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1.4 CONCEITO DE BEM-ESTAR

1.4.1. Limites da perspectiva utilitarista

O critério clássico da economia do bem-estar é o utilitário, que julga o sucesso pela soma da utilidade criada. Até aos anos 70, o conceito de bem-estar permanece ligado à utilidade de determinados bens, à “satisfação”; é algo que se situa a nível mental, ligado à ideia de “plena realização” no sentido de “prazer” (Proença, 2001).

Nesta visão também se integram o princípio da neutralidade ética ou da indiferença moral, de Robbins, e o chamado óptimo de Pareto, ligados à escola neoclássica.

O princípio de Robbins tem como ponto de partida decisões de escolha baseadas em manifestações pessoais de preferências, sendo o indivíduo o melhor juiz das suas próprias necessidades e desejos, sem lugar para comparações interpessoais ou considerações éticas sobre a distribuição (Proença, 2003: 56).

Quanto ao óptimo de Pareto, enuncia o seguinte postulado: uma situação económica é óptima no sentido de Pareto se não for possível melhorar a situação, ou mais genericamente a utilidade de um sujeito, sem degradar a situação ou utilidade de qualquer outro sujeito económico. Trata-se de um princípio que perpetua o individualismo metodológico e ético, o território da economia é um domínio onde apenas os bens se encontram, totalmente separado do campo das motivações ou da interacção entre os sujeitos. Neste sentido, é usualmente apontado como pouco benéfico ou aceitável que este modelo preveja a concentração de rendimento ou recursos num único sujeito, visto que isso pode ser óptimo no sentido de Pareto. Nesta lógica, de mera eficiência da utilidade, as externalidades ou qualquer tipo de noção de interdependência, estão excluídas no raciocínio de Pareto.

Face a este quadro teórico, ao longo das suas obras, Amartya Sen (1987) foi tecendo fortes críticas ao conceito de utilidade como elemento de determinação do bem-estar, entre elas: sob o ponto de vista das opções éticas nada importa, a não ser as consequências, a utilidade gerada, a satisfação, o bem-estar que causa dada situação, sem olhar a meios, sem avaliar se houve violação de direitos e deveres; também em relação ao modo como a escolha racional permite obter informação suficiente sobre o bem-estar e a pobreza; e ainda a ideia de “somatório”, que supõe que as utilidades de diferentes pessoas são adicionadas umas às outras para obter o proveito agregado, como se o que interessasse fosse a maximização do total, independentemente da distribuição da utilidade.

Amartya Sen (2003: 76) aponta, então, como principais limites da perspectiva utilitarista:  a indiferença relativamente à distribuição; muito centrada no total, a contabilidade utilitarista tende a ignorar as desigualdades na distribuição da felicidade;

 o desinteresse pelos direitos, liberdades e outras dimensões não agregadas;

 a limitação da fixação em características mentais, como o prazer e os desejos em termos de comparações interpessoais, visto que os nossos desejos, por um lado são formulados em função da realidade que conhecemos e, por outro, tendem a acomodar-se às circunstâncias de vida, incluindo a acomodação psicológica às privações.

Em suma, Sen (2003) defende que o conceito de bem-estar deve estar ligado não só às satisfações de ordem física e mental, mas também a valores éticos, como os direitos e as liberdades, de acordo com as potencialidades existentes.

Por sua vez, Mark Blaug (1981: 414-415) chama a atenção para uma utilidade vista como uma premissa hedonista, onde as externalidades são ignoradas e a própria noção de bem-estar associada, seja a desejo, seja a satisfação, é discutível. Também para Blaug (idem) tiraram-se conclusões sobre o bem-estar, a partir da teoria da utilidade, sem levar em conta a desigualdade na repartição do rendimento e sem ter presente a dificuldade em estabelecer comparações interpessoais.

