1. LIBERDADE DE EXPRESSÃO
1.3 A Liberdade de expressão e seus limites
1.3.2 Liberdade de Expressão e conflitos aparentes
As normas constitucionais propõem ao sistema normativo uma série de finalidades que, idealmente, se demonstrariam harmônicas. Em seu aspecto estrutural, contudo, as normas podem ser classificadas como regras ou princípios, conforme explicam dois dos principais autores sobre o tema, Robert Alexy e Ronald Dwrokin.
Para este último, Ronald Dworkin, tanto princípio normativo quanto regra estabelecem obrigações jurídicas, sendo, assim, semelhantes. Sua diferenciação está no modo de aplicação: “dados os fatos que uma regra estipula ocorrem, então ou a regra é válida, e neste caso a resposta que ela fornece deve ser aceita, ou não é válida, e neste caso em nada contribui para a decisão.”71
Alexy segue um pensamento semelhante ao defender que a solução de conflitos entre regras é tornando uma delas a exceção da outra ou declarando a invalidade de alguma delas.72 Para o filósofo, todavia, regras seriam normas em caráter literal, enquanto que os direitos fundamentais corresponderiam aos princípios. A resolução de conflitos entre princípios para Dworkin, contudo, se dá de modo diferente, ao passo que os princípios teriam uma dimensão de peso ausente às regras, o que possibilitaria uma interferência entre eles. O conflito entre princípio seria mediante a consideração do peso de cada um.73
Contudo, na visão de Alexy, princípios são apenas comandos de otimização e devem ser aplicados no máximo permitido em cada situação em que se situam factualmente:
Já quando os princípios se contrapõem em um caso concreto, há que se apurar o peso (nisso consistindo a ponderação) que apresentam nesse mesmo caso, tendo presente que, se apreciados em abstrato, nenhum desses princípios em choque ostenta primazia definitiva sobre o outro.74
71 DWORKIN, Ronald. Levando os direitos a sério. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2002, p. 39. 72 ALEXY, Robert. Sobre a estrutura dos princípios jurídicos. Revista Internacional de Direito
Tributário, Belo Horizonte, v. 3, n. 1, p.155-167, jun. 2005, p. 157.
73 DWORKIN, 2002, p. 42. 74 MENDES; BRANCO, p. 75.
Manoel Gonçalves concorda com o posicionamento de Alexy e sua resolução de conflitos baseada na ponderação de valores75. Contudo admite que “este [critério do peso] presume uma valoração – qual o princípio mais importante -, o que é sempre arbitrário e discutível, já que a Constituição não estabelece tal escala.”76
Um grande crítico à regra de ponderação de Alexy foi Jürgen Habermas, que em sua obra reportou perfeitamente o perigo que a ponderação de valores gera para a sociedade:
Essa interpretação vem ao encontro do discurso da “ponderação de valores”, corrente entre juristas, o qual, no entanto, é frouxo. Quando princípios colocam um valor, que deve ser realizado de modo otimizado e quando a medida de preenchimento desse mandamento de otimização não pode ser extraído da própria norma, a aplicação de tais princípios no quadro do que é faticamente possível impõe uma ponderação orientada por um fim. E, uma vez que nenhum valor pode pretender uma primazia incondicional perante outros valores, a interpretação ponderada do direito vigente se transforma uma realização concretizadora de valores.77
Habermas deixa claro, com o afastamento da ponderação de valores, que tanto as regras enquanto normas, quanto os princípios enquanto mandamentos possuem o caráter de obrigação. O jurista nega o caráter teleológico dos princípios e regras sob a argumentação de que isto retiraria sua validade deontológica. Sendo assim, os direitos fundamentais, tidos como princípios ou normas de caráter elevado, não podem ser confundidos com valores, como o faz Alexy.
