ENADE VALIDAÇÃO ANO
4 LIGANDO O “GPS”: o mapa do caminho a seguir
4.1 CATEGORIZAÇÃO
Diante das contínuas e rápidas mudanças que ocorrem no mundo globalizado, da economia à cultura, as consequências ressoam em todas as esferas sociais. No âmbito das práticas contábeis, mais especificamente, tais mudanças manifestam-se em reflexões e ações, teorias e práticas societárias, fiscais ou normativas que, nos dias atuais, confluem com o proeminente uso de tecnologia.
Nesse contexto de tantas metamorfoses, a formação profissional na área contábil parece não conseguir preparar o egresso para a difícil e necessária missão de identificação e resolução de problemas organizacionais relacionados às competências contábeis e suas articulações práticas no cenário das entidades públicas, privadas ou do terceiro setor. Nos dias atuais, adiantar-se aos problemas práticos e/ou resolvê-los em curto prazo torna-se uma questão de ordem para um mundo cujo movimento delibera-se pelo poder da informação e do conhecimento. Assim, profissionais, como o contador, necessitam de uma formação teórico- prática que fomente um perfil profissional que viabilize melhores resultados organizacionais. Nesse sentido, relacionando-se à formação acadêmica, torna-se imprescindível que os Projetos Pedagógicos dos Cursos (PPCs) de Ciências Contábeis contemplem, no perfil do egresso, competências necessárias para que, ao sair da academia, desenvolva atividades profissionais atendendo, de modo adequado e urgente, às demandas do mercado de trabalho, cada vez mais conectado com as configurações das políticas econômicas globais.
O Projeto Pedagógico do Curso (PPC), na opinião de Betini (2005), é um plano elaborado pelas instituições de ensino, em que constam os objetivos, as metas, as propostas de ensino e as estratégias permanentes, relacionado tanto às atividades pedagógicas como às funções administrativas da instituição.
Apesar de os fundamentos pedagógicos dos cursos representarem um conjunto de normas e princípios que orientam e norteiam as ações pedagógicas, parece que estes não dão conta de forma holística da capacitação profissional.
A formação acadêmica, além de propiciar condições para o exercício da profissão, deve ainda prover o discente no sentido de que possa compreender os fenômenos que ocorrem nas organizações, buscando soluções para os problemas cotidianos. Nesse sentido, é indispensável ao discente, a experiência com situações práticas, isto é, que poderão enfrentar no exercício
da profissão. Tal contato permitirá ao discente participar de simulações de casos, desenvolvendo competências para que este se torne partícipe nos processos decisórios a que terá que se submeter na atividade profissional.
Em virtude de tudo isso, esta pesquisa busca analisar a relação existente entre saber teórico e saber prático na formação em Contabilidade, a partir dos fundamentos político- pedagógicos dos cursos, com o intuito de compreender a relação que se estabelece entre o discurso teórico e o discurso prático (HABERMAS, 2004), voltados à formação contábil na Paraíba.
Inferimos que processos de ensino-aprendizagem que promovam a interação entre o discurso teórico e o discurso prático podem permitir que o discente do curso de Ciências Contábeis compreenda melhor a realidade, a partir de reflexões articuladas com a ação significativa que pode fortalecer o terreno das práticas contábeis no mundo vivido.
A Contabilidade é, antes de tudo, um campo teórico-prático comprometido com o bem comum, o senso de justiça, a transparência, o entendimento e o equilíbrio das relações que se estabelecem entre o controle dos processos administrativos (mundo sistêmico) e a evolução das sociedades complexas (mundo vivido). Nesse aspecto, a Contabilidade mantém diálogo ininterrupto com as mais variadas áreas de conhecimentos, sejam elas: Economia, Direito, Administração, Matemática, Estatística, Psicologia, Tecnologia e outras. Contudo,
Na história e na filosofia da educação contemporânea, muitos são os estudos que apontam as formas de racionalidade que permeiam as políticas educativas, em que parecem ser preponderantes os pressupostos da racionalidade instrumental, como manifestação da razão dirigida a fins pré-determinados. (MEDEIROS, 2008, p. 59).
