2.2 Rotinas, liderança (média gerência) e artefatos como importantes fatores
2.2.2 Média gerência nas organizações
2.2.2.1 Liderança dos médios gerentes e sua influência nos processos de mudança
Considerada responsável por mediar, negociar e estabelecer conexões entre os níveis
operacional e estratégico das empresas, a média gerência acaba por exercer significativa
influência no próprio desempenho das organizações como um todo (Cruz, Corrêa, Diniz, &
Vaz, 2020). Os autores destacam que em relação ao nível operacional, a média gerência atua
principalmente como “agente de mudança”, fomentando a adaptação e a implementação de
estratégias deliberadas. Já em relação à alta administração, a média gerência colabora com
interpretações de questões emergentes e com proposições de novas ações capazes de influenciar
o próprio direcionamento estratégico da firma.
Neste sentido, de acordo com a abordagem dos referidos autores, a influência da média
gerência no desempenho organizacional perpassa por essa dinâmica interacional de
comunicação entre os subordinados alta gerência e, além disso, sua performance em propor,
acomodar e incluir ajustes nas estratégias deliberadas, o que pode favorecer bastante a
implementação de mudanças nas organizações.
Rouleau (2005) identificou que os gerentes intermediários, por meio do seu
conhecimento tácito implementam micro práticas que são produzidas durante a rotina e em cada
conversa em torno da mudança. O foco é “como os gerentes de todos os níveis e todos os
membros da organização dão informações e influenciam as pessoas em torno delas pela
modificação das suas rotinas e ajustando seus discursos para nova orientação estratégica”.
(Rouleau, 2005, p. 1433).
Os gerentes de nível médio têm um papel primordial em termos de modificar a rotina
atual, o que pode resultar em inovações (Hoon, 2007; Mantere, 2005). Por isso que, conceber a
gerência intermediária apenas em termos operacionais significa negligenciar o potencial
estratégico desses interlocutores localizados entre a alta administração e a parte operacional
(Balogun, 2003), onde a confiança e a comunicação assumem papel fundamental.
Bower (1970) considera que líderes da média gerência são agentes centrais para a
formulação e implementação de estratégias. Scussel e Lavada (2020) discutem que média e alta
gerência, desempenham papeis no sentido de elaborar e colocar em prática estratégias. Para
estes autores ficou evidente o papel mediador do pensamento estratégico na relação entre
gerência intermediária e demais níveis hierárquicos – alta administração e nível operacional, o
que posiciona a gerência intermediária no centro do processo de formação da estratégia, em
comunicação com os dois outros níveis citados, sendo que a relação entre eles é mediada pelo
pensamento estratégico. Assim sendo, é o fluxo de informações entre os atores organizacionais,
moderado pelo pensamento estratégico da gerência intermediária, que determina a formação da
estratégia.
Mantere (2008) argumenta que, desde que a literatura sobre o processo de estratégia foi
estabelecida nos anos setenta, a importância atribuída pelos diversos autores à agência tem
aumentado constantemente e referencia Pettigrew (1992). Um insight fundamental na pesquisa
do processo de estratégia foi que a organização não é um monólito, mas é consistente com
múltiplos agentes envolvidos na interação social (Mantere, 2008). Nesse sentido, refere-se a
resultados de pesquisas publicados demonstrando que os gerentes de nível médio podem ser os
impulsionadores da estratégia organizacional. Por exemplo, o relato clássico sobre a migração
da Intel - onde os gerentes de nível intermediário desempenhavam um papel fundamental - do
negócio de memória ao negócio de processadores.
Milagres et al. (2015) destacam o papel da liderança em esclarecer e demonstrar uma
intenção efetiva de mudança. A liderança deve estar envolvida nesse processo, criando um
ambiente seguro e receptivo à adoção de novos padrões de comportamento. A ênfase é colocada
na relação entre vários graus e tipos de preparação da equipe para a mudança e a adoção de
novos procedimentos bem-sucedidos. O reconhecimento da agência de pessoas de fora da
equipe da alta direção traz um alerta para a necessidade de entender como esses gerentes reagem
e respondem a tais planos de mudanças de cima para baixo para entender como a mudança se
desenvolve. E que existe uma relação direta entre regras, procedimentos operacionais e outros
artefatos na adoção ou recombinação de rotinas.
Para os supracitados autores, procura-se compreender a relação entre liderança e
artefatos e o próprio processo de implantação das estratégias, correlacionados com as decisões
da liderança, cada vez mais analisado em detrimento do comportamento da empresa e as
exigências do mercado.
A agência exercida pela gerência está em linha com o proposto neste estudo, que busca
avaliar o papel da liderança e dos artefatos como variáveis do contexto influenciando as rotinas
organizacionais. O estudo assume que as rotinas dependem do contexto organizacional,
conforme reforçado pelas teorias evolucionárias e neoshumpterianas que abordam a capacidade
de elas serem influenciadas pelo contexto e mudarem à medida que o contexto muda.
Consequentemente, a compreensão de como elas mudam ou surgem está ligada à compreensão
das características do contexto.
Considerando que os líderes têm forte impacto sobre as ações organizacionais e, que as
reações dos funcionários têm papel-chave na determinação do sucesso das mudanças
organizacionais (Bartunek, Rynes, & Ireland, 2006), a atuação da média gerência pode
influenciar as reações individuais à mudança proposta pela organização, inibindo ou
encorajando comportamentos cooperativos ou resistentes. Desta forma, liderança é um processo
de influência multidirecional entre líderes e liderados com propósito de efetivar uma mudança
real e que permite uma ampliação do entendimento das pessoas sobre o que fazem,
possibilitando maior envolvimento e comprometimento (Yukl, 2006).
A liderança da média gerência assume maior relevância na fase de implementação das
mudanças, haja vista, serem solicitados a responsabilidade adicional de dar apoio aos seus
colaboradores para assegurarem que as suas equipas adotam as mudanças propostas - processos,
papéis, comportamentos e/ou tecnologias (Cummings & Worley, 2009). Assim sendo, as
chefias intermédias assumem o importante papel de transformadores traduzindo a nova visão
em processos e comportamentos, estimulando a comunicação ao longo dos diversos níveis
hierárquicos, já que os seus colaboradores tendem a confiar neles mais do que confiam nas
chefias de topo, devido à relação de maior proximidade (Balogun & Hailey, 2014).
Conforme observa-se, o papel da média gerência assume uma posição preponderante na
implantação estratégica, atuando como agentes da mudança, desenvolvendo competências
associadas ao envolvimento das pessoas na resolução de problemas e na melhoria continua dos
processos nas organizações.
Assim, constata-se que não se implementa uma nova estratégia sem que se mude os
padrões de comportamento e se altere as rotinas. Por isso que se observa que no processo de
mudança nas organizações, há a existência de uma importante relação entre as rotinas, os
artefatos e atuação da liderança (média gerência). Tais mudanças podem ser idiossincráticas ou
contínuas, conforme abordado por Feldman e Pentland (2003) e podem ser influenciadas por
fatores nos níveis individuais, organizacionais e ambientais. E a atuação da liderança (média
gerência) tem importância preponderante na orientação dos rumos desta mudança.
No documento
FUNDAÇÃO DOM CABRAL Mestrado Profissional em Administração Gestão Contemporânea das Organizações MANOEL LINS JÚNIOR
(páginas 32-35)