Foto 4 Aylan à beira mar
6.2 ANÁLISE DO CORPUS
6.2.2 Linguagem não verbal e efeitos de sentidos
Conforme vimos na seção anterior, consideramos como interlocutores os autores das fotografias e vídeos, mas retomaremos aqui as escolhas enunciativas não verbais e os efeitos de sentidos por elas produzidos.
Grande parte dos textos jornalísticos é sincrética, ou seja, apresentam a junção da linguagem verbal e não verbal. Esse também é o caso da notícia que compõe nosso corpus de análise. Como linguagem não verbal, a notícia em análise apresenta três fotografias e um vídeo. Analisaremos, primeiramente, as imagens e, posteriormente o vídeo.
a) Fotografias
A primeira fotografia aparece na notícia logo abaixo da manchete e do subtítulo. É a primeira informação que o leitor recebe, antes mesmo do texto verbal. A fotografia é apresentada no centro com aproximadamente 1/3 da página.
Convém pensar no porquê de essa foto ser apresentada ao leitor antes mesmo de qualquer linguagem verbal. Talvez porque se a cena fosse descrita, ao invés de mostrada, o efeito seria diferente, o leitor não se sensibilizaria tanto quanto ao visualizar a cena que está sendo exibida. A diagramação da fotografia igualmente reitera o apelo ao sensível do leitor,
considerando que sua proporção é maior do que o texto verbal e aparece no início do corpo da notícia, arrebatando, portanto, a atenção do leitor por meio de mecanismos de ordem do sensível. Vejamos:
Foto 1 - Policial paramilitar e criança
Fonte: G1 (2015).
Policiais são, costumeiramente, conhecidos como pessoas rigorosas, que cumprem e fazem cumprir as leis para que tudo seja legal. Essas pessoas, por conta do seu trabalho, vivenciam tragédias, cenas fortes e precisam lidar com a presença da dor física e emocional alheia.
Um homem alto, magro, usando uniforme de autoridade, à beira mar. Um cenário cinza, com restos de lixo ou destroços espalhados pela areia. Uma criança no colo de um policial. A criança não tem vida e isso faz com que todos sintam a dor da perda. A criança que está nos braços do policial poderia ser um de seus familiares. Essa sensação é compartilhada com os leitores, que se comovem porque o menino poderia ser um dos seus.
A legenda que ancora a imagem diz o seguinte:
A legenda da foto é apresentada em forma de debreagem enunciva de pessoa e espaço (ele, no lá), ou seja, o narrador não se marca no texto a fim de projetar efeitos de distanciamento e objetividade. Nessa legenda, o narrador cumpre seu papel de informar. O policial paramilitar é uma pessoa tão comum quanto a criança que estava morta na praia. “Uma criança morta que apareceu em praia”, esse trecho demonstra que a terceira pessoa é literalmente utilizada como uma não pessoa, metaforicamente, como se fosse um objeto que apareceu naquele lugar. Os artigos indefinidos “uma criança”, “vários migrantes” e “alguns seguem desaparecidos” corroboram para o efeito de sentido de distanciamento do narrador perante o que está sendo enunciado.
Quanto à projeção dos atores no enunciado, a imagem do policial, assim como a legenda, também é marcada por debreagem actancial enunciva, pois o policial paramilitar está olhando na direção do chão, ele não olha para a câmera (o que poderia dar um efeito de aproximação entre o ator da foto e o leitor). Ele também não olha para a criança que está em seus braços. Isso parece corroborar a ideia de que os policiais estão acostumados com cenas fortes. Ou seja, o policial está ali apenas cumprindo sua tarefa de recolher um corpo morto. Não há traços de emoção da face dele, tanto é que olha para o lado e não para a criança. Essa atitude “coisifica” ainda mais o menino, demonstrando que ele era apenas mais uma vítima do acontecido. Todavia, pode-se considerar que o fato de o policial não olhar para a criança morta desperta efeitos de apelo ao sensível, pois esse actante é uma pessoa que possui sentimentos e por isso tenta evitar a cena forte e comovente.
