• Nenhum resultado encontrado

3 ONTOLOGIA DA LIBERDADE

3.4 Liberdade e facticidade

Qual o lugar da construção do humano? O mundo! Portanto, não existe liberdade fora de seus limites. A liberdade não pode ser desengajada. Muito pelo contrário, exige um mundo e uma condição para existir. A liberdade não é uma abstração ou uma ideia, mas, uma realidade que compõe o humano, que por sua vez, está inserido num mundo já dado, encontrado: “nasço operário, francês, sifilítico hereditário ou tuberculoso” (SN, p. 593). Por essa razão, não poderia existir uma liberdade alienada de seu mundo, embora possa existir o

mascaramento da liberdade pela má-fé, o que são coisas distintas. A liberdade é o ser mesmo do homem, como escreve Luijpen: “A liberdade de que falamos refere-se ao ser do homem no próprio nível do ser homem. O ser do homem como sujeito é ser-livre. Somente com base nessa ideia é que se podem entender a liberdade da ação humana e os vários significados admitidos na literatura filosófica dos nossos dias” (LUIJPEN, 1973, p. 186).

Como fica a questão da liberdade em Sartre, pois, se ele afirma que o homem é livre em toda e qualquer situação, se ele faz uma crítica a todo tipo de determinismo, diferenciando radicalmente o homem das coisas, como aceitar a participação da totalidade das coisas do mundo, ou de uma existência exterior e anterior ao homem, e de situações culturais que parecem determinar a liberdade da realidade humana? Que tipo de liberdade é esta? Sabemos que ela não é um estado intocado no sentido de estar acima da realidade dada, ela precisa do mundo concretamente para manifestar-se. Mas, posta nesses termos, será que podemos ainda falar em liberdade? E ainda mais em liberdade absoluta? De acordo com Clea Gois e Silva, como vimos acima, isso é possível e viável. É o que veremos também a partir do que Sartre e os existencialismos chamam de facticidade em sua relação com a liberdade.

A liberdade em Sartre pode ser dita como liberdade “condicionada” e essa afirmação não se contrapõe a assertiva de que a liberdade, para ele, seja absoluta; é absoluta porque só pode ser vivida pelo homem, enquanto subjetividade e consciência. É condicionada pelo simples fato de que, a liberdade só é possível em situação, ou seja, só é possível existir em um mundo concreto, no qual existimos e somos ao modo de não-ser. Entretanto, “mais do que parece “fazer-se”, o homem parece “ser feito” pelo clima e a terra, a raça, a classe, a língua, a história da coletividade da qual participa, a hereditariedade, as circunstâncias individuais de sua infância, os hábitos adquiridos, os grandes e pequenos acontecimentos de sua vida” (SN, p. 593). Avançando em relação ao mundo que encontramos, com seus limites a priori, Sartre formulará seu pensamento sobre a relação entre a liberdade que é um ser por-se-fazer, com o mundo já dado, fora do qual a liberdade enquanto vivência é impossível.

A fenomenologia existencial abordará bem essa questão, primeiramente afirmando incondicionalmente a diferença radical do homem em relação às coisas: o homem é subjetividade, e por isso, não é o resultado de um processo dado, científico, é por ele que as coisas existem, ou que a ciência é construída, porque, junto com sua liberdade surge a significação e a construção do mundo. Há algo no ser do homem que o indica como radicalmente diferente das demais coisas. Como um dos exemplos, temos a consciência

intencional, a partir da qual sua liberdade se afirma, pois, ao contrário do ser-dado, só no homem podemos encontrar a capacidade de significação do mundo bruto. Uma pedra não pode dar significação a outra pedra ou à árvore da qual está próxima, nem a floresta na qual se encontra. Mas o homem pode dizer por sua subjetividade livre o que significa essa natureza na qual encontra pedras, árvores e animais e o que ele mesmo significa.