Percebemos que o ensino de Contabilidade não se posiciona de forma diferente, já que, muitas vezes, não fomenta ação comunicativa6, tão defendida por Habermas. Sendo perceptível por meio das políticas educacionais, pelas estruturas curriculares, pelas metodologias de ensino e pelos processos de aprendizagem, pelos materiais didáticos utilizados e pelas avaliações aplicadas, dentre outros aspectos restringentes a uma racionalidade mais aberta (racionalidade comunicativa).
Dito isso, apoiamo-nos na concepção de Medeiros (2008, p. 59) que declara:
A maneira como os sistemas de ensino estruturam seus programas curriculares, sua concepção de aprendizagem e suas bases metodológicas, colabora duplamente para os propósitos da razão instrumental: ao utilizá-la em sua teoria da educação, aceita
seus pressupostos e decorrências, divulgando-os como modelo; e o pior, ao levá-lo para sala de aula, amplia seu poder hegemônico e aniquila a possibilidade de consolidar uma racionalidade mais aberta.
Nossa proposta é a de refletir acerca de como acontece a interação entre a teoria e a prática no ensino da Contabilidade, de modo que tal interação possa resultar na emancipação do discente, para que o mesmo participe de forma ativa nas modificações da sociedade em que vive, buscando responder às demandas do mercado, de forma consciente/crítica, a partir de uma releitura de sua visão de mundo, garantindo, desta forma, o exercício da cidadania, contemplando melhores condições de vida e democratização da informação.
Para tanto, recorremos a Habermas, já que este trouxe várias contribuições com uma teoria da razão, a qual inclui teoria e prática, ao passo que, também aborda o conhecimento como dirigido por interesses. Seus pensamentos, portanto, se coadunam com a nossa pretensão supracitada, auxiliando-nos no entendimento e na construção de proposta de diretrizes que viabilizem os parâmetros entre teoria e prática contábil no contexto da formação superior.
Em função das inúmeras possibilidades de elementos conceituais para fundamentar a pesquisa, realizamos um recorte para a seleção de conteúdos que considerasse as particularidades da investigação.
Laville e Dionne (1999, p. 219) evidenciam que:
O recorte dos conteúdos constitui uma das primeiras tarefas do pesquisador após a fase preparatória. A definição das categorias analíticas, rubricas sob as quais virão se organizar os elementos de conteúdo agrupados por parentesco de sentido, é uma outra tarefa que se reconhece primordial.
Os autores consideram ainda três parâmetros de definição para as categorias: o modelo aberto, o modelo fechado e o modelo misto.
O processo de categorização partiu, pois, de algumas categorias advindas do pensamento de Jurgen Habermas, ao longo de algumas de suas obras. Assim, para a escolha das categorias, optamos pelo modelo misto, ao que Laville e Dionne (1999, p. 222) assim definem: “a construção de uma grade mista começa, pois, com a definição de categorias a
priori fundadas nos conhecimentos teóricos do pesquisador e no seu quadro operatório”. Esta
grade não é imutável, já que permite ao pesquisador aperfeiçoá-la à medida que identifique elementos significativos.
A escolha pareceu-nos bastante viável para a leitura, bem como para a análise que segue, já que a partir do modelo misto foi possível agruparmos, inicialmente, unidades de
conteúdos nas categorias preestabelecidas, criando-se depois, novas categorias e subdivisões de categorias anteriormente estabelecidas.
Partimos das definições de “razão instrumental” e “razão comunicativa” como categorias-base, para entendermos questões que envolvem a formação contábil. Além disso, definimos “práxis” como categoria resultante de outros elementos categoriais, a exemplo de “saber (discurso) teórico” e “saber (discurso) prático”, mediados pelos fundamentos pedagógicos da formação contábil, constituindo-se, portanto, categorias de nossa pesquisa.
Esta arena possibilitou-nos refletir sobre o discurso teórico e o discurso prático na formação em Contabilidade, de modo a investigar se tais discursos visam a atender aos interesses, sejam eles da ciência, da tecnologia, e/ou do mercado de trabalho, colaborando assim, com os propósitos da razão instrumental. Desta forma, complementamos as categorias selecionadas em nosso recorte de conteúdos.
Nesse contexto, o recorte dos conteúdos da pesquisa apresenta-se na seguinte figura de categorias:
Figura 1: Apresentação das categorias constituídas a partir do modelo misto. RAZÃO INSTRUMENTAL MERCADO DE TRABALHO TECNOLOGIA CIÊNCIA INTERESSES
DISCURSO TEÓRICO DIRCUSO PRÁTICO