Para entender o percurso linguístico que pretendo trilhar, penso ser oportuno desenhar sucintamente um panorama histórico das teorias e concepções de linguagem. Sob uma perspectiva mitológica, sua origem remonta à arbitrariedade do signo no período edênico
passando pela diversidade linguística babilônica e pelos sistemas de tradução no início do primeiro século d.C. Remeto-me, em seguida, ao período filosófico com a retórica sofista, os debates platônicos e socráticos sobre a relação entre a realidade e o pensamento. Esses resultam em uma percepção de linguagem cujo núcleo reside apenas na externalização do pensamento por meio de um sistema fonético. Nesse período, surge o estudo formal das gramáticas que dá origem à abordagem pré-estruturalista cujo foco inicial era a busca de uma proto-língua, supostamente a indo-européia. Em seguida, temos os estudos linguísticos comparados baseados em línguas mortas documentadas.
Na fase posterior desse panorama histórico, destaco o período estruturalista cuja figura central é Ferdinand de Saussure (2003) que estabeleceu o conceito de dicotomias — langue e parole, sincronia e diacronia, sintagma e paradigma, bem como o de significante e significado que formam o signo linguístico. Embora a teoria de Saussure não tenha levado em consideração a figura do sujeito, bem como a questão histórica e a da variação, ofereceu contribuições interessantes para a linguística enquanto ciência autônoma e aos estudos da linguagem em si. Derivam-se da proposta saussuriana o formalismo e o funcionalismo. O primeiro centra-se mais no funcionamento da língua em seu estado abstrato, unitário, autônomo, como uma estrutura sui generis que é dissociada do ato comunicativo. Advém daí a concepção cognitivista originadora do descritivismo pragmático, empírico e particular, e do gerativismo que se orienta por uma perspectiva mentalista e universal.
Por outro lado, temos a concepção funcionalista da linguagem formalmente estabelecida e desenhada a partir dos trabalhos fundadores de Roman Jakobson (1963) e Michael Halliday (1970). Nessa concepção o foco está na linguagem como uma estrutura maleável, em funcionamento, em uso. A linguagem é uma ferramenta de comunicação e interação social, é concreta, é contextual e não é autônoma. A concepção funcionalista abriga as teorias enunciativas, e.g. a linguística textual e a sociolinguística, que retomam a preocupação com as relações do sujeito nas distintas instâncias da linguagem em uso, bem como as teorias discursivas, e.g. a semiótica e a análise de discurso, cujo interesse está nas relações sociais e ideológicas que se evidenciam no uso da linguagem.
Em síntese, posso formatar esse breve panorama em quatro concepções de linguagem, a saber, a tradicional com a perspectiva mitológica, a filosófica e a abordagem pré-estruturalista; a estruturalista saussuriana; a cognitivista que abriga a proposta
descritivista e a gerativista; e, a sócio-interacionista representada pelo funcionalismo e as teorias enunciativas e discursivas. Meu objetivo com esse breve traçado histórico é situar o leitor deste texto quanto às razões pelas quais optei pelas teorias linguísticas em tela para a análise dos dados gerados para esta pesquisa.
Destarte, para os fins a que se destinam esta investigação, opto pela aderência à Linguística Sistêmico-Funcional (LSF), tributária do funcionalismo etnográfico e do contextualismo desenvolvidos pelo antropólogo polonês Bronisław Malinowski (1993). Alicerça-se também na linguística da tradição etnográfica de Raymond Firth (1951) e nos trabalhos de Edward Sapir (1929), Benjamin Lee Whorf (1956) e Franz Boas (1940), além do funcionalismo do Círculo Linguístico de Praga resenhados por Jacob Guinsburg (1978) e Geoffrey Sampson (1980).
Pensando em uma definição para a Linguística Sistêmico-Funcional, Sá (2014) destacou que a linguagem é um sistema sociossemiótico composto de um conjunto de recursos e sentidos semântico-discursivos construídos quer em contextos pessoais e com significados individuais, quer em processos sociais e em contextos com demandas específicas, em uma relação societal dialético-dialógica. Sendo como tal, a linguagem é aberta quanto à produção de significados e é mediadora da relação entre o ser humano e a sociedade em que se insere. Ampliando a definição de LSF, Almeida (2010, pp. 13, 17) ressalta que esta “descreve e analisa as realizações linguísticas dos falantes ou escritores de forma sistemática e funcional levando em conta fatores sociais e semióticos. Está orientada para o significado e para o uso da língua como um fenômeno social”.
Michael Halliday (2014), mentor da LSF, descreve a linguagem como um sistema complexo e envolto em um dinamismo próprio; e, Fabíola Almeida (2010) menciona que o uso da língua é baseado em escolhas com foco nas relações paradigmáticas e não nas sintagmáticas. Ou seja, na abordagem sistêmico-funcional o uso da língua é motivado por relações sociais e por escolhas linguísticas que têm a função de criar significados. Isso é condicionado e influenciado por dois contextos diferentes e interdependentes entre si, i.e., o de situação e o de cultura.
