2.2 Coisa Julgada
2.2.1 Considerações gerais
2.2.1.2 Limites objetivos e subjetivos da coisa julgada
Examinar os limites objetivos da coisa julgada é analisar o âmbito de incidência da imutabilidade da sentença passada em julgado.
Segundo o art. 469, não fazem coisa julgada: “(I) os motivos, ainda que importantes para determinar o alcance da parte dispositiva da sentença; (II) a verdade dos fatos, estabelecida como fundamento da sentença; (III) a apreciação da questão prejudicial, decidida incidentemente no processo”.
O comando invariável localiza-se no dispositivo da sentença (parte concludente sobre as questões de mérito) e não na atividade lógica exercida pelo juiz para preparar e justificar a decisão. Ou seja, “l’oggetto del giudicato è la concreta decisione sulla domanda proposta in giudizio”; a motivação permitirá entender o significado do dispositivo, o que não quer dizer que os motivos são cobertos pela
coisa julgada290. Conseqüentemente, a causa de pedir e as alegações de defesa,
argumentos usualmente refletidos nos fundamentos da decisão, não são acobertadas pela res judicata291.
Na importante obra Eficácia e autoridade da sentença, Liebman, em aditamento sobre direito brasileiro, observa que foi muito controvertida a questão dos limites objetivos, até concluir que somente a parte dispositiva faz coisa julgada. Não se pode estender a coisa julgada a todas as questões debatidas e decididas. Primeiro porque não se pode querer contestar a coisa julgada com uma questão que poderia e não foi utilizada no processo. Ela deve permanecer firme, embora o debate tenha sido incompleto. Depois, porque sobre as questões que não foram objeto do processo em sentido estrito, mas foram incidentalmente conhecidas, não são decididas, razão pela qual podem ser objeto de outro processo objetivando uma decisão. O critério mais seguro para se estabelecer o limite é a resposta do juiz aos pedidos das partes. Então, a coisa julgada abrange somente o dispositivo da sentença, excluindo os motivos, “mas, são eles mesmo um elemento indispensável para determinar com exatidão a significação e o alcance do dispositivo”292.
Com maestria, Talamini correlaciona o objeto da coisa julgada material com aquilo que nossa legislação admite ser excepcionalmente passível de desconstituição: o mérito da sentença transitada em julgado (art. 485). E, para o autor, mérito diz respeito a um direito, relação ou situação processual293.
Nessa linha, aquilo que não for mérito não está dentro dos contornos da imutabilidade (entenda-se, rediscussão dentro e fora daquela relação processual).
Contudo, não se pode restringir, como fez Dinamarco na passagem: “a estabilidade dos efeitos da sentença mediante a auctoritas rei judicatae é característica exclusiva do processo de conhecimento e das sentenças e acórdãos de mérito que ali se pronunciam”294. Isto porque, como procuraremos demonstrar, não se deve limitar a existência de mérito processual à fase cognitiva.
290 LIEBMAN, Eurico Tullio. Manuale di diritto processuale civile, v. III, p. 167. Tradução livre: “o objeto da coisa julgada é a concreta decisão sobre a lide levada a juízo” –destaques originais.
291 Salvo se a parte o requerer a resolução da questão prejudicial por meio de Ação Declaratória Incidental (art. 470 CPC).
292 LIEBMAN, Eurico Tullio. Eficácia e autoridade da sentença e outros escritos sobre a coisa julgada, p. 51 a 54.
293 TALAMINI, Eduardo. Coisa julgada e sua revisão, p. 131.
Como bem observou Patricia Pizzol, a coisa julgada só pode incidir onde houver decisão sobre o pedido do autor, pois
previsão legal diferente implicaria violação ao princípio da inafastabilidade do controle jurisdicional, do acesso à justiça. Ora, se não houve apreciação de mérito, não pode a parte ficar impedida de buscar o Judiciário para obter uma prestação jurisdicional que seja plena e que promova, efetivamente, a paz social295.