Por isso, uma subjetividade livre só surge “na facticidade do corpo e mundo, com os quais não se identifica” (LUIJPEN, 1973, p. 189), mas que significa. Posta nestes termos e contrapondo-se ao pensamento de Sartre, talvez por não ter entendido muito bem ou levado as palavras ao exagero de uma interpretação dogmática, Luijpen coloca que “não ocorre uma liberdade absoluta entre os homens” (idem. p. 189). Concordo com ele que toda liberdade é em certo sentido relativa, mas o que Sartre quis afirmar estabelecendo que a liberdade é absoluta, é que ela só tem sentido para o homem em situação, dono de sua liberdade, ou aquele que vive a experiência da liberdade. Ela é absoluta porque nenhum homem escapará jamais de sua própria liberdade. “Sou” no mundo e isto é um fato, mas o modo como “sou” no mundo é liberdade e só se pode vivê-la individualmente. Ainda mais que no existencialismo sartriano o homem não é livre sem conseqüências, ele é totalmente responsável por sua liberdade e nenhum outro pode ser responsável em seu lugar 66. A liberdade então, conserva sua característica de ser absoluta embora a relatividade possa ser colocada em outros termos, expressos pelo próprio Luijpen quando escreve que “a autonomia entitativa do sujeito que é o homem, portanto, é apenas muito relativa, porque não é simplesmente o que é sem o corpo e sem o mundo” (Ibidem. p. 189), contudo, é em um mundo pré-existente, que o homem realiza e vive sua liberdade absoluta, pelo simples fato de que a significação deste só é dada por ele. Mesmo quando a pessoa de outrem figura, cabe ao indivíduo livre o posicionamento final, a construção singular e particular de si mesmo.

Quando Sartre afirma que o homem é absolutamente livre, quer dizer que ele o é em toda e qualquer situação. Essa afirmação contundente e categórica é seu modo de contrapor-se radicalmente aos determinismos: “esta discussão mostra que são possíveis duas e somente duas soluções: ou bem o homem é inteiramente determinado 67 [...] ou bem o homem é

66

A esse respeito podemos nos perguntar como fica a liberdade dos menores de idade, ou daqueles que estão incapacitados de exercer sua liberdade por problemas variados e típicos, como por exemplo, um retardamento mental? Simone de Beauvoir resolve essa questão dizendo que a liberdade, em uma criança, ou débil mental, por exemplo, é desengajada, porque ambos não compreendem os alcances da responsabilidade pela própria liberdade. Decorre disso que, a liberdade se engaja por sua responsabilidade.

67 Sartre rejeita, com razão, o determinismo das correntes psicológicas, pois, de acordo com ele “é inadmissível,

inteiramente livre” (SN, p. 547) e responsável por sua escolha. Mas como afirmar sua liberdade nesses termos e reconhecer ao mesmo tempo uma situação histórica, concreta, construída? Sartre parece não ter nenhum problema em resolver esse impasse.

Em um mundo já constituído, é a liberdade da consciência em posicionar-se que consistirá no aspecto primordial da liberdade. Já vimos isso acima, em outra parte. Entretanto, quando levamos em consideração o mundo e seu conjunto de limites, a liberdade nos parece uma ilusão. Apresentando ao homem a possibilidade de escolha, resolve-se esta questão. Precisamos do mundo constituído, assim como precisamos da delimitação dos arredores, da temporalidade, dos Outros e da própria morte, pois, é necessária a existência de um dado sobre o qual poderemos, enquanto liberdade que somos fazer uma escolha; posicionarmo-nos em relação ao Todo. É este ato de escolher que resolverá facilmente a questão que nos punha em aporia, a saber: a relatividade da liberdade. Não posso escolher do nada para o nada, no sentido de que, preciso de uma situação concreta para engajar minha escolha e engajar esta escolha é assumir minha inteira responsabilidade por ela. Isso é liberdade! É sua ação própria. No próximo capítulo uma palavra sobre a liberdade e a ética será colocada para nos situar melhor na dimensão da escolha humana que sendo liberdade é engajamento, e assim, atinge em cheio uma vivência ética, que envolve relações entre homens, e escolhas que atingem a vida de todas as pessoas. A partir dessas relações a pergunta pelo valor, e pelo agir humano se interpõe, afinal, que escolha deve ser a escolha humana afim de que ela seja considerada um valor? É o que tentaremos explicar no próximo capítulo.

exterioridade ela mesma e deixa de ser consciência” (EN, 1997, p. 547). Veja-se em contraposição a isso o pragmatismo de John Dewey que prega que a liberdade é a capacidade de se formular proposições e levá-las a efeito. No caso, a liberdade passa pelo crivo da razão, como mediadora entre o pensamento e a ação livre. Para Sartre ainda, a razão age na liberdade quando a afeta de responsabilidade pelos atos praticados.