Para Michael Halliday e Huqaya Hasan (1989, p. 46), o contexto de situação é mais concreto e refere-se ao “ambiente imediato no qual um texto está realmente funcionando” e organiza-se em torno do registro. Para Halliday (2014), o registro guarda
relação apenas com o plano de expressão contextual da língua. Jim Martin (1992, p. 502), porém, amplia esse conceito ao dizer que, além do caráter linguístico contextual, o registro “refere-se ao sistema semiótico constituído pelas variáveis contextuais”. Tal registro torna-se, então, tangível à medida que certas variáveis do contexto de situação revelam o ambiente não- linguístico em que o texto se desenrola.
Essas variáveis dos ambientes discursivos são o campo, as relações e o modo. Halliday e Hasan (1989, p. 12) dizem que o “campo refere-se ao que está acontecendo, à natureza da ação social em execução; as relações referem-se a quem está participando, seus status e papéis; e, o modo refere-se a que papel a linguagem está desempenhando”, em favor dos participantes.
Praxedes (2010) aborda os tipos de significados semânticos gerados nesses ambientes discursivos, os quais são observáveis e tornam-se tangíveis por meio de metafunções da linguagem. A metafunção ideacional serve ao propósito de indicar as experiências humanas e, enquanto área léxico-gramatical, é ativada pelo sistema de transitividade e as relações sociais lógicas. O participante, o processo e as circunstâncias compõem as funções estruturais da oração que servem ao propósito da representação nas relações.
A metafunção interpessoal aloca os significados gerados pelo estabelecimento das relações sociais e, léxico-gramaticalmente, é realizada pelos sistemas de Modo e modalidade e de valoração. As funções estruturais da oração nesta metafunção, o modo e o resíduo, indicam a interação. Por fim, a metafunção textual é ativada na área léxico-gramatical pelo sistema de tema e informação. A oração tem a função estrutural de transmitir a mensagem por meio do tema e rema cumprindo, assim, o papel, segundo Michael Halliday e Christian Matthiessen (2004, p. 30), de “organizar o fluxo discursivo e criar coesão e continuidade na medida em que esse fluxo se estabelece”.
O contexto de cultura é mais amplo, abrangente e abstrato. Serve para verificar o objetivo, a motivação, o reconhecimento e a validade de certos sentidos e significados criados pela interação social e contexto organiza-se a partir de gêneros que, conforme Suzanne Eggins (1994, p. 32) salienta, pertencem a “um nível mais abstrato, mais geral como um quadro geral que dá propósito às interações”. Para Jim Martin (1992, p. 505), gênero é “um processo social encenado, objetivamente orientado e realizado através do registro”.
Enquanto, por um lado, o registro projeta a diversidade metafuncional da língua pelas variáveis linguísticas, o gênero, por outro lado, segundo Martin (1997, p. 6), “explica as relações entre os processos sociais em termos mais holísticos, com um foco especial nos estágios pelos quais muitos textos se desdobram”. Juntos, lançam luz sobre o contexto e as interações sociais que se processam no seu interior. Logo, parece haver uma relação indissociável entre gênero e registro.
Dentro do espectro epistêmico-metodológico da LSF, meu trabalho assenta-se na metafunção interpessoal. Sá (2016a, p. 226) menciona que nesta metafunção “a linguagem se movimenta de forma dinâmica e fluida na tessitura social e dentro de um espectro conotativo e denotativo, centrado nas personagens, nas relações assimétricas e nas interações sociais em múltiplos contextos de situação e de cultura”. Igualmente (2016a, p. 236) salienta ainda que “na metafunção interpessoal, o papel discursivo do interlocutor é centrado no ato de dar e trocar informações; e que o faz por meio do uso excessivo de declarações e interrogações cujo objetivo semântico é propor uma reflexão sobre alguma temática de ordem social”.
Por esse motivo, vejo como coerente que o sistema de avaliatividade esteja inserido dentro dos pressupostos da metafunção interpessoal. Sobre essa rede de sistemas, como referencia Praxedes (2013), Luísa Azuaga e António Avelar (2003, p. 26) dizem que surgiu “para designar toda uma gama de recursos avaliativos da língua, incluindo os que são empregados pelos falantes para exprimir posturas, atitudes mentais e valores ou até para negociá-los com os seus interlocutores. Inclui, ainda, a consideração das atitudes, julgamentos e respostas emotivas”.
Fernanda Morais (2012, p. 72) complementa essa ideia ao dizer que a análise de discursos é feita também no nível de avaliação do texto, pois esta permitirá que “se diga o motivo pelo qual o texto é ou não eficaz para os seus propósitos, já que se requer uma compreensão do relacionamento sistemático entre texto e contexto”. Por conseguinte, segundo Jim Martin e David Rose (2003, p. 22) é possível afirmar que a principal função do sistema de avaliatividade refere-se à semântica da avaliação, pois indica os “tipos de atitudes que são negociados em um texto, a força dos sentimentos envolvidos e as maneiras pelas quais os valores são originados e os leitores são alinhados”.
