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Qual a consequência daquele ciclo de protestos para a democracia? Junho de 2013 foi a explosão catártica de um sentimento de revolta contra as instituições políticas que mais tarde resultaria no impeachment de Dilma e na presidência de Jair Bolsonaro? Ou uma tentativa de oxigenar formas de fazer política frente ao distanciamento das instituições tradicionais das demandas da população que foi posteriormente capturada e neutralizada pelas elites dominantes para rearranjo da hierarquia de poder? Há múltiplas interpretações e seria impossível dar resposta definitiva à pergunta. É razoável, no entanto, levantar e articular algumas considerações conforme a sequência de textos que foram publicados sobre o assunto nos últimos anos.
Houve uma guinada nas interpretações de junho de 2013, dada a espiral de turbulência e de imprevisibilidade que seguiram a novembro de 2014. Talvez a principal dificuldade nessas interpretações seja produzir um fechamento de sentido unificado em torno de protestos que foram aglutinadores de muitas tendências ideológicas, muitas delas ainda nascentes e que iriam se organizar e consolidar somente nos próximos anos.17 Dessa forma, cabe apresentar ambos os argumentos e discutir seus alcances e limitações.
De um lado, uma chave analítica possível seria de um processo linear de erosão das instituições representativas iniciado pelo julgamento do Mensalão, que tomou as ruas em junho de 2013 e que culminou no crescimento e na organização das direitas, no impeachment de Dilma Rousseff e na eleição de Jair Bolsonaro em 2018 (SANTOS e GUARNIERI, 2016). Na raiz dessa tese está o descrédito da classe média com as instituições políticas, que canalizam todas as insatisfações, com o mau funcionamento dos serviços públicos em função da degradação política e dos escândalos de corrupção; responsabilizando, em última análise, mecanismos democráticos como as eleições (o povo não sabe votar). Assim, aquela mesma classe média conservadora que foi às ruas
17 Declaração de Bruno Torturra, um dos fundadores da Mídia Ninja em reportagem do jornal Nexo de
2017 resume essas controvérsias: “As manifestações só ganharam aquele volume todo porque tiveram a participação de pessoas que, no fundo, discordavam profundamente de tudo o que havia levado as primeiras pessoas às ruas. Então, o que deu volume tirou os contornos ideológicos. Foi uma reunião de forças que nunca mais voltaram a estar juntas. Isso ficou claro, sobretudo, na marcha de mais de 1 milhão de pessoas, após a repressão de 13 de junho. Tive a impressão de que muitos dos que estavam ali se odiavam, mas ainda não tinham descoberto isso – punks, anarquistas, patriotas nacionalistas, membros de partido. Junho abriu uma janela para a rua. Cada vez mais acho que foi um fenômeno comunicacional com implicações políticas, mais do que um fenômeno político com implicações comunicacionais. E acho injusto culpar junho pelo impeachment. Isso é algo que só veio mais tarde, em 2014, com a Copa e os partidos tentando recuperar o protagonismo, num ano eleitoral. No fundo, junho criou um certo trauma, pois foi uma energia que não se realizou”. Disponível em: https://www.nexojornal.com.br/expresso/2017/06/17/O-que-foram-afinal-as- Jornadas-de-Junho-de-2013.-E-no-que-elas-deram
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em 2013, retornou com uma pauta mais definida em 2015 pelo impeachment da presidente eleita e se alinhou a Bolsonaro em 2018.
É interessante notar como a blogosfera progressista teve papel secundário durante o mês de junho. Os blogs viram duas outras forças comunicacionais surgirem: uma esquerda difusa e crítica ao petismo e um ensaio do que seria uma direita nacionalista e hostil. A reação petista aos protestos foi, na maior parte negativa, principalmente pela abrupta queda na aprovação de Dilma Rousseff de 60% para 27% daqueles meses. Em ensaio na revista Piauí,18 o ex-prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, atribuiu às indignações uma revolta da classe média tradicional com a perda de status de distinção referente à ascensão de uma nova classe média e encarecimento de serviços braçais com baixo valor agregado.19 Por esse argumento, a direita teria se aproveitado de uma fragilidade no controle do MPL, decorrente do modelo sem líderes e de sentidos abertos e descentralizados, para capturar os atos a partir de símbolos nacionalistas contra o PT e Dilma Rousseff.
