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Capítulo 5: A relação dos pesquisadores-extensionistas com as Fábricas Recuperadas do

5.6.3 Limites e possibilidades da assessoria na Cooparj

Segundo Henriques (2008), além da falta de políticas públicas adequadas, as “heranças culturais do trabalho heterogestionário” dificultam o trabalho de assessoria. Alguns depoimentos de trabalhadores do estudo de caso realizado na COOPARJ reforçam essa questão: “Você não tem aquela segurança que o patrão dava”; “Um supervisor faz falta, alguém que cobre mais no chão-de-fábrica”; “Falta cobrança por parte da diretoria”; “Nas empresas tradicionais existe horário pra chegar, pra sair, pra almoçar (...) Isso é melhor, o supervisor faz falta, mas não pra mim” (Depoimentos de membros da fábrica). Flávio Henriques reflete sobre isso quando diz:

Essa questão [herança cultural] dificultou a realização de atividades de ensino na COOPARJ. Por mais que tenhamos buscado levar casos práticos para o curso que UFF, Ibase, Cedac, Fase, Pacs e Anteag). Nesta parte de sua pesquisa, Henriques (2008) encontrou diferentes formas de conceituar a assessoria a empreendimentos de autogestão: quanto aos objetivos, quanto à intensidade de aproximação do empreendimento e quanto à natureza da atividade. A viabilização econômica do empreendimento, a conquista da autonomia pelos assessorados e o diálogo de saberes parecem ter sido elementos decisivos destacados pelos assessores.

tentamos realizar, essas atividades não tiveram o êxito planejado. Um dos pontos que pode ter contribuído para isso é a alta média de idade dos seus funcionários, que é de 56 anos e certamente dificultou as propostas de aulas. Hoje entendo que a assimilação desses conceitos deve se dar na resolução dos problemas reais da fábrica, no dia-a-dia de trabalho.

Outro ponto levantado pelos entrevistados diz respeito à baixa escolaridade dos membros dos empreendimentos, que dificulta a assimilação dos conteúdos do processo de incubação e aos processos inerentes a um empreendimento coletivo, como a realização de assembléias, a elaboração de atas e a constituição de um conselho fiscal.

Junto a isso, Henriques (2007 e 2008) observa que houve muitas dificuldades relacionadas aos “diferentes níveis de formação dos cooperados, o que dificultou a assimilação de conteúdos técnicos ligados à engenharia de produção”. Ainda de acordo com ele: “Entendo ser essa uma questão de dificuldade de aproximação da linguagem técnica da engenharia ao saber dos cooperados. Para que o conteúdo desse tipo de assessoria mais técnica seja apreendido pelos membros dos empreendimentos é fundamental que qualquer conceito colocado esteja vinculado a um problema real da fábrica” (Henriques, 2008).

A concorrência no setor78, a variação da demanda e as “máquinas antigas” também são fatores importantes que impedem o desenvolvimento desta FR. Retornaremos a esse tema quando abordarmos as condições gerais de produção necessárias para o desenvolvimento dos movimentos sociais, nas conclusões do trabalho .

Henriques (2008) defende a assessoria a empreendimentos de autogestão como uma das possibilidades da assessoria organizacional. Dada sua especificidade, ela deve se diferenciar da consultoria de organizações quanto aos objetivos, na relação com o grupo assessorado e na motivação do assessor. Esta distinção deve se refletir nos métodos de assessoria.

Quando sinaliza como deveria ser o processo de assessoria, afirma que:

a relação do assessor não pode se dar apenas com a direção do empreendimento, por se tratar de um empreendimento coletivo. Além disso, a preocupação deve ser para além do empreendimento, englobando aqui algo maior: o movimento da economia solidária.

É fundamental o conhecimento das especificidades e princípios da autogestão por parte do assessor para que esses sejam preservados. Isso exige que haja diálogo com os membros do empreendimento, devendo a participação ser estimulada como meio para conquista de autonomia (Henriques, 2008).