O sistema de avaliatividade está organizado em subsistemas também chamados de domínios de interação por Jim Martin e Peter White (2005) ou níveis de delicadeza por Pedro
Praxedes (2013). Martin e White (2005, pp. 34-35) dizem que “avaliatividade é um dos três recursos semântico-discursivos principais que constituem os significados interpessoais. Esse sistema é organizado em três domínios de interação: atitude, engajamento e gradação”.
O primeiro domínio de interação, ou subsistema de atitude, refere-se aos recursos utilizados para indicar emoções, julgamentos e valorações e é nele que o interlocutor se posiciona em relação a sua própria atitude, a do outro e em relação ao intertexto. O segundo domínio de interação, ou subsistema de engajamento, é a dimensão que negocia posições sociais e remete-se à noção bakhtiniana de dialogia. Essa dimensão é subdividida em engajamento monoglóssico que, segundo Peter White (2003, p. 263), refere-se a “asserções categóricas que não permitem o questionamento, isto é, não dão margem à dialogia”; e engajamento heteroglóssico que, em oposição ao primeiro, refere-se à existência de outras vozes dialógicas sobre determinado tema em pauta.
Tal subsistema empresta a definição de heteroglossia de Mikhail Bakhtin (1981, p. 428) quando esse filósofo da linguagem diz que se trata da “condição básica que governa a operação de sentido em qualquer uso da linguagem. É o que concede a primazia do contexto sobre o texto”. Em outras palavras, sob o prisma da heteroglossia, a linguagem sempre projeta e é projetada por outra linguagem, pensando no sentido mais amplo do termo. Logo, é possível falar em dialogia de linguagens cujos discursos deslocam e são deslocados. Diego Sousa (2014, p. 19) traduz esse fenômeno dizendo que “linguagem sócio-historicamente constituída permite erigir a possibilidade de tangenciar sua palavra com outras palavras, palavras alheias, contrárias, camaradas”. Por fim, o terceiro domínio de interação, ou subsistema de gradação, está associado aos recursos linguísticos que são usados para expressar a intensidade das avaliações e organizá-las em uma escala baseada em valores sociais que varia entre polos mais ou menos intensos dependo do contexto de uso.
Falando sobre a organização do sistema de avaliatividade, Célia Magalhães e Pedro Praxedes (2013, p. 17) dizem que se trata de “uma rede de sistemas, ou seja, um conjunto de sistemas inter-relacionados, cuja organização relacional se dá através dos níveis de delicadeza em uma escala de refinamento e detalhamento”. Toda a rede se desdobra nesses níveis de delicadeza ou categorias. Na tabela, procuro apresentar uma visão mais panorâmica do sistema de avaliatividade.
Tabela 2 — Sistema de avaliatividade e seus seis níveis de delicadeza
Fonte: adaptado pelo autor (2019) com base em Praxedes (2013, p. 79)
1º 2º 3º 4º 5º 6º Atitude Afeto Felicidade Segurança Satisfação Julgamento Estima social Normalidade Capacidade Tenacidade Sanção social Veracidade Propriedade Apreciação Reação Impacto Qualidade Composição Proporção Complexidade Valor social Engajamento Monoglossia Heteroglossia Contração Discordância Negação Contraexpectativa Proclamação Concordância Afirmar Conceder Pronunciamento Endosso Expansão Entretenimento Atribuição Conhecimento Distanciamento Gradação Força Intensificação Qualidade Processo Quantificação Quantidade Volume Extensão Distribuição Tempo Espaço Proximidade Foco
Embora não alocados diretamente sob os níveis de delicadeza indicados na tabela por estarem relacionados à movimentação do domínio de interação, há que se destacar também que dentro do subsistema de atitude a polaridade pode ser manifestada de forma positiva, ambígua ou negativa. Esse subsistema realiza-se de modo inscrito ou evocado e este, por sua vez, pode ser provocado ou convidado por meio de sinalização ou propiciação. Por fim, devo ressaltar que no subsistema de gradação a intensidade da avaliação pode ser aumentada ou diminuída.
Sob um prisma mais prático, nesta pesquisa vou centrar minhas análises no subsistema de atitude e seus níveis de delicadeza. Assevero desta forma, pois após uma análise prévia dos dados gerados, apontou-se para uma relação avaliativa das interações sócio- institucionais como geradora de reações emocionais e comportamentais e de sentimentos. No transcurso e concomitante as análises dos dados, irei aprofundar a epistemologia de estratificação desse subsistema.
Após essa visão mais holística da Linguística Sistêmico-Funcional, gostaria de tecer uma consideração sobre o paradigma interpretativista e como esse se aliará ao sistema de avaliatividade.