O rosto da criança não é exposto, somente é possível ver os membros inferiores dela. Contudo, o mar, o possível movimento das ondas, o tamanho da criança em proporção ao tamanho do policial, os destroços/lixos espalhados pelo chão, tudo isso cria efeitos de realidade e, de certa forma, aproxima o leitor da situação enunciada. Ninguém mais aparece na fotografia, a praia aparenta ser deserta, a areia é turva, o cenário é cinza, lixos e destroços ocupam a beira mar. Tudo isso corrobora para que o leitor visualize o ambiente e o perceba como um espaço triste, ermo, desolador. Esses elementos não verbais despertam no leitor efeitos passionais. O leitor é sensibilizado porque a cena é composta por pessoas de carne e
Policial paramilitar recolhe o corpo de uma criança morta que apareceu em praia da ilha de Kos, na Grécia. Vários migrantes morreram afogados e alguns seguem desaparecidos após botes lotados naufragarem durante tentativa de chegar ao território grego.
osso num ambiente que, costumeiramente, é tido como agradável e prazeroso, no entanto, evoca sentimentos de solidão, tristeza, angústia, perda e vazio.
Posterior a essa imagem, segue um texto verbal composto pelas falas do enunciador e interlocutores. Logo abaixo, é apresentado ao leitor a foto do pai de Aylan Kurdi, Abdullah Kurdi, que antecede o texto verbal em que explica a reação do pai. A imagem é apresentada no certo da página e com dimensões maiores que o texto verbal. O fato dela vir antes do texto verbal que explica a reação do pai evidencia o quanto uma imagem pode expressar mais que palavras.
Foto 2 - Pai de Aylan Kurdi
Fonte: G1 (2015).
Observemos, primeiramente, a legenda da foto:
Abdullah Kurdi, pai de Aylan Kurdi, menino de 3 anos encontrado morto em uma praia na quarta-feira (2), chora ao deixar um necrotério em Mulga, na Turquia. A família tentava migrar para o Canadá após fugir de Kobaní, cidade devastada pela guerra.
Na legenda desta imagem, o narrador também se manifesta por meio de debreagens enuncivas de pessoa e de espaço (ele, no lá), criando efeito de distanciamento em relação ao leitor, pois enuncia em terceira pessoa. No entanto, os actantes recebem nomes: Abdullah Kurdi, o pai; e Aylan Kurdi, o menino de 3 anos que foi encontrado morto. Além disso, os lugares são identificados e recebem informações. Essas estratégias provocam efeitos de realidade para o leitor.
A fotografia de Abdullah Kurdi deixa transparecer toda tristeza e dor que ele estava sentindo naquele momento. A aproximação da câmera, a escuridão ao fundo e o foco total no pai produzem efeito de aproximação entre o autor da fotografia e o leitor. Nessa mesma cena, o fotógrafo retrata aquele instante da sua maneira, proporcionando assim efeitos de subjetividade. A expressão facial do pai, o choro, os olhos fechados e a mão levada à cabeça colaboram para despertar no leitor efeitos de passionalidade porque, muito mais que palavras, a imagem demonstra todo desespero de um pai ao perder seus filhos. O fato de o actante, pai de Aylan Kurdi, estar de frente para o leitor e olhando para a câmera (mesmo estando com os olhos fechados no momento da captura da fotografia) cria uma imagem em posição de debreagem actancial enunciativa que expressa nitidamente sentimentos de dor e pesar pela perda do filho. A dimensão da fotografia é maior que o texto verbal, aproximando o leitor da imagem enunciada e provocando efeitos de passionalidade. A dor de perder alguém especial é sofrida, perder um filho é perder uma parte de si. É uma dor inconsolável demonstrada através de uma imagem. Nenhuma palavra seria forte o suficiente para descrever a dor desse pai que perdeu dois filhos e a esposa na tentativa de migrar para o Canadá.
Embora as duas fotografias já apresentadas demonstrem apelo ao sensível, a terceira causa ainda mais comoção no leitor. Porém, antes dessa fotografia ser apresentada ao leitor um texto sincrético em formato de aviso19 chama a atenção do interlocutor.
19
Foto 3 - Aviso
Fonte: G1 (2015).
O fundo em degradê, contendo a parte superior na cor branca e a inferior em cinza suscitam o efeito de transformação – o branco em oposição ao cinza lembra as oposições entre o leve e o pesado, o fraco e o forte. A escrita em vermelho chama a atenção e causa efeito de que algo ruim irá acontecer. A palavra “aviso” – escrita em negrito, letras maiúsculas, em fonte arial, centralizada e em tamanho grande –desperta o leitor para o recado que será repassado. A frase: “A imagem é forte”, escrita em letras menores, mas ainda bem visíveis, na cor vermelha, lembrando sangue, avisam o leitor de que é preciso ser forte para visualizar a imagem. Que ela é perturbadora, chocante.