Essa leitura enfatiza alguns elementos de continuidade no processo histórico daqueles cinco anos, enquanto que relega para segundo plano seus fatores de ruptura ou de adaptação. O problema central está em resumir o sentimento de não representação pelas vias tradicionais apenas a junho de 2013, como se os atos fossem sua causa e não consequência. Outras análises sugerem que essa crise de representatividade tem raízes muito mais antigas. Avritzer (2015) indica que o ciclo de manifestações decorre de uma indignação direcionada à política, com 1) o ônus do governo de coalizão, que demanda negociação do poder com partidos ideologicamente opostos, o que aumenta possibilidade de escândalos; e 2) com as estruturas institucionais de participação social, como os conselhos e fóruns, incapazes de melhorar a qualidade dos serviços públicos. Com isso, ele nota uma “fissura no campo” da participação institucional que leva a uma “desinterdição” da hegemonia petista nas ruas, inaugurando um ciclo de protestos de setores críticos ao petismo à esquerda e à direita.
De outro lado, há uma interpretação – que se coaduna com a filosofia do MPL, da Mídia Ninja e outros coletivos que canalizaram narrativas sobre os movimentos – que enfatiza junho de 2013 como o surgimento de formas e práticas de inovação política
18 Ensaio publicado em 2017: https://piaui.folha.uol.com.br/materia/vivi-na-pele-o-que-aprendi-nos-livros/ 19 Avritzer (2015) desenvolve argumento semelhante, mas toma cuidado em estabelecer nexos causais com
o processo de impeachment, ainda não iniciado naquele momento; reconhecendo a pluralidade de demandas dos protestos.
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contra a crise de representatividade institucional (PERUZZO, 2013; GOHN, 2014). Dessa forma, a ideologia autonomista ou neoanarquista (GERBAUDO, 2017) apresentaria uma demanda por novos processos de se fazer política, refratária das organizações burocráticas, desinteressada nos ciclos eleitorais e na negociação de políticas públicas com governos locais e nacionais. O argumento destaca o caráter de renovação dos repertórios de protesto em relação aos modelos de organização anteriores, especialmente a ausência de liderança e descentralização.
Os protestos foram representados na imprensa e na literatura especializada por um espírito em geral mais progressista do que conservador, embora já houvesse pautas de direita. Achados de Mendonça (2018) em entrevista em profundidade com protestantes em Belo Horizonte e São Paulo mostram a demanda por dimensões diretas de democracia, defesa da igualdade e dos direitos humanos. Ainda assim, a literatura se dedicou mais a explicar os aspectos de renovação na esquerda e acabou deixando de lado pistas do ressurgimento das direitas. Há símbolos de continuidade entre os repertórios do patriotismo anticorrupção de 2013 e os atos pelo impeachment de Dilma. No entanto, foi a esquerda que, discursivamente, se lançou como representante de junho de 2013 nas urnas, como se nota na propaganda televisiva do PSOL em 2014.
As análises supracitadas descrevem bem os acontecimentos do primeiro momento de junho de 2013 e retratam a perspectiva da polifonia das revoltas no segundo momento. Em alguma medida, no entanto, supervalorizam uma lógica de organização política horizontal e difusa que não foi determinante nos eventos dos anos que se seguiram. Gerbaudo (2013) enfatiza como a fragilidade organizacional desses coletivos, sem coordenação estratégica ou rigidez hierárquica, dificultam a disputa de longo prazo e a transformação das demandas em ganhos políticos concretos. O autor mostra como organizações burocráticas mais tradicionais e capazes de mobilizar recursos de forma estratégica podem deslocar redes informais de solidariedade, invertendo a pauta ou apresentando outros projetos políticos.
Isso aconteceu, por exemplo, na inserção de uma pauta técnica contra a Proposta de Emenda à Constituição 37, que retirava os poderes de investigação do Ministério Público. A demanda foi inserida nas ruas por articulação institucional dos procuradores, apelidada pelo MP de “PEC da Impunidade”, e enquadrada como um projeto de “endurecimento contra a corrupção”, mas os complexos detalhes jurídicos não foram conhecidos ou debatidos pelos participantes. Com pressão nas ruas, a PEC 37/2011
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acabou sendo revogada de forma acachapante em votação por 430 votos a nove em 26 de junho.20
Figura 6 – Menções textuais à #PEC37Não durante junho de 2013
Assim, entendo junho de 2013 como um gatilho da crise política brasileira que desenterrou uma série de insatisfações e de descontentamentos represados nos anos anteriores. Foi um episódio que deu início à derrocada da tênue acomodação entre as classes do lulismo (SINGER, 2009). Foi a explosão catártica da insatisfação da população com a democracia representativa, sobretudo, pautada pela prisão de lideranças petistas no ano anterior, quando do julgamento do Mensalão. Nas publicações, já se encontrava o discurso de judicialização da política, anticorrupção e a construção de um juiz-herói como candidato a presidente, o então ministro do STF, Joaquim Barbosa, relator da Ação Penal 470.
