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Linguagem e Significado

No documento Euridice Bergamaschi Vicente.pdf (páginas 30-37)

CAPÍTULO 1 CONSTRUCIONISMO SOCIAL

1.2 Linguagem e Significado

As formas das pessoas compreenderem o mundo não vêm da realidade objetiva, mas de estruturas conceituais e categorias já existentes com significados providos pela linguagem utilizada por estas em determinada cultura.

Grandesso (2000) evidencia que seres humanos geram sentidos para suas vidas ao interpretarem a si mesmos e ao mundo em que vivem utilizando-se da linguagem. A própria constituição do humano está ligada à linguagem, uma vez que seres humanos são considerados seres lingüísticos.

A linguagem não resulta da capacidade de um indivíduo, ela prescinde do contexto social, conforme relatam Maturana e Echeverria (1997, 1996 apud GRANDESSO, 2000, p.182):

a linguagem pode ser entendida como um fenômeno constituído como uma coordenação consensual da coordenação de ações, portanto, uma coordenação recursiva de comportamentos.

A contribuição de Maturana no campo da linguagem é dada ao afirmar que o humano apareceu com o surgimento da linguagem, havendo uma associação entre os dois de tal forma que a esta se apresenta como essencialmente humana e o humano como essencialmente lingüístico (GRANDESSO, 2000).

É importante reconhecer que a linguagem não deve ser vista como instrumento para descrever o mundo, mas como um meio que possibilita criar realidades. Apesar da linguagem remeter a um sujeito falante, ela é mais ampla do que isso. Ela tem um caráter que vai além do sujeito, pois tem mais a ver com o

“nós” do que com o “eu”. Ainda segundo Grandesso (2000), antes do ser humano ser falante, ele é ouvinte, e a linguagem, seja ela falada ou escrita é um produto de intercâmbio social, podendo ser definida como uma prática social. Esta visão é explicitada por Coutinho (1994 apud GRANDESSO, 2000, p.186), que ao considerar a diversidade e a complexidade de convenções sociais, incluindo as dimensões verbais e não verbais, apresenta a linguagem como deixando de ser caracterizada só pelo verbal e passando a ser vista como uma prática social.

Wittgenstein (1996 apud GRANDESSO, 2000, p. 185) propôs o conceito de “jogos da linguagem” como um contexto no qual se poderia compreender o significado lingüístico e de qualquer outro ato comunicativo. Assim, as palavras só poderiam adquirir um significado a partir de seu uso num contexto. Não obstante, o relacionamento entre pensamento e linguagem tem sido o foco de um debate antigo na Psicologia, resultando em mais de uma conceituação. Uma diferença significativa para enriquecer o entendimento de tais propósitos está entre as posições adotadas por Piaget e Whorf (1941 apud BURR, 2003, p. 8).

Piaget acreditava que a criança deveria desenvolver conceitos até o ponto em que rótulos verbais poderiam lhes ser dados, mas Whorf argumentava que a língua nativa de uma pessoa determinava o jeito como elas pensavam e percebiam o mundo. A Psicologia tradicional mantém a pressuposição implícita de que a linguagem é uma simples expressão do pensamento, e não uma pré-condição dele.

Em contraposição ao enfoque tradicional, que considerava a linguagem como um veículo do pensamento, a visão pragmática segundo Malinowski e Pearce e Cronen (1923 e 1980 apud GRANDESSO, 2000, p.186) enfatiza que a linguagem

é um modo de comportamento, indispensável para a ação humana coordenada. [...] as palavras são usadas para produzir uma ação e não para descrevê-la, e menos ainda, para transmitir pensamentos.

Shotter (1994 apud GRANDESSO, 2000, p.187) se refere a dois aspectos importantes da função retórica da linguagem: o persuasivo e o poético.

O aspecto persuasivo inclui a definição da linguagem pela sua capacidade de afetar o comportamento das pessoas por meio de um poder não cognitivo, e

depende da magia das palavras (por exemplo: “eu te amo”), que têm significado com capacidade persuasiva capaz de mudar o fluxo de atividade (neste caso, entre parceiros). Quanto ao aspecto poético da linguagem, considerado por Shotter como o mais importante, o mesmo se incumbe de dar forma à natureza da vida humana, que é sempre vaga e fluida, fazendo com que esta se pareça ordenada e estruturada.

Ao analisar as interações diárias como produção ativa das formas de conhecimento que se presume, segue-se que a linguagem também deve ir além de um modo de expressão. Pode-se pensar no uso da linguagem, portanto, como uma forma de ação. Alguns sócio-construcionistas utilizam-se deste papel "performativo" da linguagem como seu foco de interesse, como é o caso de Burr quando diz que “quando as pessoas falam umas com as outras, o mundo se constrói” (BURR, 2003, p. 4).

