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2 A CONSTRUÇÃO DA METODOLOGIA DA PESQUISA

3.1 Linguagem e práticas discursivas inclusivas

No bojo de discussões subjacentes a noção de linguagem, há a ressignificação do termo prática discursiva, ou seja, da ampliação da referida noção. Assim, o conceito de práticas discursivas é discutido sob vários olhares, entre eles como um conjunto de práticas discursivas e não discursivas, reguladas por uma ordem do discurso que, por sua vez, determina aquilo que pode e o que não pode ser dito, trazendo implicações nas relações entre linguagem, sujeito, realidade e alteridade como quaisquer atividades discursivas relacionadas a realidade da qual emergem. Ou como qualquer atividade discursiva, entendida esta última como um acontecimento de caráter social e histórico que, tomada como objeto de estudo, possibilita compreender como o discurso constitui e representa a vida social em todas as suas esferas. Esse conceito de prática discursiva implica uma relação concreta com a realidade social enquanto atividade discursiva conforme Foucault (2005); Oliveira (2009) e Moita-Lopes(1993).

Desse modo, na área dos estudos da linguagem, em estreita relação com a educação, posso dizer que se torna relevante focalizar a linguagem enquanto uma prática discursiva da sociedade. Inspirada em formulações do Círculo de Bakhtin e suas contribuições, Oliveira (2009, p. 3) discute o conceito de práticas discursivas, revisitando tais noções na construção do conhecimento nas Ciências Humanas. Para ela, tais práticas referem-se a “qualquer atividade discursiva que, independentemente da vertente teórica, implique uma imprescindível relação com a realidade concreta na qual essas práticas emergem”. Além disso, mostra em que medida os construtos dos autores do Círculo de Bakhtin trazem construções para o estudo das práticas discursivas

na atualidade, o lugar de onde emergem, sua relação com a linguagem na constituição do sujeito e na alteridade, assim:

[…] concretamente, diríamos que hoje a noção de prática discursiva pode se referir a qualquer atividade discursiva que, independentemente da vertente teórica, implique uma imprescindível relação com a realidade concreta na qual essas práticas emergem (OLIVEIRA, 2009, p. 3)

Desse modo, tece-se uma reflexão sobre as questões das práticas discursivas e sua relação com o mundo, a vida, o sujeito e a alteridade. Ela acrescenta: “Assim pensado, o conceito circula no âmbito dos estudos da linguagem, sendo utilizado no estudo de outras práticas discursivas que não apenas aquelas produzidas no campo da ciência” (OLIVEIRA, 2009, p. 3).

Desse modo, vejo o Programa Conexões de Saberes e seus habitantes como uma prática discursiva na produção de sentido, no compromisso de fortalecer a cidadania e a construção universitária, a partir das práticas sociais dos estudantes de origem de comunidades populares, na sua relação com o discurso, a história, a linguagem e com o conhecimento. Esse conhecimento, o saber científico, é afetado pela presença dos estudantes de origem popular na universidade, que faz a própria universidade repense não somente os seus saberes, mas também a sua gestão e a produção do conhecimento em perspectiva de múltiplos olhares.

De acordo com Spink e Medrado (2000, p. 45), tais práticas discursivas “remetem, por sua vez, aos momentos de ressignificações, de rupturas de produção de sentido, ou seja, corresponde aos momentos ativos do uso da linguagem, nos quais convivem tanto a ordem como a diversidade”. Tais autores veem o sentido como uma construção social, coletiva e interativa na dinâmica social.

O conceito de práticas discursivas em Foucault (2005), como um campo de projetos, pela definição de uma perspectiva legítima para o sujeito de conhecimento, pela fixação de normas para elaboração de conceitos e teorias, para o autor, designam:

[…] um conjunto de regras anônimas, históricas, sempre determinadas no tempo e no espaço, que definiram, em uma

dada época e para uma determinada área social, econômica, geográfica ou linguística, as condições de exercício da função enunciativa (FOUCAULT, 2005, p. 133)

Nesse sentido, interessa pensar as práticas discursivas não como meramente um canal para a fabricação de discursos. A afirmativa de Foucault em seu Resumo dos Cursos do Collège de France (1970-1982) de que “as práticas discursivas caracterizam-se pelo recorte de um campo de projetos, pela definição de uma perspectiva legítima para o sujeito de conhecimento, pela fixação de normas para a elaboração de conceitos e teorias” me leva a pensar as práticas discursivas ligadas a um conjunto de transformações por vezes complexo nas relações sociais em que são produzidas tais práticas.

Esse pensamento me permite traçar um diálogo entre a linguagem perpassada por um olhar discursivo, pois se compreende o discurso do Programa Conexões de Saberes por meio dos sujeitos sociais dele participantes em sua historicidade, articulando-se o linguístico com a História. A respeito desse sujeito:

O sujeito é sempre e, ao mesmo tempo, sujeito de ideologia e sujeito do desejo inconsciente e isso tem a ver com o fato de nossos corpos serem atravessados pela linguagem antes de qualquer cogitação (PAUL HENRY, 1992, p.188).

Tomo a materialidade histórica da linguagem que o perpassa inscrita em textos, na compreensão de sua relação com a memória discursiva e o modo de produção de sentido. Estes, concebidos como unidades de interpretação e análise.

Nesse contexto, essa investigação caminha pelo viés discursivo e da linguagem como prática social, a partir das formulações de uma teoria do discurso para o entendimento das práticas discursivas institucionalizadas na ordem do discurso atual e que perpassam relações de linguagem, de sujeito e de alteridade. No contexto da presente pesquisa, concebo as práticas discursivas como definidas pela história. Essas práticas geram sentidos por intermédio da linguagem, do simbólico e da representação por meio dos quais são produzidas (PÊCHEUX, 1997; FOUCAULT, 2005; OLIVEIRA, 2009).

Numa abordagem de pesquisa qualitativa, estudo a natureza da interação pela linguagem, partindo do pressuposto de que é na interação com o outro que as relações intersubjetivas são social e culturalmente situadas. Penso na indissociabilidade entre os procedimentos teóricos e analíticos, extraindo algumas noções-chave para a análise dos dados. Diante do exposto, finalizo esta parte, afirmando, com essa concepção, que a linguagem e as práticas discursivas perpassam o discurso e a produção de sentido e, sobre estas, trato a seguir.