manifestação – o escolanovismo, o construtivismo e as idéias contidas no Relatório Jacques Delors – embora estejam articuladas ao discurso da novidade e da constituição de uma nova sociedade, são idéias que colaboram para a adaptação da escola e dos indivíduos, ao sistema capitalista. Idéias que contribuem para a conservação das desigualdades sociais no interior da escola universalizada. Enraizada no universo epistemológico do pensamento liberal, a Progressão Continuada vem ao encontro da naturalização das diferenças no contexto amplo da sociedade, da segmentação dos sistemas educativos, face às desigualdades regionais do país, da promoção do analfabetismo escolarizado e da individualização do fracasso escolar. Iniciaremos o capítulo resgatando nos princípios de liberdade e igualdade do ideário liberal as bases sobre as quais repousam as diferentes manifestações desse ideário que se constituiu no referencial teórico-prático para a constituição da escola pública brasileira e do mecanismo da Progressão Continuada.
1. Liberdade e igualdade
Considerado de difícil conceituação tanto pela sua história, quanto pela sua abrangência e perspicácia, o liberalismo em sua acepção clássica consubstancia-se na luta contra os abusos de poder e na defesa dos direitos de liberdade e igualdade. Embora tenha surgido como inimiga dos privilégios, a universalidade que a liberdade e a igualdade pretendiam alcançar acabou promovendo a desigualdade social e revelando privilégios de classes.
[...] Quase desde o primeiro momento da sua história, almejou limitar o âmbito da autoridade política, confinar os negócios do governo ao quadro
dos princípios constitucionais e, portanto, tentou sistematicamente descobrir um sistema de direitos fundamentais que o Estado não fosse autorizado a violar. Porém, ainda uma vez, em sua prática desses direitos, o liberalismo foi mais solícito e mais engenhoso em exercê-los para defender os interesses da propriedade do que para proteger, como pretende aos seus benefícios, o homem que nada mais possuía senão sua força de trabalho para vender [...] Sempre viu com maus olhos e desconfiança o controle sobre o pensamento e, na verdade, todo e qualquer esforço da autoridade do governo para impedir a livre atividade do indivíduo (Laski, 1973, p. 11).
Para a doutrina liberal cabe ao indivíduo perseguir livremente seu próprio objetivo e escolher seu próprio destino, ou sua própria maneira de ser no mundo, independentemente de qualquer autoridade que queira limitar-lhe as possibilidades.
O discurso liberal defende a liberdade, a igualdade e a propriedade dos indivíduos como direitos inalienáveis à vida e instituidores do Estado, instância garantidora desses direitos, portanto, das garantias de sobrevivência do homem. Contemplados na Declaração Universal dos Direitos do Homem proclamada pela ONU em 1949 - Todos os homens nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e consciência e devem agir em relação aos outros com espírito de fraternidade -, que, por sua vez foi tomada da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789, os princípios de liberdade, igualdade e fraternidade se sobrepuseram à ordem feudal centrada na igreja e no predomínio de privilégios, constituindo-se em fundamentação para a instituição do Estado neutro ou agnóstico no qual prevaleceria a livre iniciativa e o desenvolvimento da sociedade mercantil burguesa.
[...] o processo de formação do Estado liberal pode ser identificado com o progressivo alargamento da esfera de liberdade do indivíduo, diante dos poderes públicos [...], com a progressiva emancipação da sociedade
ou da sociedade civil, no sentido hegeliano e marxiano, em relação ao Estado. As duas principais esferas nas quais ocorre essa emancipação são a esfera religiosa ou em geral espiritual e a esfera econômica ou dos interesses materiais. Segundo a conhecida tese weberiana sobre as relações entre ética calvinista e espírito do capitalismo, os dois processos estão estreitamente ligados (Bobbio, 2005. p. 22).
No pensamento liberal o controle do poder e as limitações do papel do Estado são condições necessárias para a garantia da liberdade individual. Porém, na esfera econômica, o direito à igualdade e à liberdade revelam valores antitéticos, uma vez que não podem se realizar plenamente sem que um limite decisivamente o outro. Como afirma Bobbio:
Uma sociedade liberal-liberalista é inevitavelmente não-igualitária, assim como uma sociedade igualitária é inevitavelmente não-liberal. Libertarismo e igualitarismo fundam suas raízes em concepções do homem e da sociedade profundamente diversas: individualista, conflitualista e pluralista a liberal; totalizante, harmônica e monista a igualitária. Para o liberal, o fim principal é a expansão da personalidade individual, mesmo se o desenvolvimento da personalidade mais rica e dotada puder se afirmar em detrimento do desenvolvimento da personalidade mais pobre e menos dotada; para o igualitário, o fim principal é o desenvolvimento da comunidade em seu conjunto, mesmo que ao custo de diminuir a esfera de liberdade dos singulares (idem, p. 39).
