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Linguagem e signos do sistema

No documento Curso de Semiótica Jurídica (páginas 86-89)

Quadro de Modelo Comunicacional

Capítulo 2 - NOÇÕES FUNDAMENTAIS PARA UMA TOMADA DE POSIÇÃO ANALÍTICA

2.1. CÍRCULO DE VIENA

2.2.1. Linguagem e signos do sistema

O falar em linguagem remete o pensamento, forçosamente, para o sentido de outro vocábulo: o signo. Como unidade de um sistema que permite a comunicação inter-humana, signo é um ente que tem o status lógico de relação. Nele, um suporte físico se associa a um significado e a uma significação, para aplicarmos a terminologia husserliana. O suporte físico da linguagem idiomática é a palavra falada (ondas sonoras, que são matéria, provocadas pela movimentação de nossas cordas vocais no aparelho fonético) ou a palavra escrita (depósito de tinta no papel ou de giz na lousa). Esse dado, que integra a relação sígnica, como o próprio nome indica, tem natureza física, material. Refere-se a algo do mundo exterior ou interior, da existência concreta ou imaginária, atual ou passada, que é seu significado; e suscita em nossa mente uma noção, ideia ou conceito, que chamamos de “significação”. É necessário advertir que impera abundante descompasso entre os autores a respeito das denominações atribuídas a cada qual dos pontos desse triângulo, começando por aqueles que consideram o signo no seio de uma relação meramente bifásica ou bilateral26. De fato, se percorrermos os livros que se aprofundam na temática dos signos, vamos encontrar a mais variada terminologia. Umberto Eco27 utiliza significante para designar o suporte físico, significado para a significação e referente para o significado. Expõe, ainda, o nome que outros estudiosos adotam, como, por exemplo, Peirce, para quem signo é o suporte físico; interpretante, a significação; e o objeto, o significado. Morris, de sua parte, elegeu veículo sígnico no lugar de

25 Idem, ibidem, p. 253.

26 Carnap: indicador e indicado; Saussure: significante e significado.

27 O signo, 3ª ed., Lisboa, Editorial Presença, 1985.

suporte físico, designatum ou significatum em vez de significação e denotatum para aludir ao significado.

É sensível a divergência entre os termos usados pela doutrina especializada, circunstância que não chega a obscurecer ou dificultar a compreensão do assunto. Estabeleçamos, contudo, num pacto semântico, a adoção das palavras de que se serve Edmund Husserl:

suporte físico, significação e significado, prosseguindo no caminho que nos propusemos percorrer. Um exemplo, porém, terá o condão de consolidar a ideia de signo como relação triádica. A palavra manga (fruta) é o suporte físico (porção de tinta gravada no papel).

Refere-se a uma realidade do mundo exterior que todos conhecemos:

uma espécie de fruta, que é seu significado. E faz surgir em nossa mente o conceito de manga, variável de pessoa para pessoa, na dependência de fatores psíquicos ligados à experiência de vida de cada um. Para aqueles que apreciarem essa fruta, certamente que sua imagem será de um alimento apetitoso, suculento. Para os que dela não gostarem, a ideia será desfavorável, aparecendo a representação com aspectos bem diferentes. Trata-se da significação.

A classificação dos signos gera, também, intensas polêmicas.

Uma das mais difundidas, que examina a entidade segundo o tipo de associação mantida entre o suporte físico e o significado, exposta por Charles S. Peirce, distingue o gênero signo em três espécies:

índice, ícone e símbolo. índice é o signo que mantém conexão física com o objeto que indica. Nuvens carregadas, que se avolumam no céu, aparecem como índice de chuva. Os sintomas patológicos que os homens manifestam nada mais são do que índices das várias enfermidades. Examinado o paciente, verificando o médico que nele ocorrem alguns sintomas, interpreta esses índices como significativos da presença de um mal, substituindo-os, então, pelo nome técnico que as ciências médicas artificialmente criaram:

sinusite, hepatite, laringite, gastrite, etc. Veremos depois que tais palavras são signos da linguagem médica. O ícone, por sua vez, procura reproduzir, de algum modo, o objeto a que se refere, oferecendo traços de semelhança ou refletindo atributos que estão no objeto significado. Os desenhos figurativos, as próprias caricaturas, os bustos esculpidos ou entalhados, todos e muitos