Como explicita Grandesso, Austin destaca o uso da linguagem nos atos performativos ressaltando três tipos: atos locucionários (que dizem algo sobre alguma coisa), ilocucionários (que se referem ao que o orador faz ao falar), e perlocucionários (que produzem efeito ao serem ditos). Pode-se afirmar, então, que a expressão de sentido atribuída à linguagem não diz respeito meramente a uma função descritiva, mas à constatação de sentimento. Por este motivo, Austin afirma que “atos performativos fazem coisas” (AUSTIN, 1990 apud GRANDESSO, 2000, p.187). Seria desnecessário falar da beleza do sentido que encerra estas últimas palavras com base no que se pode entender delas, mas de fato, amplia o entendimento de que palavras são formas de revelar o mundo dos sentimentos, como o da beleza presente nestas, que se nos revelou.

Vygotsky esclarece que a linguagem não esgota os processos de produção de significação, configurando-se no mais importante desses processos. O autor analisa detalhadamente os elementos da “palavra”, desmembrando-os em: o “significante”, o “referente” e o “significado”. O significado passa a ser considerado o elemento chave da análise de significação, na medida em que une o “significante” e o “referente” (objeto ao qual ele se refere) (VYGOTSKY, 1984 apud PINO, 1993, p. 20). É preciso levar em conta que há um duplo referencial

semântico nos processos de significação: 1) sistemas de significação formados ao longo da historia cultural e social, e 2) experiência pessoal e social individual, reproduzida no ato do discurso. O primeiro, apesar de sua natureza dinâmica, apresenta caráter fixo, enquanto o segundo, extremamente dinâmico, se faz e refaz nos processos discursivos. Esta questão da dupla referência semântica (sentido versus significado) tem se mostrado de grande importância para a compreensão dos processos discursivos (PINO, 1993).

Da mesma forma que a significação da palavra depende das concepções individuais e sociais, a significação dos gestos vem imbuída das construções que os indivíduos participantes das ações lhes atribuem ao realizá-las. Assim, considerando-se que os significados da ação de um indivíduo dependem também dos contextos em que ocorrem as ações dos demais, torna-se difícil estimar a

priori como será a ação de alguém (GRANDESSO, 2000).

Apreciando ainda a opinião de Bateson (1986) a respeito do quão intrinsecamente ligadas estão ações humanas aos acontecimentos e seus significados, quer sejam individuais ou sociais, o que se entende por um determinado evento depende do contexto do qual este é parte integrante. Considerando este aspecto nas dinâmicas pessoais, os seres humanos convivem e participam de vários sistemas com diferentes símbolos e significados em suas formas organizacionais. Por isso, ao pensar-se que uma pessoa constitui um sistema em si, é preciso lembrar que se faz necessário considerá-la como parte de um sistema maior, onde nos contextos relacionais outras implicações de entendimento de níveis maiores estarão modificando entendimentos anteriores.

Gergen (1994) utiliza o conceito de suplementação, o qual parece resumir- se numa via de mão dupla onde indivíduos se suplementam ou respondem às ações e falas uns dos outros. Este processo desenvolve o potencial para que ocorra o significado numa situação onde duas pessoas estejam envolvidas, desde uma palavra até uma conversação. Tanto um quanto o outro numa relação estarão envolvidos em vários outros relacionamentos - os de antigamente, atuais ou vindouros, bem como farão parte destes os contextos em que estes se dão. Pessoas e contextos têm influência na suplementação e nos significados gerados

em uma díade, ou para um casal. Como o diálogo permeia estes outros contextos relacionais, a suplementação de dentro do casal acaba sendo levada para fora e a de fora, por sua vez, também vem para dentro da díade-casal. Assim, neste processo recíproco de ações e falas, os significados não ficam fixos dada a sua dinamicidade, mas são renovados continuamente (ANDERSON, 1997). Deste modo, um único indivíduo não é capaz de transmitir um significado, necessitando do outro para complementar sua ação e conferir-lhe função no relacionamento. Isso quer dizer que expressões isoladas somente adquirem significado quando coordenadas com a ação de outros indivíduos, por meio de alguma forma de ação suplementar (GERGEN, 1994). Neste contexto, a partir do momento em que ninguém se coordena em torno de determinada expressão, esta permanece sem sentido. É preciso compreender, pois, que quem qualifica o que um indivíduo expressa é aquele que recebe a mensagem emitida.

Shotter sugere que há algo comum nas versões de Construcionismo Social:

o foco de interesse central é “o movimento contingente de interação comunicativa contínua entre seres humanos...uma dimensão do self-outro de interação...a ênfase dialética sobre ambos, a contingência e a criatividade da interação humana,em construirmos e ao sermos construídos por nossas realidades sociais (1993b, p.12-13).

Apesar de perceber que a sua ação conjunta é semelhante à noção de suplementação de Gergen, Shotter (1989a, 1993, 1994 apud GRANDESSO, 2000, p.81) defende um Construcionismo Social mais prático, que se caracteriza como dialógico ou responsivo-retórico. Em sua opinião, a partir dos processos sociais e lingüísticos cria-se o mundo interno, ou seja, pensamentos, sentimentos e intenções nos atos de fala. A interação humana se dá pela linguagem de forma espontânea, corporificada, e apesar de invisível enquanto interação, faz-se presente de forma significativa nos discursos desenvolvidos na ação conjunta com os demais indivíduos. Segundo Shotter, a ação humana está relacionada ao seu grupo social, onde as ações já executadas e as vindouras estão e estarão, de certa forma, ligadas entre si.

