fora dos órgãos próprios de gestão e administração das escolas, baseado no que designa uma “autonomia profissional assente em saberes educativos e pedagógico-didáticos especializados.” Conclui portanto, que existem competências “não passiveis de qualquer processo de delegação (…) porque não são competências próprias, nem legítimas, do poder central (mas) inerentes à profissão docente e à ação dos órgãos colegiais próprios (…) localizados nas escolas” (2015, p.17).
Importa a este trabalho perceber que mecanismos de resposta criaram os diretores das escolas, e como se articularam, eficaz e eficientemente, com os órgãos autárquicos nesta relação de delegação de competência e transferência de poderes.
Em suma, o debate sobre as questões da descentralização e territorialização da educação materializadas nas formas políticas de organização do Estado e na regulação local da educação, não têm, na opinião dos autores e do estudos que têm vido a ser mencionados, acompanhado ações efetivas de descentralização. Será interessante confrontar esta ideia com a opinião dos diretores entrevistados, no âmbito deste estudo.
3.2 – Os dilemas e desafios da gestão escolar, na viragem para a terceira década do século XXI Competências enunciadas nos diplomas legais
Hoje, o cargo de diretor, emoldura-se no referencial jurídico próprio já apresentado, que traduz formalmente a sua missão oficial num conjunto de domínios de atividade e de competências. Esse quadro legal, por si só, enuncia um manancial de tarefas, competências e responsabilidades que é preciso articular a diferentes ritmos de trabalho. A natureza e a temporalidade das tarefas que desempenha levam a que, sobrepostamente, o diretor, tenha de conseguir gerir a escola em termos pedagógicos, culturais, financeiros, administrativos e patrimoniais, competência de tal modo considerada exigente que, a própria lei, prevê um conjunto de requisitos específicos para considerar os candidatos a diretores qualificados para o exercício de funções de administração e gestão escolar (Decreto-Lei nº 75/2008 de 22 de abril).
O artigo 4º da Portaria nº 266/2012, de 30 de agosto, formaliza, uma clara valorização da garantia da implementação das competências de gestão nas nossas escolas, explicitando os parâmetros sobre os quais incide a avaliação interna dos diretores. Apesar da reconhecida importância e eficiência das competências de liderança no sucesso da organização escolar, a extensa enumeração de funções de gestão e administração regulamentadas, comprova a responsabilização do diretor nesta área. No entanto, estes diplomas legais concluem também que, o diretor, para além de ser administrador e gestor escolar (em primeiro lugar), não poderá descuidar a capacidade de conseguir construir uma visão estratégica para a organização e evidenciar capacidade de se relacionar e comunicar externamente, bem como, de liderar a sua organização.
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Multiplicidade de papéis
A abordagem ao papel e às funções dos diretores, também surge fundamentada nas investigações de Barroso (2005) a respeito do trabalho dos diretores escolares em Portugal, numa perspetiva evolutiva, sobre os papéis assumidos pelos reitores (1836-1960) antes e depois do período do Estado Novo, e sobre as funções dos diretores executivos, a partir dos anos 90. A sobreposição de funções sempre existiu ao longo do tempo, naquilo que Barroso (2005) designa como uma “duplicidade de papéis” e os diretores desde sempre estiveram “assoberbados pelas tarefas administrativas” e, ao mesmo tempo, preocupados com “as pessoas” e com a sua dimensão de líder da organização, adotando “estilos de gestão” diferentes, em função das estratégias que implementam para ultrapassar estas conflitualidades. A caraterização que este autor fez do trabalho e perfis funcionais dos reitores e diretores de escolas, em Portugal, revelou, que, ao longo do tempo “existe uma continuidade evidente nas funções exercidas por estes responsáveis da gestão de topo das escolas”, salvaguardando as devidas especificidades legais e as práticas nas escolas (Barroso, 2015, p.162).
Com este estudo, Barroso (2015) identificou, também, quatro conceções diferentes de diretores de escolas e a cada uma, faz corresponder um “mundo” distinto:
a) – o mundo da administração: conceção “burocrática, estatal e administrativa (…) como um representante do Estado na escola, executante e vigilante do cumprimento das normas”;
b) – o mundo da Escola: conceção “corporativa, profissional e pedagógica (…) como um primus inter pares”;
c) – o mundo empresarial: conceção “ gerencialista (…) como se fosse o gestor de uma empresa”; d) – o mundo do território: conceção “político-social como um negociador, mediador entre lógicas de interesses” (Barroso, 2015, p.162).
A partir desta tipologia, Barroso (2015), construiu referenciais de ação com os quais os diretores se identificam quando assumem cada um dos papéis ou interagem em cada um dos “mundos”. No entanto, “estes tipos não existem no “estado puro”” e os diretores são forçados a “jogar” em vários “mundos” ao mesmo tempo e, por conseguinte, a assumir simultaneamente grande diversidade de referenciais, papéis e funções. (Barroso, 2015, p.8).
Interessa ao presente estudo, para evidenciar eventuais mudanças no papel dos diretores, no âmbito da municipalização da Educação, perceber que papéis reconhecem que desempenham, no enquadramento desta mesma tipologia, os diretores entrevistados.
Barrère (2006) analisa um estudo de Henry Mintzberg, que, em 2004, investigou e acompanhou o quotidiano de vários diretores de escolas francesas, e, no âmbito do qual, foram realizadas várias entrevistas e inquéritos de onde foram extraídos relatos de experiências significativas do seu dia-a-dia. Depois de fazerem esta listagem diária das suas tarefas houve uma tomada de consciência por parte dos diretores, da dificuldade em reconstituir um dia de trabalho pela multiplicidade de tarefas que têm de desempenhar diariamente. Esta autora agrupa as tarefas do diretor em três tipos: tarefas administrativas, relacionais e decisórias, numa lógica de ideias similar aos papéis definidos por Barroso (2015) anteriormente descritos.
Mónica Alves Nunes, A reconfiguração do papel do diretor e a municipalização da educação, em Portugal, IEUL, 2019 __________________________________________________________________________________________________________