• Nenhum resultado encontrado

Linguagem e alteridade – o campo dialógico do discurso

Capítulo 1: Fundamentação Teórica

1.3 Linguagem e alteridade – o campo dialógico do discurso

Segundo Bakhtin (2006), a restrita concepção de interação voltada para uma ação entre locutor e receptor não é suficiente para sustentar a ideia de alteridade. Para ele, o outro está presente dentro do próprio processo enunciativo, quando qualquer dito ou enunciado traz em si o que outro, deveras, pronunciou.

A palavra da língua é uma palavra semialheia. Ela só se torna “própria” quando o falante a povoa com sua intenção, com seu acento, quando a domina através do discurso, torna-a familiar com a sua orientação semântica e expressiva. Até o momento em que foi apropriado, o discurso não se encontra em uma língua neutra e impessoal (pois não é do dicionário que ele

é tomado pelo falante!), ele está nos lábios de outrem, nos contextos de outrem e a serviço das intenções de outrem (BAKHTIN, 2006; p. 100).

A base para esse pensamento pode ser bem compreendida em Faraco (2009), quando o autor elucida que, a partir do século XVIII, o debate sobre a interação foi tema da reflexão filosófica em busca de soluções para os entraves existentes nas concepções solipsistas, isto é, na visão de que o conhecimento deve estar fundado em estados de experiência interiores e pessoais do Ser. Na mesma corrente em que os eventos históricos fazem questionar as velhas formas organizacionais, políticas, sociais e econômicas, a intelectualidade volta-se para a formulação das ideias constitutivas das relações e da alteridade, nas quais o sujeito não existe sem o outro.

Entre os filósofos do século XX que mais contribuíram sobre a ideia, Faraco (2009) ressalta Martin Buber (2001), o qual se aprofundou na relação como modo humano da existência e, por consequência, em uma ética do inter-humano. Nesse enfoque, a alteridade precede e é constitutiva da identidade única do ser. Mesmo que o ser se diferencie de todos os outros de sua espécie como singular, toda e qualquer função psíquica só se desenvolve, bem ou mal, na presença do outro social. Ser reconhecido é o fundamento para a construção do Eu: ser visto, reconhecido, respeitado, quando isso, afinal, só ocorre na presença do outro.

Do ponto de vista filosófico, a linguagem inaugura a articulação entre o social e o individual, quando a sua dinâmica responsiva é o ponto de convergência entre individual e social. O levantamento histórico e filosófico que estabeleceu o conceito do outro dialogante onipresente na Filosofia Contemporânea concebe a “outredade” (Zavala, 2009; p.157) como constructo básico do ser que envolve, sempre, o eu relacionado no nível intersubjetivo.

Compreendendo a linguagem como um acontecimento, é possível perceber a enunciação carregada de alteridade. Essa abordagem coloca o enunciado no plano do dialógico, onde os sujeitos invisíveis, os que dialogam e debatem entre si, encontram-se presentes de forma axiológica. Para além do que está dito ou escrito, as entrelinhas podem ser caracterizadas como as brechas de significados que conduzem os impulsos à compreensão participativa, o cerne dos julgamentos de valor.

Importante ressaltar que para efeitos de pesquisa não são os acontecimentos de interação que serão focados, mas, sim, o que ocorre na linguagem na relação dialógica, quando a linguagem se apresenta estratificada e saturada pelas axiologias sociais. No embate das refrações sociais manifestas pelos enunciados, as marcas sociais de valor são construídas ao longo do processo sócio-histórico da humanidade, delineando a ideia sequencial de interação ininterrupta. Sendo vista dessa maneira, a interação é entendida como comunicação-verbal.

Oliveira (2008) explicita que à medida que a alteridade é definida na dimensão dialógica, da interconstitutividade entre o ser e o outro, os conceitos bakhtinianos rompem com a dicotomia entre o mundo abstrato e o mundo da cultura e passam a enxergá-los, ambos, em uma relação unitária, nos espaços onde os atos ganham significados. Assim sendo, no momento em que o ato é realizado, no plano da signific(ação), ação e sentido adquirem responsabilidade/respondibilidade.