Foto 4 - Aylan à beira mar
Fonte: G1 (2015).
Aylan está morto, sua boca está voltada para a água, seus bracinhos para trás, como se demonstrasse que não há mais forças para lutar, ou até mesmo para viver. O policial de costas e Aylan imóvel no chão, demonstram uma fotografia em debreagem enunciva, já que nenhum deles se volta para a câmera. A impossibilidade de ação e a inércia do policial combinam com o adjetivo “petrificada” utilizado pela fotógrafa logo na manchete da notícia.
Não é por acaso que essa é a imagem que finaliza a notícia e ocupa maior espaço em proporção às demais e ao texto verbal. Chocante, triste, inconsolável e uma infinidade de adjetivos seriam incapazes de definir os efeitos passionais que esta fotografia projeta. A imagem é muito mais forte do que as palavras. Ela tem o poder de remeter o leitor para dentro da cena. Através da fotografia, o leitor consegue, em algum grau, projetar-se no espaço do ocorrido, visto que consegue visualizar cada detalhe e não apenas imaginar, como acontece quando somente são utilizadas palavras para descrever um momento ou um ambiente. Certamente, outras fotos foram feitas, mas como todas as escolhas buscam persuadir o outro, é evidente que o narrador utilizou essa estratégia para captar a atenção do narratário.
Incoerente seria dizer que a fotógrafa não tinha nenhum objetivo ao fotografar uma criança, na praia, sem vida. Tampouco acontece com o enunciador (equipe do jornal) e narrador (repórter) que subjetivamente demonstram suas escolhas através das imagens e palavras utilizadas no decorrer da notícia. Logo, percebemos o efeito de sentido para sensibilizar o leitor ao estampar, em tamanho maior que as demais, a imagem do menino Aylan morto à beira-mar.
Antes de a imagem ser apresentada, um aviso de imagem forte é concedido ao leitor. Após ser apresentada, além da legenda, que também é enunciada em debreagens enuncivas, nenhuma outra palavra é direcionada ao leitor. Ou seja, não existem palavras que expliquem tal situação. É importante notar que são duas as pessoas que aparecem na cena (o menino e o policial), no entanto, a atenção toda é voltada para a criança. O emocional de qualquer pessoa é tocado ao visualizar essa fotografia, não é por menos, que ela virou símbolo da crise migratória relatada. Considerando que a teoria semiótica do texto trabalha com oposições, atentamos para as oposições entre a vida e a morte apresentadas, nesse caso, na posição vertical do policial e na posição horizontal de Aylan. Enquanto este representa, metaforicamente, a morte, aquele representa a vida.
Todas essas estratégias, juntamente com a proporção de tamanho entre o policial e a criança e a praia aparentemente deserta, apenas com destroços espalhados pelo chão, suscitam no leitor efeitos de realidade e aproximação, pois é possível identificar que se trata de pessoas, lugar e fato reais. Os efeitos de ordem sensível se acentuam na imagem do menino encontrado sozinho, morto, de bruços para o mar, numa praia deserta. O corpo do menino é recolhido por um policial que aparentemente não expressa nenhum sentimento através das suas expressões faciais e corporais, dando ideia de que ele está lá apenas para cumprir seu papel: recolher “coisas” de um naufrágio ocorrido por conta de uma crise imigratória, inclusive uma criança morta.
b) Vídeo
A notícia também apresenta um vídeo20 que, conforme visto anteriormente, é a forma mais expressiva de junção das linguagens verbais e visuais. O vídeo está inserido no corpo da notícia, logo após os relatos do pai de Aylan e antes da imagem que se tornou símbolo da crise e tanto repercutiu nos meios de comunicação. Esse vídeo tem duração de 01 minuto e 05 segundos.
