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SUMÁRIO

2.3 LIMITES E POSSIBILIDADES DO ECODESENVOLVIMENTO REVISITADO

De todos os objetos, os que mais amo são os usados. (...) Impregnado do uso de muitos, a miúda transformados, foram aperfeiçoando suas formas e se fizeram preciosos porque têm sido apreciados muitas vezes. (Bertolt Brecht, Antologia Poética, 1982, p. 58).

A procura da harmonização entre desenvolvimento e gestão de longo prazo do meio ambiente não pode ser feita de maneira isolada, pois se trata de uma reflexão global sobre a viabilidade de novos estilos de desenvolvimento baseados no pensamento sistêmico-complexo (GODARD; SACHS, 1975; VIEIRA, 2006). Este capítulo insere-se nessa linha de reflexão ao tratar a atualidade do ecodesenvolvimento aplicado à gestão de recursos comuns.

O ecodesenvolvimento é o eixo central do modelo de análise, trazendo em si a crítica do modelo hegemônico de desenvolvimento e a preocupação com a criação de novos projetos civilizatórios. Para tanto, é preciso considerar o meio ambiente como relação e não como objeto. Suas dimensões: os recursos naturais, o espaço-território e o hábitat colocam no centro as relações que os seres humanos estabelecem entre si e com o meio. Os conceitos de co-gestão adaptativa,

ecodesenvolvimento territorial e justiça ambiental e ecológica vêm

sendo incorporados ao modelo de análise “clássico”, ampliando o seu potencial heurístico no enfrentamento da crise socioecológica global.

O enfrentamento envolve mais adaptação que controle, políticas flexíveis, integradas e adaptativas, gestão e planejamento voltados à aprendizagem, acompanhamento concebido como uma parte de intervenções ativas para conseguir compreender e identificar respostas aos problemas, não a vigilância pela vigilância, investimentos ecléticos em ciência, participação dos cidadãos e parceria na construção de uma ciência mais cidadã evitando a informação passiva (HOLLING, 1995).

O desenvolvimento de uma democracia cognitiva só é possível com uma reorganização do saber; e esta pede uma reforma do pensamento que permita não apenas isolar para conhecer, mas também ligar o que está isolado, e nela renasceriam, de uma nova maneira, as noções pulverizadas pelo esmagamento disciplinar: o ser humano, a natureza, o cosmo, a realidade. (MORIN, 2002, p. 104).

O ecodesenvolvimento e os enfoques complementares ajudam a compreender a gestão de recursos comuns em relação à sustentabilidade dos recursos naturais, as dinâmicas de desenvolvimento e a desigualdade ecológica. A pesquisa sobre gestão de recursos comuns, nessa perspectiva, incorpora uma perspectiva mais ampla, sobre seu papel no modelo de desenvolvimento hegemônico e, ao mesmo tempo, seu potencial de mudança, como parte integrante e importante na proposta do ecodesenvolvimento. O fundamental é a compreensão de que nenhum enfoque é completo e que, para além da fragmentação da ciência, o diálogo entre os enfoques pode oferecer insights para uma melhor compreensão dos problemas e para a construção de alternativas capazes de fazer frente à crise sistêmica do meio ambiente.

Tudo se aniquilava no fundo desconhecido das noites obscuras; só percebia, muito ao longe, os altos-fornos e as fornalhas de coque. (...) Era uma tristeza de incêndio, não havia no horizonte ameaçador outros astros elevando-se a não ser esses fogos noturnos dos países da hulha e do ferro. (Émile Zola, 1981, p. 14).

O uso do carvão mineral em larga escala está intrinsecamente ligada à Revolução Industrial e com a origem do movimento dos trabalhadores na Inglaterra, como bem ilustrou Emile Zola em seu livro Germinal, e nos Estados Unidos. Ele continua sendo a fonte mais utilizada para geração de energia elétrica no mundo, correspondendo em média a 40% da produção total mundial no período de 1973 a 2006. Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA) a posição será mantida nos próximos trinta anos e a discussão sobre reconversão da mineração do carvão ainda permanece incipiente5(ANEEL, 2008a; FERREIRA, 2002).

