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I – HISTÓRIA DA MANIA

1.2. História

1.2.2 Licantropia: sair de si e voltar a s

Parece ser consensual a tese segundo a qual não houve muito avanço nos debates sobre a mania durante a Idade Média (Linas, 1871; Healy, 2008; Couchoud, 1913). Segundo a leitura de Linas (1871), a melancolia recebeu mais atenção, ao passo que a definição da mania permanece vaga até o tratado de Pinel (p. 509). A explicação do próprio Pinel para isso é que os desenvolvimentos do estudo da matéria na Antiguidade se perderam nos séculos de “ignorância e barbárie”, e que o Renascimento não teria sido tão profícuo para o estudo da alienação mental: “se traduzia e comentava o que havia sido escrito de mais sensato sobre a mania pelos autores gregos e latinos, mas apenas no limite do respeito supersticioso (...)”, representando uma simples compilação dos achados anteriores (Pinel, 1801/2007, p. 45).

No entanto, antes de Pinel, há dois textos sobre a mania publicados na Idade Moderna que merecem ser mencionados porque contêm comentários que, apesar da aparência trivial, abrem novas questões sobre nosso problema. O primeiro é Anatomia da Melancolia, de Robert Burton, publicado em 1621, e o segundo é o verbete sobre a mania de Ménuret de Chambaud, escrito em 1765 para a Enciclopédia de Diderot e d’Alambert, publicado em seu décimo volume.

Burton dedica um pequeno capítulo, constando na subdivisão 4 da primeira parte, a quadros que dão nome à seção: Delírio, frenesie, mania, hidrofobia; dança de Saint- Guy, êxtase. Trata-se, sobretudo, de definir os quadros supracitados a fim de separá-los da melancolia, o que já indica sua posição diante da antiga questão sobre a natureza da ligação entre a melancolia e a mania. Burton discorda da visão dos autores para os quais a mania e a melancolia seriam uma só e mesma doença (p. 221). Em sua definição, a mania é:

“um delírio veemente ou furioso sem acompanhamento de febre, bem mais violento que a melancolia, repleto de cóleras e gritos, de olhares, de ações, de gestos horríveis, que perturbam muito mais o corpo e o espírito do paciente; ela é isenta de todo sentimento de medo ou de tristeza mas contém tanta força impetuosa e odiosa que é necessário mais de três ou quatro homens para controlar o doente. A única diferença para o frenesi é que a febre está ausente e que em geral ela afeta menos a memória dos pacientes” (Burton, 1621/2000, p. 221).

Portanto, na comparação com a melancolia, a mania seria mais violenta, perturbaria mais o corpo e o espírito e, em lugar do medo e da tristeza, haveria a força, os gestos e os olhares. Mas, para Burton, a mania também poderia ter outras expressões, como os êxtases, “a inspiração sobrenatural, as revelações e as visões, a obsessão e a possessão pelo demônio, as profecias sibilinas e os furores poéticos” (p. 222), revelando sua aproximação da concepção platônica das formas de mania como inspirações divinas. O mesmo ocorre com a segunda obra desse período, o verbete de Chambaud (1765/2017), ao descrever as alterações da linguagem que acometem os maníacos, no que se mencionam novamente as suas capacidades poéticas e premonitórias:

“(...) falavam línguas estrangeiras, compunham versos, raciocinavam com maestria sobre assuntos que desconheciam; alguns previam o futuro – o que leva a presumir que os adivinhos, as sibilas e outros, que emitiam oráculos para os idólatras antigos, eram simples loucos, acometidos por acessos de furor” (Chambaud, 1765/2017, p. 413).

Um dos méritos do verbete de Chambaud foi o de expandir a descrição clínica da mania, com seus sintomas, progressão do quadro, riscos, causas. Além disso, Chambaud é um dos primeiros a enunciar um critério de diferenciação entre a mania e a melancolia baseado na extensão de objetos a que o delírio se refere, critério este que revela a equivalência entre a mania e a loucura. Em sua definição, a mania é:

“um delírio generalizado, sem febre, marcado por fúria, não raro acompanhado de audácia e cólera. Quando é suave, tranquilo, ou mesmo ridículo, chama-se loucura ou imbecilidade. (...). Mas, como esses diferentes estados são apenas graus ou espécies de mania, e dependem da mesma causa, compreendemos em geral, sob essa classificação, todas as doenças de longa duração em que o paciente não somente perde a razão, como não percebe que isso acontece, e faz coisas que não têm ou não parecem ter motivos extraordinários ou ridículos. Se o seu delírio tem apenas um ou dois objetos determinados, e, quanto ao resto, o paciente se comporta como alguém sensato, isto é, como a maioria dos homens, então deve-se considera- lo melancólico, e não maníaco” (Ibid., p. 412)

Como veremos, o critério da extensão do delírio que estabelece uma divisão entre as loucuras gerais e parciais fará com que a análise da qualidade dos afetos passe para o segundo

plano nas caracterizações da mania. Ele também será adotado por Pinel e amplamente explorado por Esquirol.

Mas, antes de chegar à obra de Pinel, há mais um elemento no pequeno capítulo de Burton que merece destaque. Em seu catálogo das formas conhecidas de mania, junto com a hidrofobia e a dança de Santo Guy13, Burton inclui a licantropia (lupinam insaniam). Até esse momento, ela era inserida no hall das formas melancólicas por alguns autores, posição com a qual Burton declara discordar (p. 225).

Esse quadro, conhecido como a loucura do lobo, é incomum tanto em sua apresentação quanto nas descrições da mania feitas até aqui. Definido pela crença do doente em ter se transformado em um lobo e passar assim a agir como tal, ela representa a primeira forma de mania que expressa uma mudança na propriocepção. Ao descrever a loucura de Nabucodonosor, Quétel (2012) fornece a imagem de uma variante desse quadro que ajuda a esclarecer a sua novidade em relação ao que se representava como mania até então:

“Expulsos de sua comunidade e escondidos nas florestas para levar uma vida selvagem, muitos desses loucos dão origem ao mito da licantropia (etimologicamente ‘homem lobo’, o futuro lobisomem). Nabucodonosor, rei da Babilônia, é um arquétipo dele. Para punir o conquistador do reino de Judá e o destruidor do templo de Jerusalém (início do século VI a.C.) por seu orgulho, Yahvé o atinge com a loucura. Nabucodonosor acredita que se transformou não em lobo, mas em touro, como os das numerosas imagens que ornamentavam as paredes de seu palácio. Vivendo como selvagem em seus vastos jardins, exposto às intempéries, ele comia apenas ervas e deixou crescer seus cabelos e unhas. Mas o rei da Babilônia foi punido apenas temporariamente (‘sete tempos’, indicam sem precisão as Escrituras). Ele pode enfim ‘voltar a si mesmo’ e se endereçar humildemente a Deus que o enviou a cura” (Quétel, 2012, p. 27).

No próximo período, a licantropia não figurará mais entre as principais formas de manifestação da loucura ou da mania. No entanto, veremos como essa característica de “sair de si para tornar-se outro” se repetirá nas descrições sobre a mania realizadas na obra de Pinel e de Griesinger. Mais ainda: talvez ela traga consigo uma primeira pista para chegarmos a um registro que permitiria identificar uma mudança estrutural psíquica específica da mania.

13

Chorus sancti Viti, depois conhecida como coreia. Burton a descreve da seguinte forma: “aqueles possuídos por ela não podem fazer outra coisa a não ser dançar até à morte ou a cura” (p. 225), confirmando a concepção de Burton da mania essencialmente como estado de agitação.