Os protestos romperam acordos tácitos e pactos que eram equilibrados pelo PT entre classe média tradicional e proletariado. Essa quebra deu início à formação de uma oposição “incansável e intransigente”, nas palavras do candidato vencido, Aécio Neves
20 Notícia “PEC 37 ganha as ruas, mas poucos sabem o que é”; Fonte: Último Segundo. Disponível em:
https://ultimosegundo.ig.com.br/brasil/sp/2013-06-23/pec-37-ganha-as-ruas-mas-poucos-sabem-o-que- e.html, Acessado em 09 de janeiro de 2019.
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(PSDB), com pouco apego às normas formais e informais do jogo democrático para impedir o segundo mandato de Dilma Rousseff. Nos próximos anos, a união generalista de multidões com pautas difusas iria se desfazer. O pleito de 2014 e os desdobramentos da deslegitimação do resultado das urnas eleitorais cindem campos de ação socialista, patriota e autonomista identificados por Alonso e Mische (2017) em junho de 2013.
Portanto, mais do que uma ligação causal entre junho de 2013 e o recrudescimento da crise nos anos seguintes, há fatores de continuidade e de ruptura. Os fatores de continuidade são o fortalecimento do sentimento de não representação e da percepção majoritária da corrupção na figura do PT. Apesar da defesa de dimensões substantivas da democracia, como participação e liberdade de expressão, Mendonça (2017, p. 19) descobre desencanto acentuado com regras e instituições democráticas. Ele aponta fios de continuidade referentes à violação ou afrouxamento de regras democráticas realizadas em nome da própria democracia, com finalidade de derrotar projetos políticos, prender corruptos, perseguir e humilhar adversários: “regras pouco importam diante da relevância da causa”. De qualquer forma, cabe questionar em qual medida e em quais condições as insatisfações com o sistema de representação política levam à erosão da democracia. Nesse aspecto, encaixa-se o descrédito das instituições, tanto políticas, quanto midiáticas, representado pelo combate aos partidos e a expulsão dos jornalistas de grandes emissoras das manifestações.
Foi em 2012 que o combate à corrupção ganhou ampla agenda tanto de visibilidade midiática, quanto das investigações e condenações referentes ao Mensalão. Todavia, em 2013 foram aprovadas a Lei das Organizações Criminosas e a Lei Anticorrupção, que, entre outras medidas, regulamentaram as delações, permitindo a realização de acordos pelo MPF e pela PF, aumentaram o escopo da prisão preventiva e dos crimes de corrupção. Dessa forma, combinavam-se uma postura insatisfeita e vigilante da classe média com arcabouços jurídicos mais sólidos para fomentar as condições para a criação e consolidação de operações massivas de investigação de malfeitos públicos no Brasil.
Por outro lado, o volumoso arcabouço dos estudos realizados lembra as ambivalências e contradições da conjuntura da época e dos atos públicos. O contexto que se apresentou depois de 2014 trouxe uma guinada nas condições políticas, particularmente pelas ações da elite política, organizada e liderada pelo MDB de Michel Temer e de Eduardo Cunha para impedir Dilma Rousseff. Essa mudança nas expectativas de luta política carregava consigo a consequência real da implantação de agenda de
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encolhimento do estado de bem-estar social e retirada de direitos. Assim, há os seguintes indícios de ruptura: 1) a transformação do espírito inicial dos protestos, com a perda de fôlego de um projeto progressista de auto-organização das demandas; 2) a fragmentação dos atos depois de 2014, sobretudo, com a implantação da agenda do impeachment em 2015, que forçou a mobilização em torno de polos favoráveis e contrários; e 3) a formação e amadurecimento de redes de organização especificamente direitistas com o a adesão a pautas moralistas e conservadoras.