• Nenhum resultado encontrado

Linguagem e Verso: poesia

No documento Filosofar em tempos de informação (páginas 136-142)

2.2 TÉCNICA, HISTÓRIA E LINGUAGEM: O OLHAR HEIDEGGERIANO SOBRE O

2.2.3 Linguagem: ser e estar

2.2.3.1 Linguagem e Verso: poesia

Sobre a poesia, de há muito a conhecemos como um dizer privilegiado – não somente na exaltação insistente e, por vezes, superestimada que faz Heidegger dos seus poetas prediletos, mas também nas vozes de tantos outros pensadores que em consonante findam por conferir à poesia, e também à figura do poeta, o símbolo de resistência do pensamento. A alusão à poesia, por vezes reduzida à condição de recurso retórico, é também, não por acaso, entendida muitas vezes como romantismo e escapismo filosófico. Sobre informação ainda sabemos pouco, porém, no tocante a Heidegger, sabemos de seu uso em antagonismo à linguagem poética. O que sabemos superficialmente desta condição de oposição, embora obviamente a reconheçamos como relacionada à questão da linguagem, apressadamente nos induz à interpretação pejorativa da informação; o que reduz a abordagem heideggeriana do tema a uma crítica social ao frenesi do mundo da informática. Como, no entanto, superamos a dialética que promove o desencontro destas duas vias da linguagem – poesia e informação – e descobrimos nelas uma direção comum, poderemos vislumbrar ao indagarmos de que maneira o problema da poesia e da informação são, igualmente, uma questão filosófica para Heidegger. A legitimação de tal questão findará por tornar aparente a essência da linguagem que perfaz desvelamento/ocultamento de ser e revelação do que é. A morada da linguagem, da tradição do saber-nomeador como ‘lugar’ não diz respeito a um locos, tampouco trata-se de uma localização abstrata misteriosa, não é nem mesmo algo que devamos esperar encontrar, assim como também não podemos encontrar 'um Ser' – o simplesmente ser que por não ser algo que é, não pode estar 'contido' na linguagem. A essência da linguagem, sua relação com o que é e com o homem não é fácil de ser pensada: estamos, enquanto somos, envolvidos nesta relação, de modo que ela se oculta de nós.

sobre nós, tentemos manter em mente algo que Gadamer conta ter certa vez ouvido de Heidegger: “A diferença ontológica não é de modo algum algo que fazemos. Ela não se confunde com nossa diferenciação entre ser e ente.” (HEIDEGGER apud GADAMER, 2007, p.20). Entendemos assim que não é possível se demorar no instante em que ela essência da linguagem, assim como o evento de ser, se mostra para além da sua apropriação como um sistema lógico-formal de comunicação, visto que ela somente para nós aparece quando por nós apropriada, quando falamos e dela falamos. O sentido mais verdadeiro desta apropriação é, portanto, o que só podemos intuir filosoficamente, não o que dizemos sobre a linguagem, mas o que ela nos diz. Para Heidegger (v. 12, 2004, p. 12) , “o que se diz genuinamente é o poema”, e assim a poesia é privilegiadamente uma via de acesso fenomenológico à essência da linguagem.

Poderíamos logo de início argumentar que a um poema podem ser dadas tantas interpretações quantos forem os leitores e assim reconhecer em certa medida o que poderia ser visto como um capricho do filósofo, lançar mão dos versos de um determinado poema e a ele aplicar uma teoria. Tal questionamento, porém, nem mesmo se aplica ao nosso caso de estudo, visto que não pretendemos discutir se a linguagem se mostra “genuinamente” somente em um poema ou poeta em particular. Tratamos igualmente de compreender o que há de particular na poesia - mesmo que se trate de um só poema - que possibilita que nela se dê uma abertura à essência da linguagem, uma abertura na qual finalmente podemos ouvir o que fala a linguagem ao homem falante.