Por isso hoje a utilidade não é mais do que a preferência individual sem espaço para comparações na função distribuição e para uma noção de utilidade interpessoal, o que leva a reflectir sobre a tensão entre uma economia positiva e uma economia normativa.

Apesar de ter começado por ter um corpo de pensamento conhecido por Economia Política, incluindo uma preocupação pelas consequências sociais do comportamento individual, a Economia acabou por se tornar uma disciplina reconhecida reduzindo a ênfase do seu aspecto “político” – como distribuir o que a economia produz – para passar a dar mais ênfase à “economia” – produzir mais coisas para distribuir, orientada para o crescimento. A questão fundamental para os economistas passou a ser: como pode a sociedade atingir os padrões de vida mais elevados que as populações em crescimento exigem? (McCarty, 2001: 113).

Assim se desviou a atenção dos economistas da “Economia Normativa” para a “Economia Positiva”, que não faz julgamentos sobre os objectivos que deviam ser adequados para a sociedade, mas presume que os objectivos incluem a maximização do rendimento ou da riqueza ou de qualquer indicador de bem-estar material. A divisão do pensamento económico deu mais ênfase à lógica económica sobre a moralidade social, mais aos meios práticos que à adequação dos fins e mais às soluções de engenharia que às considerações éticas (McCarty, 2001: 113).

Sen (1987: 29) diz que, se por um lado à medida que a ética é ponderada na Economia o conceito de bem-estar é re-discutido, por outro tem permanecido numa “caixa estreita e separada do resto da Economia” numa relação unidireccional onde os avanços da análise económica podem influenciar o conceito de bem-estar económico, mas não o inverso.

Por um lado, vemos a necessidade de incluir na economia outros parâmetros de análise, mas, por outro, o recurso a esses parâmetros continuam a ser encarados como extras.

Não é de estranhar que tenham, pois, surgido teorias de justiça distributiva, como vimos atrás, como também foi o caso do contributo de John Rawls, que se enquadra num outra visão

relativamente à teoria do bem-estar, em busca de um novo contrato social. Rawls diz que o indivíduo está disposto a aceitar o princípio da liberdade individual na definição do seu próprio bem-estar, contando que não interfira na liberdade alheia, e o princípio da diferença, que aceita as desigualdades sociais se todos puderem, em iguais condições, aceder às instituições de apoio e se essas desigualdades resultarem numa melhoria do bem estar dos mais pobres (Proença, 2003: 61).

Mas John Rawls não está de acordo que haja uma extrapolação do princípio da escolha individual para o nível da escolha colectiva, nem concorda que a sociedade como um todo procure a maximização do bem-estar grupal pela soma da satisfação dos seus membros (Higgins,2005). Outras das críticas que Rawls faz ao utilitarismo é este dissociar o que é bom do que é justo e no saldo líquido de satisfações pouco importar o critério da distribuição (idem).

Em suma, falar em bem-estar sem valores é uma contradição. Se se tivesse partido do pressuposto que os homens estão estruturados para cooperar e partilhar, os resultados seriam diferentes. Ter começado por chamar bem-estar social óptimo a algo que está longe da natureza humana, tornou a economia com uma ciência longe da realidade da vida. (Martinez, 1996)

«Os bens são neutros, mas o seu uso é social. Eles podem ser usados como barreiras ou como pontes que unem» (Douglas apud Bruni, 2004b: 45). A questão do bem-estar (económico) é uma tradição anglo-saxónica, mas a realidade é mais complexa e tem muito mais a ver com a noção do que é a felicidade, algo muito mais difícil de identificar, porque não tem preço e não passa pelo mercado (Bruni, 2004a). Além disso, como já foi atrás referido, o projecto da EdC levanta o véu para outro tipo de externalidades, nomeadamente positivas, como é o caso dos bens relacionais.

Assim, fica a pergunta: porque é que ter mais rendimento e, teoricamente mais bem-estar, não nos torna necessariamente mais felizes?