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Sobre a concorrência e a produtividade dada pelo mercado, o desenvolvimento e colapso das relações sociais de produção com bases autogestionárias, ver Bernardo (2009).

Este pesquisador destaca a dificuldade de aplicação de métodos participativos em ambientes em que prevalece a “cultura” de submissão, resultante de anos de trabalho numa lógica hierárquica. A partir das reflexões sobre o seu trabalho de assessoria, ele expôs algumas questões de pesquisa que devem ser aprofundadas:

a) Quais devem ser os critérios para avaliar a viabilidade econômica desses empreendimentos, uma vez que os critérios tradicionais demonstrariam que grande parte dos empreendimentos de economia solidária é inviável economicamente?; b) A formação de assessores nos movimentos de base seria uma saída para facilitar a comunicação com os assessorados e evitar o risco de dependência dos grupos em relação aos assessores?; c) Há uma relação entre a atividade gratuita da assessoria e a dificuldade de verbalização das discordâncias por parte dos assessorados?; d) É possível que o estímulo e capacitação para a prática da autogestão sejam fruto do trabalho de uma pessoa externa ao empreendimento?; e) Quais são os limites de atuação do assessor uma vez que não é ele o principal afetado pelas decisões tomadas no empreendimento? Qual é o compromisso do assessor com a tomada de decisão?; f) Como disponibilizar o conhecimento gerado no processo de assessoria para todos os membros do empreendimento? (Henriques, 2008).

5.7Considerações finais

Esta seção buscou descrever a criação de uma linha de Economia Social no INTI, analisar as contradições que surgiram na assessoria às FRs. Na seção seguinte, observamos a relação dos engenheiros da UnCo e dos químicos da UBA com a FaSinPat Zanon. Na últimas seções, observamos o papel da UFRGS na tentativa de desenvolvimento de um aquecedor a gás para a Geralcoop e a assessoria do Soltec–UFRJ na Cooparj.

Na medida do possível, procuramos refletir sobre a visão que eles têm sobre a história da autogestão, como se pronunciam sobre a propriedade dos meios de produção, autogestão e a necessidade de desmercantilização. Porém, vimos que estes parâmetros tiveram que ser adaptados para este capítulo, pois os pesquisadores-extensionistas das FRs não se pronunciam diretamente sobre estes temas. Dentro de um leque mais amplo de lutas sociais, suas opiniões ressaltam a questão nacional (Rodríguez Lupo e os técnicos do INTI), a distribuição de renda (Perondi) e a ampliação da Economia Solidária (Flávio Henriques).

No que se refere à assistência “técnica”, chamada por Henriques de assessoria, relatamos as contradições, os limites, as possibilidades e desafios colocados na atuação deste engenheiro do Soltec na Cooparj.

Da mesma forma, relatamos o papel imprescindível dos engenheiros da UnCo na assessoria à FaSinPat Zanon e, apesar de não terem dado “certo”, relatamos os casos da UBA e UFRGS na tentativa de construção do azulejo auto-limpante e de um aquecedor a gás. No Capítulo seguinte, veremos que as tentativas de estreitamento da relação Universidade- Institutos Públicos de Pesquisa-trabalhadores que se esboçaram nos casos INTI, UnCo, UBA, UFRGS, UFRJ não são novas. Iremos delinear as tentativas de construção de universidades voltadas para os “movimentos sociais” no século XX, tendo como marcos a Reforma de Córdoba, a Argentina nos anos 1960 e a criação da Universidade de Brasília (UnB). Veremos que em muitos momentos da nossa história a Universidade Pública e o nosso povo colocaram em pauta e em certo sentido conseguiram materializar temas que hoje são resgatados por uma parcela da Universidade Pública: a relação teoria e prática, a aliança com os movimentos sociais, a criação de universidades populares, a união latino- americana, a não neutralidade da C&T e a formação de intelectuais públicos.

Capítulo 6: Algumas experiências históricas de relação universidade-movimentos