Ações individuais devem ser coordenadas às de outras pessoas, uma vez que como seres sociais participam-se a todo tempo de processos interacionais. Nestes processos, por vezes ocorre uma diferença entre o que se pretende produzir e o que é de fato produzido, fazendo com que os resultados desses atos possam ser não intencionados, tendo em vista que estes acontecem independentemente de outrem. No entanto, ao mesmo tempo, há uma intencionalidade, já que além dos próprios atos existe um conjunto de futuros atos possíveis. As pessoas atuam segundo possibilidades ou oportunidades co- construídas, implicando que os resultados de suas ações apenas pareçam ser independentes (SHOTTER, 1989ª, 1993, 1994 apud GRANDESSO, 2000, p.82).

Neste contexto, onde a interação ocorre por intermédio da fala, apresenta- se outro conceito, o de comunicação “perfeita”, a qual pode ser entendida como aquela desempenhada por meio das habilidades de fala e escuta, além do comprometimento com o relacionamento. Portanto, quando uma pessoa não coopera suficientemente para satisfazer as necessidades de outra, se cria um “gap”, traduzido aqui por lacuna de comunicação, tornando esta limitada (HARRIS et al., 1984).

Analisando-se os conceitos de ação suplementar, ação conjunta e lacuna comunicacional, percebe-se que eles se inter-comunicam. Na tentativa de travar um diálogo entre eles, parte-se de uma fala de Bateson (1986) ao dizer que ações humanas, acontecimentos da vida e significados estão intimamente ligados.

Dado que cada pessoa é um sistema em si e que, em interação, cada indivíduo relaciona-se com outro sistema em si presente no outro, quando dois indivíduos em interação se falam não significa pouca coisa porque, nos atos da fala, uma imensidão de subjetividades e particularidades de cada ser humano passa do mundo de dentro para o mundo de fora, vindo a existir com sua unicidade e totalidade para o outro, que as qualificarão. Portanto, na ação suplementar, quando um indivíduo A se expressa para B emitindo uma pergunta, será B que irá qualificar a pergunta de A ao dar-lhe a resposta. Logo, o outro é peça fundamental para as vias de fato de A, ou seja, para que A se suplemente em B. Na ação conjunta, quando A fala, no momento interativo, traz presentes

conhecimentos, valores, crenças, sentimentos, intenções e significados que ficam à mercê de uma ação conjunta que só se dará na presença do outro. Novamente, o outro na relação será quem dará a uma ação a conotação de conjunta, que inexistiria sem o outro, ou seja, não haveria ação conjunta.

Há ainda algo mais a ser considerado: quando alguém fala com o outro, implica haver alguém na escuta, afinal, isto é o que naturalmente se espera quando se estabelece uma comunicação. Porém, se no ato da fala a outra pessoa não coopera oferecendo a escuta e a resposta interativa, a necessidade da pessoa que falou primeiro não estará satisfeita e, se isso ocorre, cria-se uma lacuna na comunicação, pois esta se apresenta incompleta, insatisfeita. Mais uma vez o outro é peça-chave para que a comunicação se estabeleça. Portanto, os indivíduos ficam sem sentido se não tiverem quem qualifique o que dizem e representam e sem terem quem ouça quem são ou do que falam. Estas confirmações viriam, na verdade, da qualificação do outro, que selaria um momento “entre” partes, concretizando uma interação. Porém, sem escuta, nada disso seria possível.

A lacuna de comunicação entre duas pessoas representa a impossibilidade inerente de seres humanos terem um completo conhecimento de si próprios, do outro, ou dos procedimentos de saber e agir na lógica cultural que eles criam juntos, ou seja, na forma como o seu saber e o seu agir se estruturam.

Assim, mesmo sendo preciso saber o significado intencional do ato de outrem para reconhecer a existência de tal ato, é possível que nunca se tenha um reconhecimento perfeito das intenções por trás deste, ainda que estas sejam questionadas. É importante lembrar, contudo, que a lacuna de comunicação não impedirá que ocorra a comunicação entre duas pessoas. Na verdade, o reconhecimento da existência desta lacuna força a ver a comunicação como um processo criativo pelo qual cada indivíduo forma a sua própria lógica cultural. Isto é, a pessoa estrutura o conhecimento em procedimentos de saber e agir. Duas ou mais pessoas podem estar envolvidas no processo de co-criar uma cultura lógica maior, contanto que cada uma possa entender as ações do outro (PEARCE; CRONEN, 1980 apud HARRIS et al., 1984, p.23).

CAPÍTULO 2 - CONJUGALIDADE: REVISANDO ESPAÇOS DISTINTOS

No documento Euridice Bergamaschi Vicente.pdf (páginas 30-37)

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