Então, não são atingidas pela coisa julgada material: (a) sentenças terminativas, já que nelas não há apreciação do mérito296; (b) decisões interlocutórias (sem conteúdo de mérito) e atos judiciais não decisórios297; (c) sentenças proferidas em processo de jurisdição voluntária298, pois não há declaração de existência ou inexistência de direito material ou direito subjetivo alegado em juízo299; (d) sentenças proferidas em procedimentos cautelares, pelas mesmas razões da jurisdição voluntária (exceto quando for acolhida prescrição ou decadência, oportunidade em que se alcançam os efeitos da coisa julgada material – art. 810)300; (e) sentença que extingue a execução, também pela inexistência de decisao sobre relação jurídica de direito material301; (f) sentenças que homologam renúncia, transação, reconhecimento do pedido (inc. II, III e V, 269)302.
295 PIZZOL, Patricia Miranda. Coisa julgada nas ações coletivas.
296 Cf. TALAMINI, Eduardo. Coisa julgada e sua revisão, p. 31. De fato esta é a regra. Todavia, como já aludimos, há falsas sentenças terminativas e ainda aquelas em que o autor não concorda com o vício tido pelo juízo como suficiente para a extinção do processo (ex. condição da ação), não vislumbrando o que se sanar para alcançar o julgamento de mérito. Nestes casos, como observa Yarshell, “de duas uma: ou o sistema reputa admissível a repetição da mesma demanda (...) ou o sistema, ao reputar inadmissível a repetição da mesma demanda, deve abrir ao interessado o canal da desconstituição, via ação rescisória” (Ação rescisória, p. 161). Também, acrescenta o autor, nos casos de sentenças fundadas em perempção, litispendência e coisa julgada a repercussão do julgamento se projeta para fora do âmbito estritamente processual, sendo cabível uma interpretação sistemática que possibilite o cabimento de rescisória (idem, p. 164-165). No mesmo sentido: BARBOSA MOREIRA, José Carlos. Comentários ao Código de Processo Civil. 8. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2000, v. 5, p. 111.
297 Cf. TALAMINI, Eduardo. Coisa julgada e sua revisão, p. 31; NERY JR. Nelson; NERY, Rosa Maria de A. Código de Processo Civil comentado, p. 677.
298 Cf. BARBOSA MOREIRA, José Carlos. Comentários ao Código de Processo Civil, p. 110. Contrariando este entendimento, Yarshell vislumbra formação de coisa julgada material nesta jurisdição (Ação rescisória, p. 180).
299 Cf. Alexandre Câmara. Ação rescisória, p. 58.
300 Neste sentido: COSTA, Coqueijo. Ação rescisória. 5. ed. São Paulo: LTr, 1987, p. 37. CÂMARA, Alexandre. Ação rescisória, p. 57; Barbosa Moreira, Comentários ao Código de Processo Civil , p. 112.
301 Cf. CÂMARA, Alexandre. Ação rescisória, p. 57. Vale ressaltar que é pacífica a existência de mérito nos procedimentos de liquidação e na impugnação (Alexandre Câmara, Ação rescisória p. 59; TALAMINI, Eduardo. Coisa julgada e sua revisão, p. 31). Diversamente, Pontes de Miranda enumera mais casos em que julga possível caber ação rescisória, via de conseqüência, haver coisa julgada passível de desconstituição. São exemplos a arrematação e a adjudicação, a que julga a verificação de créditos, a que decide sobre o quadro de credores, a que julga extinta as obrigações, entre várias outras. Isto porque o autor, estudioso do sistema do CPC/39, acreditou que também no novo código era possível rescisão de sentença imunizada tão-só pela coisa julgada formal (Tratado da ação
Devemos pôr em destaque os casos das sentenças que julgam relações jurídicas continuativas em que há fato novo e das ações coletivas de direitos difusos e coletivos stricto sensu julgados improcedentes por falta de provas, que, em seu âmago, se assemelham. No caso daquelas, as sentenças regulam situações de trato sucessivo e a lei autoriza nova discussão no caso de mudança de estado de fato e de direito ocorrida supervenientemente ao trânsito em julgado (art. 471303 do CPC). Já no caso das ações coletivas, como se verá mais detidamente, também é a lei que autoriza novo debate sobre o direito quando, ao tempo da sentença, não se colheu meios probatórios suficientes para assegurar o interesse da coletividade304.