Heidegger (v. 13, 1983b, p. 148) diz: “Em verdade, é a linguagem quem fala e não o homem. O homem fala somente à medida em que co-responde [ent-spricht] à linguagem”. Nisto que se mostra como uma correspondência do homem para com a linguagem, se estabelece uma perspectiva na qual a linguagem não pode ser simplesmente uma propriedade biossocial do homem. Mas como pensar que a linguagem nos fala sem imediatamente recairmos no equívoco de inverter papeis e emprestar à linguagem a condição de agente? Como propriamente o que é vem a ser nomeado pelo homem na linguagem, de maneira que possamos com isto ainda afirmar que nem o

homem e nem muito menos a linguagem ‘deposita’ o ser das coisas na palavra? Como compreender o simples, compreender que na linguagem é esta conjunção espaço-temporal na qual o homem simplesmente está?

Comumente, o caráter derivado de habilidade animal distintivo da linguagem é o que em última instância define o homem. Mas para que o homem nomeie o que é, faz-se necessário o movimento de ser pelo qual a coisa em si aparece e assim nos parece – se mostra. O dizer do homem é compassado pela temporalidade da vigência do que é. A linguagem fala como um dito fundamental que anuncia o acontecimento-apropriação. O evento de ser do que é habita num lugar de correspondência com a linguagem que se dá na fala e no nomear da coisa que nos vem ao encontro. Antes da fala concreta do homem o mundo já se deu em suas possibilidades, já se deu no compreender prévio no qual nossa existência habita (o pré da presença), no âmbito da circunvisão o qual funda nossa lida existencial. A presença, reside nessa abertura antecipatória da mesma maneira que a totalidade das significâncias também se explicita antes mesmo de ser significada pela palavra. “A palavra é ela mesma a relação que a cada vez envolve de tal maneira a coisa dentro de si que a coisa "é" coisa.” (HEIDEGGER, v. 12, 2004, p. 130), Tudo o que a proposição demonstra, predica e comunica, em verdade, já foi compreendido e, mais que isso, explicitado originariamente como conjuntura de mundo. É nesse sentido que a linguagem condiciona o homem falante. Mas, se Heidegger destituiu do homem um grande poder, o de ser dono da linguagem, em compensação, lhe atesta um outro: como poder-ser, a presença que aí está, exerce a todo momento sua distintiva posição de saber-nomear e de ser provocado à determinar com a palavra a mostração do que é. Há na essência da linguagem uma proveniência de ser à qual o homem corresponde enquanto ser falante. E o que fala a linguagem? “Sua fala chama a diferença, a di-ferença que des-apropria mundo e coisa para a simplicidade de sua intimidade.” (p. 26)

Na poesia podemos intuir esse traço essencial da linguagem e também nossa relação com a linguagem enquanto homem que fala, pois ela é como uma proposição especial na qual o poder-ser

da linguagem se alinha de maneira mais radical ao poder-ser do homem. Das muitas interpretações sobre a questão da poesia na obra de Heidegger, escolhemos nos referir a Gadamer (2007, p. 117), que considera que “O destino do Ocidente está inconfundivelmente inscrito nesse tema.”:

Pois o que determina o poetar é o fato de a palavra da poesia atestar a si mesma e não poder ser atestada por nada diverso [...] o fato de a palavra atestar a si mesma e não necessitar de um preenchimento vindo de algum outro lugar, sim, o fato de ela não admitir um tal preenchimento, é isso que constitui a aletheia (o que Heidegger traduziu por “desvelamento”), o que é mais do que quando esse ou aquele conhecimento deve ser designado como verdadeiro.” (p. 118)