Os vídeos, por apresentarem cenas em tempo real, denotam efeitos de realidade e aproximação, pois os atores são pessoas reais, de carne e osso, que se dirigem ao interlocutor. Portanto, são capazes de suscitar outros efeitos que remetem ao sensível do leitor. Este vídeo inicia com um aviso de “Atenção” escrito em letras grandes e vermelhas para realmente captar a atenção do leitor. Juntamente, aparece escrito: “As imagens são fortes” em letras menores na cor cinza. O tempo de duração do vídeo é de 01 minuto e 05 segundos. Desse tempo total, 09 segundos são destinados ao aviso, ou seja, um tempo maior que o suficiente para a leitura ser feita. Por ser maior que o necessário, esse tempo provoca suspense, ansiedade e expectativa no leitor, pois ele deseja saber o que está por trás desse aviso.
Posterior ao aviso, são apresentados 05 segundos de imagens de roupas, sapatos e objetos perdidos na areia. Nessa fração de segundos, o único som possível de ser ouvido é o barulho das ondas do mar. Ninguém mais se manifesta, nada mais se ouve. Dos 16 aos 18 segundos do vídeo, aparecem cinco homens retirando um bote inflável do mar. Percebe-se que eles conversam entre si, mas não é possível identificar o que estão falando. Provavelmente esses homens auxiliam na busca das pessoas afetadas pelo naufrágio.
As “imagens fortes” perduram durante longos segundos, mais precisamente, dos 19 segundos ao final do vídeo. Após a imagem dos homens retirando o bote, aparece a imagem do menino morto na areia. São exatos 17 segundos de angústia em que Aylan aparece sozinho, em diferentes ângulos, sendo personagem principal de uma cena triste e revoltante. Aylan, uma criança indefesa e com um futuro enorme pela frente, se encontra morto, à beira da praia, em posição de bruços, sendo atingido pelas ondas do mar sem poder ao menos tentar se defender. Uma criança morta diante da imensidão do mar. O único som identificado é o barulho das ondas do mar.
A linguagem verbal, no vídeo, é identificada pela legenda: “Turquia Família de criança encontrada morta tentava ir para o Canadá”. A legenda, por ser enunciada em 3ª
20O vídeo pode ser acessado através do link:<http://g1.globo.com/mundo/noticia/2015/09/fiquei-petrificada-diz-
pessoa, provoca efeitos de distanciamento e objetividade. A sensação estabelecida pela legenda é que nada mais precisa ser dito, apenas visualizado, pois as imagens falam por si só.
A partir dos 35 segundos do vídeo começam aparecer os policiais militares responsáveis pela busca das pessoas atingidas. Eles fotografam a cena que chocou o mundo, escrevem suas anotações e se aproximam da criança, aparentemente, com receio e piedade. Algumas vozes conversam no fundo do vídeo, mas em nenhum momento é possível identificar o que falam.
O corpo de Aylan é retirado do mar aos 53 segundos de vídeo, ou seja, o tempo em que a criança aparece sozinha e indefesa é mais extenso que todas as outras cenas. Essa cena não é a mais extensa por acaso. Ao decidir que essa seria a cena mais extensa, o enunciador expõe sua decisão, causando, portanto, efeitos de angústia, compaixão e sensibilidade no leitor. Qualquer ser humano, em livres condições de expressões e sentimentos, tentaria salvar uma criança. Os segundos finais do vídeo exibem um adulto sendo retirado do mar, também sem vida, por outras três pessoas. Portanto, percebe-se que o foco total do vídeo e da notícia foi dado ao menino Aylan.
Em nenhum momento do vídeo os atores se voltam para a câmera, estão todos esses atores, portanto, em posição enunciva. No entanto, o som das ondas, o movimento do mar e do outros atores, enfim, o cenário da tragédia reproduzido em vídeo produz efeitos de aproximação ente leitor e fato noticiado. As tomadas de câmera se voltam a todo instante para Aylan Kurdi a fim de ocasionar efeitos de passionalidade no leitor.
Assim, são evocados efeitos de realidade, pois vivemos as cenas através do vídeo e das fotografias. Os efeitos de aproximação e de subjetividade são expressos pelas escolhas enunciativas verbais e não verbais feitas pelos interlocutores. Os efeitos passionais se projetam através de alguns discursos, das palavras utilizadas, pelas fotografias, pelo vídeo. Tudo isso aproxima o leitor da cena porque ele se coloca no lugar do pai, ou seja, através dos discursos diretos, das fotografias e, consequentemente, das cenas mostradas no vídeo.