Portanto, a imutabilidade gerada pela sentença tem caráter relativo, na medida em que a lei exclui hipóteses de não incidência.
A propósito das relações jurídicas continuativas, Liebman cita a lei italiana sobre decisão de alimentos, já que à nossa é similar: “a determinação de uma relação jurídica, feita pela sentença, pode ser modificada, mudando as circunstâncias. Afirma-se geralmente que isso pode acontecer porque nesses casos a sentença é dada com a cláusula rebus sic stantibus e os princípios da coisa julgada sofrem por isso uma atenuação”.
Como bem observou, nessas relações a possibilidade de mudança se dá em razão da natureza variável do objeto ou direito discutido:
a coisa julgada se forma como para todas as outras sentenças e vale enquanto permaneçam inalteradas as condições da relação, só se tornando possível uma mudança quando e na medida em que variam as circunstâncias que determinam a decisão.
rescisória, 1976, p. 355). Tanto para Pontes de Miranda, como para Barbosa Moreira a sentença que
declara a insolvência do devedor, faz coisa julgada material. Este último autor citado ainda lembra que na execução é possível se reconhecer a prescrição, hipótese em que também assume os efeitos da coisa julgada (BARBOSA MOREIRA, José Carlos. Comentários ao Código de Processo Civil, p. 111).
302 Cf. TALAMINI, Eduardo. Coisa julgada e sua revisão, p. 31. Por outro lado, não apoiamos Alexandre Câmara ao defender existir coisa julgada material nas sentenças homologatórias (Ação
Rescisória, p. 56), o que também se extrai da Súmula 100, V, do TST, que trata das rescisórias
naquela jurisdição: “O acordo homologado judicialmente tem força de decisão irrecorrível, na forma do art. 831 da CLT. Assim sendo, o termo conciliatório transita em julgado na data da sua homologação judicial”.
303 Art. 471. Nenhum juiz decidirá novamente as questões já decididas, relativas à mesma lide, salvo: I – se, tratando-se de relação jurídica continuativa, sobreveio modificação no estado de fato ou de direito; caso em que poderá a parte pedir a revisão do que foi estatuído na sentença; II – nos demais casos prescritos em lei.
304 BARBOSA MOREIRA, José Carlos. Comentários ao Código de Processo Civil, p. 110; CÂMARA, Alexandre. Ação rescisória, p. 58.
Assim, repudia a afirmação de que os princípios da coisa julgada sofrem, com isso, uma atenuação, pois as mudanças fáticas requerem uma adaptação da decisão precedente, “o que será uma aplicação, e nunca uma derrogação dos princípios gerais e nenhum obstáculo encontrará na coisa julgada”. Na verdade, conclui o Mestre, a coisa julgada exala sua força na medida em que impede apreciação diversa do caso enquanto não se modifique a situação fática305.
Já no que adrede aos limites subjetivos, o foco da intangibilidade do comando da sentença direciona-se às pessoas atingidas pela decisão.
Preceitua o art. 472:
Art. 472. A sentença faz coisa julgada às partes entre as quais é dada, não beneficiando, nem prejudicando terceiros. Nas causas relativas ao estado de pessoa, se houverem sido citados no processo, em litisconsórcio necessário, todos os interessados, a sentença produz coisa julgada em relação a terceiros306.
Desse dispositivo resulta que, via de regra, a coisa julgada só atinge o demandante e o demandado (partes originárias e sucessoras, quando for o caso). Afinal, somente estes que tiveram a possibilidade de tomar parte do devido processo legal. É o que Nery e Nery denominam “coisa julgada inter omnes”307.
Se acaso um fornecedor comete ato ilícito e é condenado, a sentença condenatória não faz coisa julgada em face do outro fornecedor da cadeia que sofra ação regressiva. Este poderá se opor contra a sentença demonstrando não ser o responsável pelo dano.