Assim, Gadamer interpreta o lugar privilegiado da poesia em termos de verdade. Verdade em oposição à correção. A poesia, que não admite a qualidade de 'certo ou errado', que não pode ser uma proposição, nos permite aceder a um outro âmbito da verdade; verdade como desvelamento, como simplesmente mostração do que é. Nesta verdade encoberta como descoberta pela técnica, o referencial de adequação à realidade perde força, pois não há “julgamento” ou concordância – há somente o vigor do dito. Este dito também tem em si a temporalidade própria do vigor-de-ter-sido; assim o que está posto no dito transcende a temporalidade de uma proposição datada: a poesia não tem tempo e portanto é puramente historial. A autêntica poesia é sempre sobre nada em particular e não obstante, nela vigora o pleno da linguagem, o que a torna transbordante de sentido. O dito da poesia não é algo que primeiramente possa ser valorado como concordância entre o que é predicado e a realidade dos objetos que predica, e é por esta razão que sagradamente a poesia mantém-se como indicação do traço mais originário da linguagem. A linguagem da tradição para Heidegger é poesia, pois “A tradição da linguagem é por ela mesma consumada, de tal maneira que o homem é por ela reclamado a dizer de novo o mundo que está na linguagem conservado e trazer à luz o ainda-não-visto [Noch-nicht-geschautes]. Este é o trabalho do poeta.” (HEIDEGGER, 1989b, p. 27). Não obstante, novamente alguém poderia objetar que este privilégio não é exclusivo da poesia, e que em verdade se dá em qualquer obra de arte; na poesia de Hölderlin, mas também numa tela de Van Gogh, visto que linguagem não se reduz à escrita. De fato, a obra de arte resguarda o nexo de verdade enquanto aletheia, não importa qual seja o 'suporte'. Contudo, entendemos que para

Heidegger a análise do discurso poético serve não somente para a ilustração do sentido essencial de linguagem, mas também de parâmetro para a análise do discurso filosófico. Em um certo sentido, também está sendo discutido o caráter da proposição filosófica, em que o dito da filosofia se aproxima do pensamento essencial e se diferencia da proposição científica e é justamente neste alinhamento subliminar com a filosofia que o privilégio da poesia como figura de ilustração da linguagem originária deve ser interpretado.

Entendemos que para Heidegger o discurso poético e o discurso filosófico se encontram, partilham de uma essência unitária, convergem e têm lugar na mesma “ponta de lança”. (HEIDEGGER, v. 12, 2004, p. 27). A filosofia explicita o dito da poesia, sempre ao modo de um versar sobre que procura manter na tradição a preservação do brilho inicial do que vem à luz em si, da coisa em si. Este versar sobre, é um inclinar-se em direção ao sentido do que vem ao encontro na palavra, sem contudo exaurir o ser do que é numa determinação. Assim também a filosofia é um versar sobre ser – ao invés de uma discussão sobre qualquer coisa que seja. E mesmo quando a filosofia, assim como a poesia, parece apresentar um 'tema'; deixa sempre vigorar uma multitude de sentidos. Na sua aparência de 'não dizer coisa com coisa', ressoa nela um modo de um pensar- sentido no qual nenhuma objetividade é mais possível. Uma proposição aparentemente sem propósito, sem objeto, sem objetivo e, contudo, a fala mais autêntica e a mais próxima do habitar o qual a linguagem é a própria morada.

O discurso da poesia e da filosofia não pode se resumir na precisão da erudição científica a qual Heidegger quer fazer contraposição. Desta maneira, observemos uma nuance fundamental: no mesmo lugar onde se dá o simples dizer nada, também se dá como possível o dizer o nada; o vazio do jargão e da verborragia.

Toda formulação é perigosa. Ela constrange o dizer, reduzindo-o à exterioridade de uma opinião apressada e minando com facilidade a lentidão do pensamento. Mas uma formulação pode também ser um auxílio, ao menos uma provocação e uma parada no vagaroso pensamento do sentido. (HEIDEGGER, v. 12, 2004, p. 69). Na poesia, assim como na filosofia se dá e se preserva esta possibilidade, a possibilidade do ainda

possível ser da linguagem. Em suma, chegamos ao pensamento sobre sua essência e à demonstração desta essência através da poesia. Estabelecemos também uma perspectiva na qual a discussão da poesia é uma referência à própria discussão do dizer filosófico. Em última instância, a caracterização do dizer poético que nos serve de indicação para o sentido essencial de linguagem, se revela como indicação para o próprio caráter do pensar da filosofia com o qual queremos pensar nosso hoje. Num primeiro momento, nos ocupamos em expressar a poesia como mostração da linguagem como um lugar de desvelamento de ser. Agora, devemos pensar o reverso, como informação.

No documento Filosofar em tempos de informação (páginas 136-142)

Documentos relacionados