O encadeamento entre o sentido e o fato, entre o universal e o individual, entre o real e o ideal, faz parte de um todo que se insere na composição de motivação responsável, isto é, a partir do reconhecimento da participação única do ser quando o ato responsável é uma resposta, pois somos “cada um com o outro na irrecusável continuidade da história.” (GERALDI, 2004; p.228).

Enxergar cada resposta responsável como ela é, torna-se um modo de reencontrar deslocamentos imperceptíveis na construção continuada de valores, que se transformam à medida que o tempo ocorre. Nessa relação em cadeia é preciso conceber o enunciado como um elo comunicativo dos discursos carregado de atitudes responsivas dirigidas a outros enunciados que ocorreram em outras esferas comunicativas discursivas.

Conforme explicita Geraldi (2004), a alteridade demarca a ação do pensamento participativo, o qual se concretiza e se revela pela linguagem. O pensamento traz em si a alteridade mediada pela linguagem internalizada pelos outros. Daí, podemos pensar que o evento só se concretiza caso venha ocorrer de forma participativa, pois a compreensão da alteridade passa pelo discurso como entrelaçamento de interação dos pensamentos que dialogam entre si. Portanto, é possível vislumbrar que o evento é sempre novo e original no momento e no espaço em que ocorre, ao ponto de se pensar que, antes de ser executado e reconhecido, o ato nunca existiu.

É possível retomar a ideia de que o sujeito dialógico constitui-se na linguagem em relações de sentido, resultante da responsividade (da tomada de posição axiológica de sentido). Quando um sujeito enuncia, ele emite ideias, significados de outros que perpassam pela sua subjetividade. A tomada (sempre) parcial de sentido pelo sujeito é ativa (como ato), não sendo possível repeti-lo, só ressignificá-lo. Assim, os enunciados emergem da multidão das vozes interiorizadas e são sempre discurso citado, embora nem sempre sejam percebidos como tal.

Cabe entender que as vozes impregnadas de valores sociais se encontram em nossa memória discursiva quando os sujeitos, que se envolvem nas relações dialógicas, estão socialmente organizados. Isso quer dizer que os sujeitos se definem como feixes de relações

sociais múltiplos, não fixos e marcados pela heterogeneidade, “numa emaranhada rede de signos” (FARACO, 2009; 121).

Em conformidade com o Círculo de Bakhtin, “a consciência adquire forma e existência nos signos criados por um grupo organizado no curso de relações sociais” (BAKHTIN; VOLOCHINOV, 2006; p.35). Dessa maneira, é possível vislumbrar a consciência individual abastecida de signos, derivando e refletindo deles a lógica e as leis que se impõem sobre a sociedade numa construção coletiva de consciências. Na perspectiva bivocal do discurso, nossos enunciados expressam, a um só tempo, a palavra do outro e a perspectiva com que a tomamos. O Círculo considera a singularidade do sujeito, sua unicidade e a impossibilidade de sua substituição. Assim, cada ser reage, à sua maneira, às condições objetivas. O ser humano é um ser de ação, uma ação sempre valorada e que, ao mesmo tempo em que o constitui, possibilita o seu reconhecimento como sujeito.

As relações dialógicas coexistem e, ao mesmo tempo, tencionam-se da mesma forma que a responsividade: a reação ao dizer do outro através da significação se mantém na área do embate e do encontro entre as vozes sociais. Todo enunciado é uma unidade tensa conflituosa, promovida pelas forças centrípetas e centrífugas que incorrem no discurso, pois toda palavra demanda um contexto ou contextos que a permeiam e apontam para o seu caráter intencional, pois as palavras se encontram povoadas de intenções. Cabe compreender a palavra ou enunciado como um campo de batalha entre as forças sociais, a força centrípeta, que busca centralizar seus valores e se sobrepujar ao plurilinguismo, e a força centrífuga, aquela que desgasta as tendências monológicas, abrindo-se para o processo dialógico do verbo.

Na percepção de que linguagem é interação no sentido de forças internas carregadas de valores sociais, a interação diz respeito às vozes que se encontram e se desencontram dentro dos enunciados. Diante disso, é possível definir que a linguagem se materializa nas relações sociais semioticamente e ocorrem sempre no interior das diversas esferas da atividade humana. Cabe agora entender que, dentro dessas esferas, ocorrem as formas relativamente estáveis dos enunciados que são chamadas de gêneros do discurso.