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3. AMBIENTE INSTITUCIONAL

4.2 Limitações das Práticas Compensatórias

Por mais que a Estratégia Nacional de Defesa (END) tenha estabelecido a necessidade de reestruturação da capacidade operativa das Forças Armadas e destacado a importância da indústria de defesa como a grande provedora de sistemas de armas, não há no Brasil a implantação de uma política de defesa que concentre as atividades de prospecção e aquisição desses equipamentos, tão pouco um centro de pesquisa capaz de fornecer base de pesquisa necessária para orientar as aquisições de forma eficiente.

A gestão das inovações das Forças Armadas, por exemplo, se dá por uma gama de sistemas sem interface e, de certa forma, segregados (fragmentado e desarticulado),

conforme ficou evidenciado nesta pesquisa. O Ministério da Defesa não possui uma estrutura capaz de gerenciar todos os projetos de grande vulto das Forças Armadas, delegando às Forças individualmente as atividades gerenciais desses projetos, inclusive as atividades de gestão dos acordos de compensação, fato este que impede o Ministério da Defesa de atuar de forma estratégica nas práticas compensatórias.

O Projeto H-X BR foi o que mais se aproximou de um padrão adequado de gestão de sistemas de armas, por ter sido o pioneiro na modalidade de aquisição conjunta. Atualmente, cada Força possui sua estrutura de contratação comercial para seus equipamentos, sem que haja qualquer interação entre suas capacidades desenvolvidas, fazendo com que muitas das experiências vivenciadas por uma das Forças não seja aproveitada pelas demais.

A Secretaria de Produtos de Defesa (SEPROD) tem a competência de estabelecer e coordenar a integração das aquisições de interesse das Forças Armadas, porém, esta atividade não é realizada pela falta de capacidade técnica e estrutural, ficando a cargo de cada Força o acompanhamento dos processos e a coordenação efetiva dos programas de defesa.

A pesquisa permitiu evidenciar algumas questões que dificultam o processo de transferência de tecnologia e que as organizações militares contratantes devem estar atentas no momento de negociar e estruturar futuros contratos e acordos de compensação. Estamos falando das barreiras comerciais que se apresentam das mais variadas formas, dentre elas podemos destacar a barreira tecnológica, que nada mais é do que a proibição por parte de alguns países desenvolvidos em autorizar a exportação de produtos sensíveis a países em desenvolvimento, como forma de evitar a cópia não autorizada e o desenvolvimento de armas por países considerados não confiáveis.

Há também as barreiras tecnológicas consideradas naturais que são àquelas inerentes aos países em desenvolvimento. A primeira que podemos destacar é a pouca capacidade tecnológica instalada no país importador, que além de impedir uma avaliação adequada acerca do nível tecnológico necessário às suas pretensões, faltam condições mínimas (materiais e humanas) para que sua base industrial possa de fato absorver a tecnologia ofertada pelo país exportador. Outra barreira também considerada natural está relacionada ao ambiente normativo insipiente desses países, que por falta de segurança jurídica, afugenta os investidores.

Restrições orçamentárias também se apresentam como barreiras tecnológicas, já que o Brasil, assim como os demais países em desenvolvimento, também enfrenta o

grande desafio em conciliar suas prioridades estruturais com a necessidade de investimento em inovação tecnológica no segmento de defesa.

Há que se destacar ainda o papel dos tratados, das convenções internacionais, das cláusulas contratuais e dos regulamentos estrangeiros que se apresentam, muitas vezes, de maneira instrumentalizada e são empregados como limitadores ao acesso de novas tecnologias. Já as barreiras fiscais, ambientais e sanitárias são formas implícitas de cerceamento tecnológico que também impedem, em certa medida, o acesso a novas tecnologias.

A pesquisa demonstrou que o acesso a novas tecnologias por via de práticas compensatórias hoje está circunscrita aos ditames da Portaria Normativa nº 764/MD/2002, do Ministério da Defesa, que define a política e as diretrizes de compensação comercial, industrial e tecnológica que devem ser adotadas pelas Forças Armadas, porém, em razão da estatura normativa, evidenciou-se a necessidade de uma norma de maior amplitude para que possa haver maior segurança jurídica necessária ao cumprimento das obrigações acordadas.

Ainda no âmbito das Forças Armadas algumas diretrizes e instruções normativas foram editadas, com vistas ao estabelecimento de competências e procedimentos de atuação de seus setores internos, relacionados aos processos de estruturação dos acordos de compensação.

Mais recentemente, a Lei nº 8.666/1993 foi alterada de forma incipiente com o propósito de estabelecer regras para que os próprios editais de licitação prevejam, na aquisição de bens, serviços e obras, a exigência de medidas de compensação comercial, industrial e tecnológica nas contratações promovidas por órgãos ou entidades integrantes da Administração Pública.

Ao analisar de forma sistêmica as estruturas contratuais que dão suporte aos projetos de defesa (comercial, Offset e financiamento), percebe-se que o atraso ou a interrupção em alguma dessas estruturas contratuais impacta frontalmente as demais, ou seja, caso haja alguma adversidade que afete a execução do contrato comercial, por exemplo, tanto o Acordo de Offset, quanto o contrato de financiamento sofrem os impactos desses eventos.

Uma figura que se tornou comum na vida do gestor público é o contingenciamento orçamentário, que retarda a execução das etapas do contrato comercial, que por sua vez, atrasa a satisfação das obrigações previstas no plano de compensação. Esses atrasos na execução do contrato comercial também influenciam

negativamente na gestão do contrato de financiamento, onde o banco credor fica impedido de efetuar os desembolsos previstos pela falta de entrega dos bens e serviços relacionados às etapas contratuais.

A pesquisa demonstrou também que as práticas compensatórias não resolvem sozinhas todas as deficiências da indústria de defesa, para alcançarem bons resultados, as estruturas estatais e os arranjos normativos devem estar sólidos, garantindo assim segurança jurídica aos interessados, no entanto, alguns desafios ainda precisam ser superados para que possamos alcançar esse status.