Segundo o referido autor, a única forma de igualdade compatível com a liberdade entendida pela doutrina liberal é a igualdade na liberdade. “Cada um deve gozar de tanta liberdade quanto compatível com a liberdade dos outros, podendo fazer tudo o que não ofenda a igual liberdade dos outros” (idem, ibdem). Porém, para que o indivíduo disponha de certa liberdade de decisão e de ação é necessário, segundo
Vázquéz que ele intervenha conscientemente na realização de sua liberdade. Para que isto ocorra é necessário que sua decisão esteja baseada em razões, “é preciso que o seu comportamento se ache determinado causalmente; isto é, que existam causas e não meros antecedentes ou situações fortuitas. Liberdade e causalidade, portanto, não podem excluir-se reciprocamente” (Vázquéz, 1968, p. 109). Para a superação da antítese liberdade e causalidade, Vázquéz encontra na historicidade e na consciência da necessidade, referencial teórico de Marx e Engels, os elementos para esta superação.
A liberdade é, por conseguinte, a consciência histórica da necessidade. Mas para eles, [Marx e Engels] a liberdade não se reduz a isto; ou seja, a um conhecimento da necessidade que deixa intacto o mundo sujeito a essa necessidade. A liberdade do homem com relação à necessidade – e particularmente com a que vigora no mundo social – não se reduz a transformar a escravidão espontânea e cega numa escravidão consciente. A liberdade não é apenas assunto teórico, porque o conhecimento, por si só, não impede que o homem esteja sujeito passivamente à necessidade natural e social. A liberdade acarreta um poder, um domínio do homem sobre a natureza, e, por sua vez, sobre a sua própria natureza. Esta dupla afirmação do homem – que está na própria essência da liberdade – traz consigo uma transformação do mundo sobre a base de sua interpretação; ou seja, sobre a base do conhecimento de seus nexos causais, da necessidade que o rege (Idem p. 111).
Nesta perspectiva, o desenvolvimento da liberdade está ligado ao desenvolvimento do homem capaz de criar e transformar, do homem que transforma o mundo e transforma a si próprio, portanto, transcende ao mundo dado. Não basta ao homem ter consciência da sua necessidade para que ele seja livre. A liberdade pressupõe no homem sua dimensão prática, social e histórica.
O conhecimento e a atividade prática, sem os quais a liberdade humana não existiria, não têm como sujeito indivíduos isolados, mas indivíduos que vivem em sociedade, que são sociais por sua própria natureza e estão inseridos na rede das relações sociais que, por sua vez, variam historicamente. Por todas estas razões, a liberdade também possui um caráter histórico-social (idem, p. 112).
A liberdade de ação e decisão do homem é contextualizada, daí o grau de liberdade dos indivíduos ser histórica e socialmente determinado.
O marxismo não rejeita, mas assume todas as conquistas ideais e práticas da burguesia no campo da instrução [...]: universalidade, laicidade, estatalidade, gratuidade, renovação cultural, assunção da temática do trabalho, como também a compreensão dos aspectos literário, intelectual, moral, físico, industrial e cívico. O que o marxismo acrescenta de próprio é, além de uma dura crítica à burguesia pela incapacidade de realizar estes seus programas, uma assunção mais radical e conseqüente destas premissas e uma concepção mais orgânica da união instrução-trabalho na perspectiva oweniana de uma formação total de todos os homens (Manacorda, 1992, p. 296).
Dar a todas as crianças educação pública e gratuita foi uma das medidas defendidas por Marx no manifesto comunista de 1847, a serem tomadas pelo proletariado quando este assumisse o poder após a revolução.
Segundo Manacorda,
[Marx] tem em mente uma unidade diversa entre instrução e trabalho, para todos: a presença das crianças contemporaneamente nas estruturas escolásticas e nas estruturas produtivas e uma instrução tecnológica que, longe de orientar uns para uma profissão e outros para outra, sirva para dar a todos, indistintamente, tanto um conhecimento da totalidade
das ciências, como as capacidades práticas em todas as atividades produtivas. Ele visava, enfim, uma formação de homens total e onilateralmente desenvolvidos (Idem, p. 297).
A escola pública e gratuita deveria estar emancipada das influências ideológicas tanto da Igreja quanto do Estado. “A instrução pode ser estatal, sem que por isso fique sob o controle do governo”. (Marx, apud, Manacorda, 1992, p. 298)