Este também é o posicionamento de Friederich Müller:
Os direitos fundamentais são normas, não «valores»; eles não são privilégios, mas direitos iguais; eles não são «exceções» de ou «lacunas» no poder de estado. Muito pelo contrário, eles constituem autorizações (Ermächtigungen) ativas das pessoas, dos cidadãos. Eles fundamentam normativamente uma sociedade, à medida que ela é livre e pluralista, e um estado, à medida que ele é democrático.78
75 “Numa análise de abrangência, os princípios seriam normas jurídicas, sim, mas generalíssimas, tanto
na sua hipótese quanto no seu dispositivo. Por isso, a sua diferenciação seria uma questão de grau de generalidade.” (FERREIRA FILHO, Manoel Gonçalves. Curso de direitos constitucional. 38 ed. São
Paulo: Saraiva, 2012, p. 422.) 76 FERREIRA FILHO, 2012, p. 425.
77 HABERMAS, Jürgen. Direito e Democracia: Entre facticidade e validade. Vol. I e II. Rio de
Janeiro: Tempo Brasileiro, 1997, p. 315.
78 MÜLLER, Friedrich. Teoría moderna interpretado dos direitos fundamentáis. Especialmente
com base na teoría estruturante do direito. Anuario Iberoamericano de Justicia Constitucional,
Ao permitir que o julgador utilize valores de sua preferência, o judiciário acaba por classificar determinados direitos fundamentais como mais atrativos do que outros, criando uma insegurança jurídica permeada por políticas e filosofias momentâneas sob o pretexto de “proporcionalidade dos princípios”.
Ao reinterpretar arrojadamente os direitos fundamentais em decisões de ponderação de princípios, aqueles perdem o caráter que ganharam pelo Poder Constituinte de norma constitucional e passam a formar uma ordem de valores, “que liga a justiça e as legislações à eticidade substancial de uma determinada forma de vida”.79
O autor John Hart Ely também se posiciona contrariamente à doutrina de ponderação de valores. Ele atenta tanto para o risco de enrijecer o valor protegido pelo princípio, quanto para a ausência de representatividade das vozes da minoria, ferindo completamente o fundamento da democracia.
O problema está nos métodos propostos, que trabalham descomedidamente com juízos morais, a partir de supostos valores constitucionais. O que essas correntes trazem, na realidade, é a ideia de que o Direito pode ser trabalhado por meio de uma filosofia moral, axiológica, e que os juízes estão aptos a emitir juízos adequados e racionais sobre esses valores constitucionais.80
Encontra-se na proposta de Habermas uma resolução mais segura aos direitos fundamentais, sem necessidade de análise dos seus custos e vantagens. O autor compreende que cada norma possui seu local de aplicação dentro do sistema. Assim, as situações de conflito entre os princípios possuem apenas uma solução correta.
Os direitos fundamentais, ao contrário, ao serem levados a sério em seu sentido deontológico, não caem sob uma análise dos custos e vantagens. (...) No caso de colidirem com outras prescrições judicias, não há necessidade de uma decisão para saber em que medida valores concorrentes são realizados. Como foi mostrado, a tarefa consiste, ao invés disso, em encontrar entre as normas aplicáveis prima facie aquela que se adapta melhor à situação de aplicação descrita de modo possivelmente exaustivo e sob todos os pontos de vista relevantes.81
Importa colocar que Alexy respondeu às críticas de Habermas em prefácio de sua obra, afirmando que, dada a expansividade de tema, não é possível tratar de todos
79 HABERMAS, 1997, p. 320.
80 ELY, John Hart. Democracia e desconfiança: uma teoria do controle judicial de
constitucionalidade. São Paulo: Martins Fontes, 2010, p. 75.
os casos que dele derivam. Todavia, se a solução apresentada pelo pensador se demonstrar apta a resolver as situações elencadas, não há motivo para questionar sua aplicação em demais casos82.
Compreende-se a defesa de Alexy um tanto fraca, compreendendo a solução apresentada por Habermas mais consciente e eficaz. Sendo assim, situações tratadas como conflitos entre direitos fundamentais em realidade são apenas conflitos aparentes, devendo ser constatada a conduta que se encontra fora do âmbito de proteção dado ao direito fundamental.
A partir das constatações feitas, fica clara a incompatibilidade entre direitos fundamentais e a regra de ponderação de valores de Alexy. Assim, nos casos de aparente conflito entre a liberdade de expressão e outro direito fundamental constitucional, deve-se realizar uma análise e apontar qual princípio relaciona-se com a situação.