outros, são exemplos de signos icônicos. Já o símbolo é um signo arbitrariamente construído, não guardando, em princípio, qualquer ligação com o objeto do mundo que ele significa. Aceitos por convenção, os símbolos são largamente utilizados nos mais diferentes códigos de comunicação. Deles não pode haver melhor exemplo do que as palavras de um determinado idioma. O vocábulo casa nada sugere, considerado em si mesmo, a respeito da entidade real que menciona. É produto de convenção, formada num processo evolutivo que a gramática histórica pode em parte explicar, se bem que a escolha propriamente dita, no seu modo primitivo de existir, continue sendo ato arbitrário. São exemplos de símbolo, em linguagens não idiomáticas, a bandeira branca, que exprime o pedido de paz; a cruz, expressão viva do cristianismo; os emblemas, brasões, distintivos e tudo aquilo que representa pessoas, famílias, clubes, países, instituições, etc.

A Semiologia, como Ciência que estuda a vida dos signos no seio da sociedade, foi apresentada por Ferdinand de Saussure e voltou-se mais para a linguagem verbal, uma vez que o autor era linguista. Todavia, o projeto foi concebido para a pesquisa de todo e qualquer sistema sígnico. Quase simultaneamente, Charles Sanders Peirce, filósofo americano, fundava a Semiótica como disciplina independente, tendo por objeto, também, os signos dos mais variados sistemas. De caráter mais acentuadamente filosófica, a teoria de Peirce teve, desde o início, o mesmo campo objetai que a Semiologia de Saussure, razão por que a maioria dos autores emprega os dois nomes como sinônimos para designar a teoria geral dos signos28.

Peirce e outro americano - Charles Morris29 - distinguem três

28 Durante anos, Semiótica, empregada por Charles Sanders Peirce, e Semiologia, utilizada por Ferdinand de Saussure, eram termos usados para designar a teoria geral dos signos. Ambos autores viveram no final do século XIX e início do século XX, portanto, foram contemporâneos. Por outro lado, contudo, não chegaram a manter contato e desenvolveram as respectivas teorias paralelamente. Só com Roman Jakobson, em 1974, em Milão, na abertura do primeiro congresso da Associação Internacional de Estudos Semióticos que se definiu a semiótica como ciência geral dos signos. Foi quando com seu On language, publicado em Cambridge, pela Universidade de Harvard, firmou:

“Language as one of the sign systems and linguistics as the science of verbal signs, is but a part of semiotics, the general science of signs which was forseen, named and delineated in John Locke’s essay... ”.

29 Signos, lenguaje y conducta, Buenos Aires, Losada, 1962.

planos na investigação dos sistemas sígnicos: o sintático, em que se estudam as relações dos signos entre si, isto é, signo com signo; o semântico, em que o foco de indagação é o vínculo do signo (suporte físico) com a realidade que ele exprime; e o pragmático, no qual se examina a relação do signo com os utentes da linguagem (emissor e destinatário). Exemplo da dimensão semiótica da sintaxe é a gramática de um idioma, conquanto a pesquisa gramatical vá além, ocupando-se da morfologia e da fonologia. A sintaxe, entretanto, pode ser definida como o sistema finito de regras capaz de produzir infinitas frases. Já o ângulo semântico cuida da associação que se instala entre o signo (como suporte físico) e o objeto do mundo (exterior ou interior) para o qual aponta. Modelo de trabalho semântico são os dicionários que, inspirados pela lexicografia, colecionam ordenadamente os signos de uma língua, tendo em vista a explicação de seu significado. Há dicionários próprios a muitos sistemas de linguagem, que servem ao conhecimento e à comunicação desse conhecimento entre os homens. Salientamos aqui, a título de registro, os dicionários de terminologia jurídica, onde as palavras do direito estão dispostas de tal modo que o leitor interessado possa encontrar os correspondentes significados que os diversos signos abriguem, atribuindo-lhes os sentidos possíveis. Por fim, o plano pragmático, que é de extrema fecundidade, sendo infinitas as formas de utilização dos signos pelos sujeitos da comunicação, em termos de produzir mensagens. Imaginemos um elogio feito pelo emissor a uma terceira pessoa, ausente do contexto comunicacional, introduzindo a mensagem mediante sorriso irônico.

É certo que o receptor compreenderá não se tratar de elogio verdadeiro, por força da combinação dos signos idiomáticos com os sinais extra-idiomáticos produzidos pelo emissor (manifestação que também aparece como signo ou signos, pertencentes, no entanto, a outro código).

No documento Curso de Semiótica Jurídica (páginas 86-89)