No debate sobre mudança ambiental global os recursos naturais não renováveis são centrais. Embora o petróleo ocupe posição privilegiada, os impactos ambientais do processo produtivo do carvão mineral é um ponto importante a ser considerado. Os combustíveis fósseis continuam a dominar a matriz energética mundial, apoiados por 523 mil milhões de dólares de subsídios em 2011, quase 30% a mais que em 2010 e seis vezes mais do que as fontes renováveis (OCDE; IEA, 2012). O carvão mineral representou em 2012 19,5% da matriz energética dos países que compõem a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e 28,2% da matriz mundial. Em relação à oferta de energia elétrica o carvão mineral representou em 2012 1,4% da oferta brasileira e 41,7% da oferta mundial. Se consideradas as dimensões de sustentabilidade: segurança energética, equidade social e mitigação dos impactos ambientais o Brasil aparece como 53º lugar em 2012. Se tomadas separadamente, o Brasil assume o

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Destaca-se aqui a iniciativa da Comissão das Comunidades Europeias, que teve início em 1989, de proporcionar assistência as Comunidades que queiram adotar uma reconversão econômica das áreas de mineração do carvão através de empréstimos e subsídios (COMISSÃO DAS COMUNIDADES EUROPÉIAS, 1990).

77º lugar em segurança energética, 65º em equidade social e 21º em mitigação dos impactos ambientais (WORLD ENERGY COUNCIL, 2012).

A matriz energética brasileira teve em sua composição no ano de 2012: 42,4% de oferta de energia de fontes renováveis (biomassa da cana, hidráulica e eletricidade, lenha e carvão vegetal e lixívia, dentre outras) e 57,6% de fontes de energia não renováveis (petróleo e derivados, gás natural, carvão mineral e urânio), da qual o carvão mineral tem uma participação de 5,4%. (BRASIL; EPE, 2013). A presença de combustíveis fósseis na matriz energética brasileira tende a aumentar com a exploração do petróleo do pré-sal, com a possível exploração do gás de xisto e com o retorno do carvão mineral nos leilão A-56 de 2013. É urgente lidar com a questão das emissões de gases de efeito estufa, devido às altas emissões dos combustíveis fósseis. O carvão mineral é o mais abundante combustível fóssil do mundo e também o que mais produz gases de efeito estufa (BRASIL; MME; 2007; YAMAOKA, et al., 2013).

O Brasil, no cenário mundial, desponta como fornecedor global de commodities minerais, energéticas e agrícolas. Esse papel justifica a abertura de minas de fosfato, a mineração de urânio, do ferro e de outros minérios. Apesar do carvão mineral brasileiro ser o “primo pobre” dos minérios, voltado ao mercado interno, é preciso considerar também a mineração no geral. O marco legal da mineração está mudando com a regulamentação da mineração em terras indígenas, quilombolas e ribeirinhas e a expansão das mineradoras brasileiras para outros países. A conjuntura brasileira é de desregulamentação e de flexibilização da normativa ambiental sem um questionamento profundo sobre as desigualdades socioambientais existentes no território (MALERBA, 2012; MILANEZ et al., 2013).

O objetivo deste capítulo foi descrever as macro variáveis presentes no modelo de análise de gestão de recursos comuns (HESS;

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Os leilões foram instituídos em 2005 e são processos licitatórios com o objetivo de contratar energia elétrica para assegurar o pleno atendimento da demanda futura no Ambiente de Regulação Controlada. Os leilões são divididos em A-1, A-3 e A-5. Os números 1, 3 e 5 correspondem aos anos de antecedência do início do suprimento. O Leilão A-5, por exemplo, envolve a licitação para contratação de energia elétrica de novos empreendimentos, realizado com cinco anos de antecedência do início do suprimento (MME, 2014).

OSTROM, 2005; OAKERSON, 1992; POLSKI; OSTROM, 1992), abordando o tema no Brasil, com destaque à gestão do carvão mineral. Para tanto, além de uma breve introdução sobre desenvolvimento econômico, gestão de recursos comuns e energia no Brasil o capítulo traz uma caracterização dos atributos físicos e tecnológicos do recurso em termos de disponibilidade, usos, tecnologias disponíveis e impactos. As regras em uso tratam das principais leis que afetam o recurso, bem como das interfaces entre direitos ambientais e direitos humanos. Em relação à arena de ação, é feita uma breve descrição dos envolvidos na gestão no nível nacional. O balanço da gestão de recursos comuns no Brasil, em especial do carvão mineral, revela ao longo desse capítulo, importantes pontos a serem considerados na compreensão da ampliação da geração de energia elétrica movida a carvão mineral no Sul de Santa Catarina e da possibilidade de surgirem caminhos alternativos para a questão energética.

3.1 DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO, GESTÃO DE RECURSOS