4 A folkcomunicação no ambiente indígena
4.1 O papel de cada meio folk
4.1.1 Linguagem como signos
Em Teoria Geral da Comunicação (1977a), Luiz Beltrão enumera que há tipos de linguagens, como signos convencionais (não verbais) entre elas, a “Comunicação pela arte” e a “Comunicação pelo objeto”. A primeira se refere “a uma maneira consciente e deliberada de emissão de mensagens culturais, que seriam incodificáveis por palavras” (BELTRÃO, 1977a, p.72), tais como as inscrições rupestres, denominadas por ele de pinturas das cavernas, que advertem para armadilhas da natureza, além de servirem na composição de um “mapa territorial” para orientação espacial. Eis um episódio ilustrativo:
Foi sem dúvida, guiando-se por esses sinais convencionais entre os seus, que aqueles dois tupinambás a que se refere Gabriel Soares de Sousa, levados presos por mar da Bahia para o Rio, conseguiram fugir e tornar aos seus pagos por terra, vencendo nada menos que trezentas léguas de matas e desertos (BELTRÃO, 1971, p.22).
As comunicações visuais em rochas e árvores, consideradas linguagem, serviram para guiar os nativos ao longo do percurso de vereadas e atalhos estimado entre 1.666 e 1980 quilômetros de distância entre a Bahia e o Rio de Janeiro. Com relação ao “produtor do signo ou símbolo, este deverá ser capaz de responder a ele da mesma forma que se espera que a outra pessoa o faça” (FEARING, 1977, p.58), no que concorda Beltrão (1977a, p.58-59), “na verdade, o processo da comunicação só estará completo quando ambas as partes estão informadas, prontas para adotar uma atitude com pleno conhecimento das ideias e sentimentos comuns”.
Holanda (1994, p.20) afirma que “um sistema de sinalização convencional nada seria, porém, sem o socorro de um espírito de observação permanentemente desperto e que só se desenvolve no contato prolongado com a vida nas selvas”, caso dos nossos indígenas. Nisso se constitui uma relação linear e direcional entre o comunicador e o receptor nativos.
As inscrições rupestres estavam gravadas em rochedos, paredões, cavernas e em cachoeiras bem antes da chegada dos colonizadores europeus no Brasil. As inscrições rupestres “acompanham a instalação do homem no território brasileiro desde o começo, estando espalhadas de norte a sul, de leste a oeste, seguindo a adaptação do homem ao meio e variando de acordo com este” (SCHMITZ, 2007, p.106).
O caráter nômade dos índios fez com que algumas inscrições rupestres ganhassem destaque, sendo muitas delas ainda hoje um enigma para arqueólogos, antropólogos e historiadores. Como não havia a escrita gráfica, era por meio de desenhos de peixes, que se indicava haver alimentos em determinada região. Viajantes que percorreram os rios do Brasil Central atestam que, “para indicar que determinado local é abundante em determinada casta de peixes, os índios usam às vezes o sistema de desenhar nas areias da margem a figura desse peixe. Quem venha depois e esteja a par do processo não correrá o risco de enganar-se. É só lançar o anzol" (HOLANDA, 1994, p.25).
Fiske explica que a intenção do emissor pode ser explícita ou implícita, consciente ou inconsciente, mas tem que ser recuperável por meio de análise. “A mensagem é o que o emissor nela coloca, independentemente dos meios utilizados” (FISKE, 2005, p.16-17). Hohlfeldt completa:
Isso porque a comunicação, ao permitir o intercâmbio de mensagens, concretiza uma série de funções, dentre as quais: informar, constituir um consenso de opinião – ou, ao menos, uma sólida maioria – persuadir ou convencer, prevenir acontecimentos, aconselhar quanto a atitudes e ações,
constituir identidades, e até mesmo divertir (2008, p.63).
Beltrão afirma que, entre os tipos de linguagem, está a comunicação pela arte (a música, a dança e a artes plásticas), que era de domínio dos indígenas brasileiros antes da chegada dos colonizadores. A música era praticada em rituais de antropofagia, nas festas de puberdade e nas colheitas abundantes e satisfatórias, em seus territórios ou em tempos de guerra para incitação de fúria contra inimigos hostis.
Os instrumentos musicais tinham na função bélica seu momento de apogeu, quando os tambores de aviso, os “pífanos e flautas feitos de ossos de braços e pernas de inimigos devorados eram usados, incitando o bando guerreiro a matar e devorar os inimigos contra os quais se atiram”, afirma Léry (1980, p.171-172), ou quando os “tupinambás usavam os tambores como acessório indispensável a toda expedição militar” (FERNANDES, 1970, p.37).
Os grupos indígenas, que dominavam a técnica de produzir cerâmica, praticavam a comunicação pelas artes plásticas, tidas por Beltrão (1977a, p.72-73) como “processo de abstração que constitui a nossa vida mental e se expressa em símbolos que começa com a percepção de estruturas sensíveis”. Alguns dos desenhos eram captados pelo pajé quando se encontrava em transe e transmitidos aos artistas que os multiplicavam em seus objetos de cerâmica. “Estes símbolos se articulam também mediante linhas, cores e proporções, em combinações tão complexas como as das palavras”, atesta o autor (1977a, p.73), o que faz com que a cerâmica pintada se torne abstrata. “A arte pictórica é a cena; a da escultura, o volume cinético” (BELTRÃO, 1977a, p.75), ambas não têm em comum com a realidade senão as relações.
Para ele, as formas de comunicação – pela arte e pela música – são criações artísticas. Beltrão tem outro conceito para a Comunicação pelo Objeto (1977a, p.76). Este tipo de comunicação, podendo ser o objeto natural ou fabricado, constitui o seu próprio universo e modifica o ambiente de acordo com as necessidades e, em decorrência também da hierarquia e prestígio de quem os possuíssem; “a cultura impôs o produto do trabalho humano como signo da posição de cada um na sociedade e de cada sociedade entre as demais” (BELTRÃO, 1977a, p.77). O processo de comunicação servia para estabelecer alianças com tribos rivais ou distantes e promover a integração dos nativos por meio de festas temáticas.
Por exemplo, entre os Carajás se faziam “estatuetas de madeira de forma humana, cujo estilo se aproxima daquele de bonecas de cerâmica” (MELATTI, 1970, p.153); os Tukúna
possuíam uma arte em madeira bastante elaborada, “esculpindo figuras humanas e animais em pequenas estatuetas. De madeira fazem também cabeças de animais, como o jacaré, com que encimam suas máscaras” (MELATTI, 1970, p.153) para as cerimônias nas quais participam.
O processo comunicacional indígena brasileiro foi criado e dominado pelos nativos, desde os primeiros tempos de vida comunitária, suprindo as carências que cada tribo tinha em defesa de sua sobrevivência e do território ocupado, já que eram constantes as invasões de outras etnias com o propósito de capturar e destruir a maior quantidade de inimigos ou de se apoderar do local mais propício para caça e a pesca.