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Liberdade e Responsabilidade Social

4 DOUTRINAS E CONCEITOS TEOLÓGICOS

4.5 Liberdade e Responsabilidade Social

J Calvino pertence ao movimento religioso do início do século XVI denominado Reforma Protestante, em que cumpriu papel de liderança junto a outros expoentes, como Martinho Lutero e Ulrico Zuínglio. (Mcgrath, Alister. Teologia sistemática, histórica e filosófica. São Paulo. Sheed Publicações, 2005, p. 953). Quando em 31 de outubro de 1517 Lutero afixou suas 95 teses em Wittenberg, sua reprovação referia-se à venda de indulgências enquanto garantia do perdão dos pecados diante de Deus, prática então sustentada pela Igreja Católica Romana.

A proposta de uma revisão da doutrina referente ao perdão de pecados fez-se amplo embate religioso e social, que trouxe à luz todo um sistema de doutrinas e práticas da então Igreja Cristã oficial, considerados contrários à orientação da Bíblia. Isto porque a Reforma representou a recuperação dos textos do Antigo e Novo Testamento enquanto única verdade revelada de Deus aos homens, o que em contraste às instruções religiosas da Igreja Romana, iluminava as diferenças entre orientações protestantes e católicas. (Herminsten, Maia da Costa. Raízes da Teologia Contemporânea. São Paulo: Cultura Cristã, 2004, p. 78)

A doutrina da Justificação pela fé, ofertada no evangelho de Jesus ao fiel, torna-se ensino essencial de Lutero; revelando ao homem a Graça salvadora em Cristo, sem necessidade de que haja intermediação institucional ou humana

para o relacionamento com Deus. Segundo Alister McGrath, para Lutero, "a igreja havia se tornado a senhora do evangelho, quando deveria ser sua serva. (...) Lutero trata esse aspecto com mais profundidade na obra The Liberty of a Christian (Da liberdade do cristão), em que explora as consequências da doutrina da justificação pela fé para a vida cristã." (2005, p. 102).

Somente a Fé, a Graça, a Escritura, Cristo e, somente a Deus, a Glória; serão as crenças bíblicas fundamentais da Reforma Protestante que irão gerar profunda transformação no relacionamento do homem com Deus; e por conseqüência, do homem para com o homem, e, assim perante todo o mundo. Ao crer na promessa da Palavra de Deus, de que em Cristo o homem é perdoado pela Graça, e assim capacitado a um relacionamento com Deus, no propósito de vivenciar a existência humana junto do Criador; sendo tudo isto uma obra de Deus para com o homem - Soli Deo Gloria – apresenta-se ao homem do século XVI perspectiva religiosa há muito esquecida: a possibilidade de um relacionamento pessoal perante Deus.

Esta Liberdade Cristã na perspectiva reformada enquanto uma oportunidade de relacionamento direto do homem com a Pessoa do Criador, irá desenvolver tantas transformações na vida humana individual e social quanto o potencial de um encontro objetivo entre Deus e os homens pode sugerir. Analisando em sua obra A Força Oculta dos Protestantes, transformações sociais geradas pela Reforma, em comentário acerca da ação revolucionária que iria desencadear na história, a possibilidade deste relacionamento pessoal do homem com Deus, Biéler cita declaração do historiador protestante Marc Boegner:

"Se, no limiar dos tempos modernos, a Europa sofreu um abalo cujos efeitos estão longe de serem exauridos, é porque a consciência dos homens sofreu um drama espiritual, do qual saiu tendo encontrado, numa completa dependência para com Deus, o segredo de uma liberdade moral, da qual deviam nascer todas as liberdades modernas." (1999, p. 51)

Lutero irá enfatizar em suas reflexões a preocupação pessoal e primeira de um perdão pessoal e da solução da culpa que atormenta o pecador. Os reformadores a partir dele irão observar as consequências desta liberdade cristã do pecado e da instituição mediadora, a partir do que transformam nas relações do cristão na sociedade. (Biéler, André. A Força Oculta dos Protestantes. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1999, p. 55). Calvino irá desenvolver esta perspectiva como nenhum outro teólogo reformado. Sua diferença de proposta diante de Lutero a respeito do tema não exclui o singular valor de ambas as proposições: "Lutero insiste sobre a conversão e a vida nova que provém da comunhão com o Cristo. Calvino sublinha e desenvolve as consequências dessa renovação para a permanência de uma vida harmoniosa dos indivíduos e da sociedade." (BIÉLER, 1999, p. 56)

Enquanto teólogo que desenvolve esta liberdade relacional do homem à Pessoa de Deus, Calvino irá propor ao cristão o desenvolvimento da relação religiosa perante toda sua existência. A liberdade de relacionamento pessoal com Deus também transfere ao homem a responsabilidade de bem evidenciar os frutos deste encontro em toda sua existência.

Biéler: "Um dos primeiros ensinamentos evangélicos exaltados pela Reforma, que mais transtornou a condição humana com relação às concepções da Idade Média, é a proclamação de que um chamamento individual é endereçado por Deus a cada indivíduo (...) o que faz de cada indivíduo uma pessoa única e inteiramente responsável por si própria". (1999, p. 51)

O propósito de Calvino não é outro senão orientar ao homem as perspectivas de oportunidade e desafio que a verdade evangélica da renovação do relacionamento entre Deus e o homem vêm oportunizar. Enquanto indica ao indivíduo as possibilidades de restauração e transformação de toda sua vida, (Biéler, André. A Força Oculta dos Protestantes. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1999, p. 51) esta liberdade relacional para com Deus gera ao cristão protestante, especificamente, a oportunidade de perceber e declarar ética distinta à religiosidade comum à época. Pois a resposta do homem ao chamado do Criador em Cristo precisa ocorrer em coerência ao desafio e, também, à oportunidade de viver sua vida toda face a face com Deus. Uma liberdade do evangelho que gera uma responsabilidade: a definição e prática de uma ética cristã para toda conduta do fiel cristão protestante.

Calvino fará surgir seu gênio teológico impar e definir sua liderança enquanto transformador social da Reforma, exatamente neste momento de unir os ensinos da Palavra de Deus ao contexto social do homem. Isto ele realiza ao bem perceber o ser histórico e social enquanto envolto nas dimensões individuais e

comunitárias inerentes à sua existência, promovendo uma orientação teológica que orienta, em objetividade e clareza, a sociedade de seu tempo na complexa tarefa de bem relacionar tudo que acontece à verdade de Deus.

Enquanto pessoa que busca realizar-se junto de Deus na liberdade do evangelho de Cristo, o cristão descobre nas reflexões de J. Calvino orientação animadora, pois traduz o desafio e também a oportunidade de responder ao chamado do Criador em todas as esferas de sua vida. Tudo lhe será então possível de edificar diante de Deus, empreendendo sua existência debaixo de supremo propósito supremo - A Glória de Deus.

"Na revolução Francesa uma liberdade civil para todo cristão concordar com a maioria incrédula; no calvinismo, uma liberdade de consciência, que habilita cada homem a servir a Deus segundo sua própria convicção e os ditames de seu próprio coração" (KUYPER, apud MÁSPOLI, 2005, p. 33)

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