando a música se torna autonoma via melodias e elaborações harmônicas.149 Não apreendendo o conteúdo do mesmo modo que o texto, a música pode apreender o texto segundo o seu significado ideal ou segundo sua subjetividade do sentimento.

Cabe ao ouvinte vivenciar no mais interior o sentimento da obra, fazer a obra ser percebida nele mesmo. Assim também deve ser o ânimo do compositor. É o subjetivo do sentimento que acompanha o todo fazer dos homens. É o seu interior subjetivo que nos toca. A voz fala palavras articuladas para a representação. A execução cabe a um intérprete. Em sua época, o elemento do virtuosismo estava em alta com Paganini,150 como também a música vocal com Rossini.

149 O ouvinte não deve aqui intuir uma dor, como o da crucificação, não deve formar uma representação universal disso, e sim deve vivenciar “em seu mais interior si-mesmo” essa dor, mergulhar nisso com todo o ânimo. A coisa tem que ser percebida nele mesmo. Ele tem que, ao ouvir, mergulhar na obra. Hegel dá como exemplo o Crucifixus como música, e aqui citamos também o Requiem de Mozart. (Est, III, p. 320)

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“Particularmente nesta relação se apresentaram atualmente dois milagres na música – bem como já na época da ópera italiana mais antiga [...] um milagre relativo à concepção , outro relativo à genialidade virtuosa na execução, em consideração às quais se ampliou sempre mais, também para os maiores conhecedores, o conceito do que é a música e o que ela é capaz de fazer.” (Ibidem, p. 322) A música instrumental citada por Hegel é Mozart, mas é Beethoven, seu contemporâneo, quem torna a composição mais erudita, dando movimento à concepção musical.

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