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LICENÇA PARA TRATAMENTO DE SAÚDE: PROBLEMAS

4 EM UMA INSTITUIÇÃO DE EDUCAÇÃO, POR QUE O

5.2 LICENÇA PARA TRATAMENTO DE SAÚDE: PROBLEMAS

Não sei por que... A dor é crônica

Doralice, uma funcionária antiga da Rede, procurou o Setor Psicossocial em 2005 devido a problemas de saúde, para pegar o boletim de encaminhamento e levar na perícia médica. Segundo nos informou, há alguns anos faz tratamento para controlar a pressão alta, e há mais ou menos cinco anos, o rim também estava dando sinais de mau funcionamento. Hesitou mencionar o seu estado civil, e comentou: “engraçado, quando estava me separando o marido morreu”. Queixou-se de osteoporose, febre, indisposição, mal-estar, e de muitas dores nas pernas “da cintura para baixo”.

“Você acredita que esses sintomas são decorrentes do quê?”, perguntei. E ela respondeu: “Se a gente soubesse [...] Não sei por que dá essa dor. A dor é crônica”. Sentia-se constrangida por estar faltando ao trabalho, em decorrência dos problemas de saúde, embora fosse do conhecimento dos gestores a possibilidade de oscilações de sua pressão arterial, que comprometia o desempenho de suas funções, por lhe exigir, principalmente, equilíbrio e esforço físico. Afinal, Doralice era tida como uma funcionária dedicada, e sua reconhecida reputação devia-se aos serviços prestados naquela escola, onde trabalhava há quase vinte anos.

No decorrer da entrevista, suas alegações sobre o desgaste no trabalho eram relevantes, considerando-se que as condições de trabalho eram infinitamente precárias. Contam algumas funcionárias que, naquela época, não havia água encanada, e muitas baldeavam latas d‟água na cabeça para fazer a merenda dos alunos. Já nos dias de hoje, grande parte dos funcionários, recém ingressos na Rede, atribuem ao

trabalho a causa de seu adoecimento físico (ou psíquico) apesar das melhorias e adequações realizadas em algumas unidades escolares.

Apesar dos encaminhamentos, Doralice só retornou ao Setor Psicossocial cinco meses depois, e comentou que não conseguiu apresentar-se na perícia no dia agendado, devido às “dores na coluna, muita dor” (sic). Como ela não havia voltado, perguntei pela fotocópia do boletim homologado pela perícia, para anexá-lo à sua pasta. Ficou combinado que ela o entregaria na próxima entrevista.

Na semana seguinte, ela trouxe o boletim de encaminhamento (BE) à perícia médica do ano anterior, juntamente com o da semana anterior, que foi recusado por não constar no atestado médico o prazo estimado para o afastamento. Preenchi outro BE, embora neste novo atestado não tenha especificado o CID, o código da doença. Sugeri a ela levar os dois atestados, pois os dados que faltavam em um, seriam complementados pelos outros (o da semana passada e seguinte), para evitar que ela perdesse a consulta.

Após três anos – na fase inicial do levantamento de dados para esta pesquisa – observei que a funcionária não havia mais retornado ao Setor. Durante os cinco meses entre a primeira e a terceira (e última) vez que foi atendida, apesar de ter se queixado de “muitas dores”, não havia registro de retorno para prosseguir o atendimento bem como os encaminhamentos pertinentes ao tratamento de saúde. Chamou-me a atenção o fato dela não ter retornado, sobretudo porque nos dois últimos atendimentos, referiu-se a problemas junto à perícia médica. No primeiro, por não conseguir comparecer no prazo previsto, e no outro porque faltavam dados no atestado.

Separei sua pasta para entrar em contato e verificar se havia disponibilidade em participar da pesquisa. Quando conversamos ao telefone, notei um tom de desconfiança na sua voz, em relação à entrevista; mesmo assim aceitou o convite para ir ao Setor Psicossocial e se informar sobre o assunto.

Chegou no horário agendado, e tranquilizou-se um pouco quando peguei sua pasta com as anotações referentes aos encaminhamentos e atendimentos, ocorridos há quatro anos, aproximadamente. Estava muito receosa e não conseguia compreender a intenção da pesquisa, por mais que eu explicasse. As suspeitas foram atribuídas, em parte, à perícia médica porque “me sentia humilhada, por não terem confiado [em mim]”, e ao atestado médico, recusando-lhe conceder a licença, apesar dos problemas de saúde, de que ainda hoje se queixa (hipertensão, problemas renais e outros). Surpreendeu-se ao ouvir fragmentos da própria fala, e que os registros não se restringiam às formalidades

burocráticas. Quis chamar uma pessoa que a aguardava na recepção, para acompanhá-la na entrevista, a quem eu daria as explicações, com o intuito de repassá-las após.

Diante da situação – de desconfiança – disse-lhe que não precisava assinar, uma vez que estava em dúvida com relação ao documento, ou mesmo ao trabalho que eu estava realizando. Agradeci pela disponibilidade de comparecer ao encontro, mas não poderia colher a assinatura dela, naquela condição. A proposta de chamar uma pessoa que a aguardava na sala ao lado, para intermediar a entrevista, não foi aceita, e nem tinha propósito, uma vez que a “dificuldade de entendimento” era de outra ordem. Percebi que Doralice ficou incomodada.

E logo ela fez nova proposta. Perguntou se poderia levar o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) para casa “para ler com calma” (sic), e me daria retorno em seguida. Aceitei sua proposta, desde que ela entregasse o documento pessoalmente, no prazo estipulado, independente da decisão de assiná-lo ou não.

Dois dias depois, ao chegar ao Setor Psicossocial, encontrei um bilhete de uma colega, dizendo que Doralice não poderia comparecer, sem alegar o motivo. No entanto, ao contrário do recado que havia deixado, ela compareceu não apenas para entregar o TCLE conforme o combinado, mas para assiná-lo. Antes de sair, fez questão de dizer que tomou emprestado um vale transporte de uma colega, para poder ir até o Setor, porque não pode sair sozinha, devido ao estado de saúde (hipertensão). “Esta é uma razão a mais para cuidar da saúde e retomar o tratamento”, disse a ela. “Seria prudente voltar ao Setor para se informar como proceder”, indiquei.

Quando convocado a prestar esclarecimentos a respeito das intervenções, o Setor Psicossocial se restringe às informações relativas ao trabalho, para resguardar o sigilo e a confiabilidade dos atendimentos. Todavia, essa prática de funcionamento pode sugerir uma conduta investigativa, e que ela se baseia unicamente nos documentos solicitados. Não havendo, portanto, uma distinção entre as exigências burocráticas e a escuta/leitura psicanalítica do que emerge nas entrelinhas dos documentos, nas queixas e nos sintomas funcionais. Por quê? Se o objetivo é checar as informações prestadas pelos servidores, primeiro prevalece a palavra do outro, e depois, onde fica a especificidade dessa escuta?

Vale lembrar que, naquela ocasião, as exigências da perícia médica associadas às demandas vindas da escola, embora estivessem fora do nosso alcance e também do dela, podem ter gerado o clima de

desconfiança demonstrado quando compareceu à entrevista. Na ocasião da pesquisa, surgiram novas preocupações, ao saber que ela continuava indo à escola, e apresentando os mesmo sintomas (hipertensão) que ocasionaram os pedidos de licença médica para tratamento, quatro anos atrás.