Trata dos casos em que o vencido tem ação de regresso contra um terceiro. No Brasil deve-se chamar ao processo o fiador, a seguradora, casos de evicção etc. e no processo coletivo, em que não é permitido? Vale a sentença contra o terceiro? Ele pode impugná-la, rescindi-la?
Liebman, tratando do caso das obrigações solidárias em que nem todos participaram da lide, resume que “a conclusão mais justa será a de ampliar-se ao terceiro a eficácia da sentença, mas sem a autoridade da coisa julgada, deixando- lhe, pois, íntegra a faculdade de contestar a eficácia da sentença”.
305 LIEBMAN, Eurico Tullio. Eficácia e autoridade da sentença e outros escritos sobre a coisa julgada, p. 25 a 27.
306 Cruz e Tucci entende que, na verdade, a eficácia da sentença nas ações de estado em nada se difere das demais, senão pelo objeto. , p. 295-296.
É certo que a eficácia natural da sentença (propagação de efeitos derivada da imperatividade do comando judicial) atinge a todos: as partes e terceiros. Contudo, não se duvida da possibilidade de terceiros discutirem a questão em ação autônoma. Então será inoponível frente a certos terceiros, que terão as mesmas garantias constitucionais (contraditório, ampla defesa etc.) na nova ação.
Entretanto, há determinadas situações em que pessoas que não foram partes no processo acabam sendo atingidas pela autoridade da coisa julgada. É o que acontece com os litisconsortes unitários, necessários e assistentes litisconsorciais308, credores solidários309, os sucessores, o substituído que não foi parte no processo, o assistente simples310, e os terceiros interessados311.
Portanto, “terceiros, estranhos ao processo, também podem ser afetados, de modo mais ou menos intenso, pela eficácia da sentença não mais sujeita a recurso”312.
Em vista disso, a regra geral indica que o âmbito de incidência da coisa julgada fica restrito às partes e, em alguns casos, a terceiros. Todavia, a própria natureza da lide pode requerer efeitos expansivos. No CPC, por exemplo, temos a previsão de efeitos erga omnes nas ações de estado (art. 472). Todavia, imperioso destacar o regramento especial para a extensão dos efeitos das sentenças nas ações que tutelam questões transindividuais, objeto do tópico seguinte.
308 A autoridade da sentença atinge aqueles litisconsortes necessários e/ou unitários ativos que não quiseram ingressar na lide, mas não atinge aquele do pólo passivo, pois deveria ter sido citado para a ação (inexistência de sentença em relação a eles). “É possível afirmar que o litisconsorte preterido não é atingido pela coisa julgada que lhe é desfavorável, mas nada impede que, sendo favorável o resultado do processo ao litisconsorte presente, possa, aquele que não participou, opor o julgado à parte que sucumbiu”. CRUZ E TUCCI, José Rogério. Limites subjetivos da eficácia da sentença e da
coisa julgada civil. São Paulo: RT, 2006, p. 241.
309 Apesar de ser atingido pela autoridade da coisa julgada não lhes é dada legitimidade para rescindir a sentença. Cf. BARBOSA MOREIRA, José Carlos. Comentários ao Código de Processo
Civil, p. 169.
310 Nelson e Rosa Maria Nery ressaltam que os efeitos atingem o substituído em razão de ser ele o titular do direito e, apesar de não ser parte, também atinge o assistente simples por disposição do art. 55 do CPC. (Código de Processo Civil comentado,. comentário ao art. 472).
311 Terceiros interessados “são atingidos reflexamente pela coisa julgada material. É o caso, p. ex., daquele que adquire o direito ou objeto litigioso, pois mesmo que não ingresse no processo com sucessor do alienante, fica sujeito aos efeitos da coisa julgada” (NERY JR. Nelson; NERY, Rosa Maria de A. Código de Processo Civil comentado, p. 617).
312 CRUZ E TUCCI, José Rogério. Limites subjetivos da eficácia da sentença e da coisa julgada civil, p. 188.